Até que ponto teremos que destruir para começar a reconstruir?

por Marco Aurélio Jacob

Este não é mais um daqueles textos ecochatos como diriam alguns ilustres insensíveis aos problemas que ultrapassam sua esfera pessoal e imediata.

As queimadas, as inundações, a seca, o aquecimento global, a qualidade do ar são problemas da natureza, certo? O que eu posso fazer já que quem toca fogo e incendeia o campo está longe? Ou se não sou eu que corto arvores ou poluo o meio ambiente?

Para a primeira pergunta a resposta é: Errado. É a mão do homem e da mulher que interfere e infelizmente tem como prática:
1. a queimada para se livrar do resto das folhas do quintal;
2. o lavrador para limpar o campo pré ou pós colheita, do mato alto que se alastrou e até mesmo para aumentar a área de plantio;
3. As inundações urbanas que vem pela falta de área verde no quintal (absorção do solo);
4. corte de árvores da mata ciliar (na beira dos rios, lagos e nascentes) para construir;
5. usar o carro ou tecnologias provindas (derivados do petróleo ou produtos que não tem reciclagem como isopor) de indústrias poluentes;
6. uso ou consumo de produtos tóxicos como os agrotóxicos. Veneno de cada dia que vai a mesa nas frutas e verduras. O Brasil, desde 2008 é o maior consumidor de agrotóxicos, confira o documentário “O veneno está na mesa” na integra:

Cada ato que é praticado, cada coisas que é utilizada, os hábitos desenvolvidos em nome do consumo e do imediatismo precisam ser repensados racionalmente. Para isso iremos desenvolver esta série de reportagens, dicas e estímulos com base em bons exemplos e boas práticas de como podemos fazer parte da mudança que o mundo precisa.

Não é só a política que precisa de mudanças, todos nós podemos mudar e ajudar a ser aquilo que queremos ver.

Em 2015, em Nova Iorque, foram estabelecidos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU para este milênio… sim, para os próximos mil anos. Mais de 150 líderes mundiais assinaram o termo que deve ser implementado por todos os países do mundo até 2030.

Para ter acesso ao conteúdo completo dos objetivos e análise ponto a ponto as nações unidas clique no link do artigo abaixo:

Conheça os novos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Dentre as diretrizes que precisam ser repensadas com urgência estão os famosos Rs, alguns dizem “3 Rs”: 1. Reduza o consumo, 2. Recicle e 3. Reutilize os Produtos. Mas os “5 Rs” são mais completos e iremos abordar agora:

1. REPENSAR: Este é o mais importante de todos. É a matriz dos seres humanos, a capacidade de pensar e fazer associações. Podemos reavaliar nossos hábitos e mudar. Assim como várias pessoas redefinem seus corpos com dietas e educação alimentar ou outras se dedicam e passam em vestibular ou concursos difíceis, todos somos capazes de raciocinar e pensar em como estamos lidando com o mundo e nosso entorno. Se estamos jogando lixo no lugar certo e consumindo coisas que não fazem bem, tanto para nós, como para o meio ambiente e se estamos sendo bons exemplos as crianças, mesmo que não tenhamos filhos. Aquela frase é ótima: “Não faça nada que você não faria se alguém tivesse olhando.” Precisamos desenvolver a empatia e se importar sim com os outros, não diretamente com aqui que pensam, mas com aquilo que seremos exemplos ou que legado deixaremos para a sociedade.

2. REDUZIR: Principalmente a geração de lixo e consumo inconsequente com desperdício, ou excesso de embalagens. Comprar em feiras e atacado é melhor, mais saudável e menos poluente. Escolher produtos mais duráveis, isso pode significar mais caro algumas vezes, mas a longo prazo fica mais barato. É o que acontece, por exemplo, com o liquidificador ou com a furadeira barata: eles quebram e precisaremos comprar várias durante a vida, ou então optarmos por um produto melhor que compense arrumar ao invés de jogar fora. Em relação ao consumo direto tem as embalagens retornáveis de bebidas, as pilhas recarregáveis, lanternas com dínamo (aquela que gira e acende) ou luz solar, enfim, a cada dia temos mais novidades no setor eco tecnológico.

3. RECUSAR: A decisão de comprar ou não um produto, escolher um serviço ou outro é sempre pessoal. Produtos poluentes como aerossóis, alimentos transgênicos, isopor, sacos plásticos e embalagens não recicláveis, lâmpadas incandescentes (as antigas) devem sair de mercado e parar de serem utilizadas, já que existem lâmpadas led e sacolas biodegradáveis (que de decompõe na natureza), por exemplo.

Muita gente está abrindo os olhos e recusando as empresas que poluem demais como a do petróleo (optando por transporte coletivo, caminhada ou bicicleta) ou as empresas que poluem os lençóis freáticos e os aquíferos com o excesso de agrotóxico, como a Bunge, a Monsanto, a Basf, ou do ramo alimentício segundo a Oxfan, as empresas mais poluentes são: a Associated British Foods, Coca- Cola, Danone, General Mills, Kellogg’s, Marte, Mondelez International, Nestlé, PepsiCo e Unilever.

Há ainda empresas ou fazendeiros que pagam pouco aos funcionários (ou com trabalho escravo), que fazem uso errado dos recursos naturais ou destroem a floresta amazônica para plantar soja (como o ministro da agricultura Blairo Maggi). Ou parar de comer carne, tanto pela crueldade, como pela poluição e destruição que sua prática gera:

4. REUTILIZAR: Reutilizar é um ato consciente e inspirador: embalagens, pneus, papel, vidros, metal e qualquer produto que possa ter um novo uso… um novo olhar ajuda a ampliar a vida útil além de reduzir a extração de matérias-primas para sua confecção. Tem um vídeo que aborda muito bem a origem e o impacto da extração de matéria prima e seu custo para o planeta:

“A origem das coisas”

Segue um exemplo de como reutilizar as embalagens de amaciantes:

5. RECICLAR: Infelizmente muitas cidades ou países ainda não abriram os olhos para a riqueza que é o mercado dos reciclados.

Além de lucrativo gera muitos empregos com toda a sua cadeia de produção e ainda faz um limpa ao meio ambiente.

Mas é um trabalho que deve ser iniciado já nas escolas, explicando os tipos de resíduos (lixos), suas características, e a possibilidade de reciclagem ou não. Existe a separação simples: de resíduos orgânicos, restos de comida, guardanapos usados, fraldas; e os resíduos recicláveis, latas, papeis, plásticos, vidros. Na parte dos resíduos recicláveis é possível fazer a separação já na hora do descarte com as lixeiras com cores diferentes:

Assim podemos contribuir com um mercado em ascensão e também cobrar dos nossos governantes a implementação do sistema de coleta seletiva, como já existe em muitas cidades no Brasil e no mundo. Com postos de reciclagem ou com a coleta intercalada entre lixo comum (orgânico) e o lixo reciclável. Melhorando o meio ambiente e ainda gerando mais empregos.

Existem várias formas de contribuir, mas a principal é a conscientização de que é preciso mudar. Este é o primeiro passo para então pensar nos próximos e tomar as atitudes necessárias para que o mundo não seja destruído antes do tempo.

Por isso o título deste artigo: “Até que ponto teremos que destruir para começar a reconstruir”, diante de tanta destruição e tanta gente que pensa que uma pessoa só não faz a diferença… mas faz sim, cada um importa, pois o mundo como está hoje e como ele foi moldado para uso da própria humanidade. O mundo é feito de pessoas de carne e osso e cada atitude faz a diferença tanto que conhecemos os grandes indivíduos por nome e estudamos suas histórias, suas conquistas e sua contribuição ou não para este planeta.

Deixo aqui a pergunta para despertar atitude: Que tipo de pessoa você quer ser? Alguém que ajuda a reconstruir e preservar, que seja um modelo para os próximos e para as crianças que estão em seu entorno… Ou alguém que vê o mundo passar e não faz nada, que só usa e destrói sem pensar nas consequências de seus atos. Quem é você? Em que você quer se tornar? Ainda dá tempo!

2 Comentários

  1. Muito boa a análise. Realmente sem mudança de atitude não há como mudar o mundo. Tudo começa localmente, interiormente.

Sua opinião é muito importante: