Entre mestres e aprendizes: arte da ourivesaria em Natividade perpassa gerações

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Realizou-se na quarta, 27, pelo Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGG) do Câmpus de Porto Nacional, a terceira defesa de uma dissertação relacionada à questão do patrimônio cultural tocantinense junto à comunidade. A defesa ocorreu no Centro Histórico de Natividade, na Câmara Municipal do Município.

A pesquisa, intitulada “Os filigraneiros de Natividade, Tocantins: patrimônio imaterial, identidade e turismo”, investigou a antiga arte da ourivesaria empregando a filigrana e, no percurso, entrevistou ourives, ex-ourives, aprendizes, moradores e sujeitos ligados ao turismo local de Natividade. O trabalho foi desenvolvido pelo mestrando Wátila Misla Fernandes Bonfim, sob a orientação da professora Rosane Balsan.

“O objetivo principal foi investigar como as joias tradicionais e as filigranadas de Natividade marcam a relação da sociedade com o lugar, dinamizando as relações sociais e econômicas das pessoas”, destacou Wátila. “Passado e presente continuam entrelaçados como tênues fios, que dão origem às peças em filigrana”.

Ao longo do trabalho, o mestrando observou que a tradição secular de se confeccionar joias em ouro e prata na cidade, empregando-se a apurada técnica da filigrana, permanece viva: a arte segue sendo ensinada, dos mestres-ourives aos seus aprendizes, já há várias gerações.

Para Rosane Balsan, as pesquisas que vem sendo feitas sobre o patrimônio cultural tocantinense ajudam a protegê-lo. “Esses trabalhos científicos são iniciativas de estudantes e de nós, professores orientadores, que analisamos resultados de pesquisas para lançar luz e perspectivas sobre a cultura e a política pública de Patrimônio Cultural no Estado”, frisou a professora.

A arte milenar da filigrana

A filigrana é uma técnica de ourivesaria que utiliza fios finíssimos e pequeninas bolas de ouro e prata que, soldados, formam desenhos delicados, em arranjos circulares, espiralados ou em “s”. Estima-se sua origem no terceiro milênio antes de Cristo, na Mesopotâmia. Peças mais antigas de filigrana datam de 2500 a.C., encontradas nas sepulturas do Ur, atual Iraque.

A filigrana adentrou a Europa pelas rotas comerciais do Mediterrâneo, popularizando-se entre gregos e romanos. O Oriente Médio, sendo um ponto de encontro entre culturas, fez com que a filigrana cruzasse mesmo fronteiras, chegando também à Índia e à China.

Em Portugal, a filigrana foi propriamente desenvolvida já no século VII d.C. A filigrana de origem portuguesa costuma representar o amor, a natureza e a religiosidade – em joias trabalhadas com motivos de corações, flores, peixes, conchas, cruzes, anjos, entre outros.

A pequena cidade de Natividade, a mais antiga do Tocantins, herdou a técnica da ourivesaria trazida pelos portugueses. Entre os representantes nativitanos mais respeitados na arte da filigrana, está Mestre Juvenal. Junto aos seus aprendizes, cria joias de rara beleza – como o peixe articulado -, em trabalho manual minucioso.

Natividade, patrimônio cultural

A cidade de Natividade – surgida a partir de 1734 durante a expansão, no centro-oeste do país, da atividade mineradora – foi tombada como Patrimônio, em 1987, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O município, situado a sudeste do Estado, aos pés da Serra de Natividade, conserva sua estrutura urbana colonial, de ruas irregulares. O conjunto arquitetônico, harmonioso, destaca-se pela singeleza dos casarios. De seu traçado urbano original, também encontramos as igrejas da Matriz de Natividade e de São Benedito e as famosas ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

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