(Foto: José Veloso)
(Foto: José Veloso)

Um mapeamento recente revelou que o Tocantins guarda um dos maiores refúgios subterrâneos de morcegos já registrados no país. Duas cavernas localizadas no estado, Boa Esperança e Casa de Pedra, foram confirmadas como as primeiras “bat caves” do Cerrado brasileiro, formações naturais capazes de concentrar dezenas ou até centenas de milhares de indivíduos.

A maior delas, a Casa de Pedra, reúne mais de 157 mil morcegos. Entre as espécies identificadas estão Pteronotus rubiginosus e Anoura geoffroyi, além de exemplares de Natalus macrourus, espécie classificada como ameaçada de extinção no Brasil. Já na caverna Boa Esperança, os pesquisadores contabilizaram cerca de 10 mil indivíduos, incluindo Phyllostomus hastatusAnoura geoffroyi e Pteronotus rubiginosus.

A identificação ocorreu durante levantamentos realizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, por meio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav), dentro das ações do Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (PAN Cavernas do Brasil), em parceria com a Bat Conservation International.

Ambientes raros e sensíveis

Além de serem classificadas como bat caves, a Casa de Pedra pode ainda alcançar um status mais raro: o de “hot cave”. Esse tipo de caverna é caracterizado por entrada pequena, baixa circulação de ar, alta densidade de morcegos, temperatura constante entre 28 °C e 40 °C e umidade acima de 90%.

Segundo a coordenação do programa no Brasil da Bat Conservation International, o monitoramento térmico será realizado para confirmar essa condição. No país, menos de 20 cavernas são consideradas hot caves entre mais de 30 mil cavidades já registradas, o que torna esses ambientes especialmente frágeis.

No Cerrado, além das duas cavernas tocantinenses, apenas a Gruta do Jacaré, em Goiás, também foi reconhecida como bat cave. O local abriga mais de 20 mil morcegos de pelo menos sete espécies e fica na Área de Proteção Ambiental Nascentes do Rio Vermelho.

Nova fronteira para a conservação

Até então, colônias desse porte eram conhecidas principalmente em biomas como Amazônia, Caatinga e Mata Atlântica. A confirmação no Cerrado amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade subterrânea da região.

Pesquisadores destacam que a descoberta tem peso estratégico para a conservação. Grandes colônias desempenham papel ecológico relevante, especialmente no controle de insetos — incluindo pragas agrícolas e vetores de doenças — contribuindo para reduzir a necessidade do uso de defensivos químicos.

Monitoramento e proteção

Com o reconhecimento das bat caves no Tocantins, o próximo passo será aprofundar o monitoramento das cavernas para entender como as espécies utilizam esses espaços ao longo do ano. Entre as medidas previstas estão ações de conservação, possível criação de áreas protegidas e articulação com proprietários rurais e comunidades para reduzir impactos ambientais.

O Brasil abriga atualmente 188 espécies de morcegos, quatro delas oficialmente ameaçadas de extinção. Cerca de 45% utilizam cavernas como abrigo, o que reforça a importância da preservação desses ambientes subterrâneos.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins