
A gravidade do episódio recente em Aruanda dentro de uma tendência preocupante de crescimento da intolerância religiosa no Brasil e no Tocantins.
Por Marco Aurélio Jacob
Na ultima terça-feira, 24 a Associação Espírita Guerreiros de Aruanda, uma casa religiosa de matriz africana em Tocantins, foi vítima de um ataque de intolerância religiosa no exato momento em que devotos aguardavam atendimento espiritual. A cena, além de chocante, traduz um fenômeno muito maior e profundamente preocupante: o crescimento da violência motivada por preconceito religioso no Brasil, que se manifesta, sobretudo, contra tradições de matriz africana como Umbanda e Candomblé — expressões de fé que historicamente lutam por reconhecimento e respeito.
As religiões, em sua diversidade, compartilham uma raiz comum: são caminhos de acolhimento, de busca espiritual, de consolo para a alma e de promoção da paz. Elas não existem para dividir, excluir ou subjugar o outro — muito pelo contrário. Todas as tradições dignas de fé ensinam, em essência, o respeito ao próximo e a construção de um mundo mais harmonioso. O problema não está na religião em si, mas na postura intolerante de alguns indivíduos ou grupos, cujas atitudes se distanciam dos princípios mais elementares do sagrado, seja sob o olhar de Deus, de Jesus Cristo, das entidades espirituais ou dos Orixás.

Negar, apedrejar ou hostilizar um terreiro é violentar a própria história da própria família, a retirada a força de algum país da África e forçado a escravização. Uma ofença a nossa história, um crime contra a pátria e ao patriotismo nacional, que deve ter orgulhos dos povos que formaram essa nação, assim como um desrespeito ao próprio visinho, que pode tornar a vizinhança em um lugar de insegurança e ameaça aos moradores.
Pensar em como está sendo estruturado essas linhas de pensamentos e ataques as religiões de matriz africana, não só os ataques físicos, mas os de difamação dentro dos próprios cultos religiosos Brasil afora, que muitas vezes, os vêem como concorrencia e até pensam na disputa dos dizimos da população ou comunidade em questão, para justificar determinadas falas ou ataques a reputação das religiões ancestrais que ajudaram a moldar a cultura brasileira. Gera um debate ideologico/cultural, onde a #IntolerânciaReligosa, começa a das espaço ao #TerrorismoReligioso. Que ameaça a própria identidade nacional enquando nação que respeita as próprias origens e valoriza a vida.
Uma onda crescente e estatisticamente comprovada
Os dados mais recentes confirmam o que muitas comunidades religiosas já temiam: a intolerância religiosa não é um caso isolado — é uma tendência. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o canal de denúncias Disque Direitos Humanos — Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa em todo o Brasil, mantendo uma trajetória ascendente observada nos últimos anos. Esse número representa mais casos do que nos anos anteriores e mostra que o problema persiste em diferentes regiões do país.
Dados mais amplos ainda mostram que, entre 2021 e 2025, as denúncias de intolerância religiosa aumentaram mais de 366%, consolidando uma tendência preocupante de crescimento desses episódios no país. (Ibase)
Além disso, uma pesquisa recente “Respeite o Meu Terreiro” revelou que 76% dos terreiros de religiões de matriz africana no Brasil já sofreram algum tipo de violência — física, verbal ou simbólica — e mais de 80% relataram que membros de seus espaços sofreram episódios de racismo religioso em um período recente de dois anos. (Serviços e Informações do Brasil)
No Tocantins, a tendência também se manifesta
Embora o Tocantins não conte com dados tão atualizados como os nacionais, o que existe aponta para uma realidade preocupante localmente. Levantamentos anteriores indicaram que os registros de crimes de intolerância religiosa no estado cresceram mais de 23% em comparação com anos anteriores, segundo boletins de ocorrência oficiais. (Gazeta do Cerrado)
Esse crescimento, embora numérico ainda menor em relação aos grandes centros urbanos, não é menos grave — especialmente quando se considera que muitas ocorrências de intolerância não chegam a ser formalmente denunciadas às autoridades.

Racismo religioso: quando a fé se entrelaça ao preconceito racial
Ao se observar quem são as maiores vítimas desses ataques, um padrão emerge com clareza: as tradições de matriz africana sofrem um impacto desproporcional. Entre as denúncias registradas mais recentemente, Umbanda e Candomblé juntas lideram os números de ataques motivados por intolerância religiosa, muito acima de outras tradições.
Esse fenômeno é identificado por pesquisadores e ativistas como racismo religioso — uma forma específica de discriminação que une intolerância a expressões de fé com preconceito racial e cultural, atingindo pessoas por sua identidade e origem. Mas que também compõe a estrutura do racismo estrutural.
Uma ameaça à democracia e ao Estado laico
O Brasil é um Estado laico, cuja Constituição garante a liberdade de crença e de culto religioso para todos — sem privilégios ou perseguições. Mas as estatísticas reveladas nos últimos anos mostram que essas garantias constitucionais estão sendo desrespeitadas com frequência crescente, transformando a liberdade religiosa em um campo de disputa e violência.
O medo que ronda comunidades religiosas, especialmente as de matriz africana, é que essa escalada de intolerância nos aproxime de formas de fundamentalismo religioso, como as observadas em regimes e sociedades de países que são moldados pelo fanatismo religiosoque onde passam a criminalizam qualquer manifestação religiosa diversa da oficial ou dominante.
A Turquia sofreu com a influência Islâmica e nas cidades onde não tem um fluxo de turistas, o fundamentalismo impera como um desafio significativo aos direitos das mulheres. com relatos de aumento de pressão social conservadora e da violência de gênero.
Em casos estremos, são formadas milicas religiosas armadas e criados estados como o próprio Talibã praticou um golpe de Estado no Afeganistão em 2021.
O Talibã é um grupo fundamentalista sunita. Eles seguem uma interpretação extremamente conservadora e rigorosa do islamismo sunita, visando implementar a sharia (lei islâmica) no Afeganistão. O grupo é conhecido por sua postura radical, diferente da maioria xiita.
O Narcopentecostalismo
Especialistas identificam o uso do discurso neopentecostal para justificar o tráfico e a violência como uma “guerra espiritual”, reconfigurando a relação entre crime e fé.
Milícias religiosas, especialmente narcomilícias de vertente neopentecostal, expandiram sua atuação no Brasil, focando no controle territorial, repressão a crenças de matriz afro-brasileira e lavagem de dinheiro, com maior concentração no Rio de Janeiro. Grupos como o Terceiro Comando Puro (TCP) utilizam símbolos religiosos para legitimar atividades criminosas.

A BBC já alerta sobre a situação e o crescimento dessa facção no Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yly261j5qo
Urgência de políticas e ação coletiva
Combatê-la exige mais do que repúdio momentâneo: exige políticas públicas, educação, sensibilização social e mecanismos de proteção eficazes. O próprio governo federal tem promovido encontros com lideranças religiosas para debater o combate à intolerância, sinalizando uma tentativa de resposta institucional ao problema.
Mas ações isoladas não bastam. É preciso que a sociedade como um todo entenda que respeitar a fé do outro é respeitar a própria dignidade humana (e a si próprio) — e que qualquer ataque a uma religião, a um templo ou a um terreiro é um ataque à nossa própria convivência democrática.
Hoje, na Associação Aruanda, mais uma comunidade chorou a dor da violência — não apenas física, mas simbólica. Que essa dor sirva não apenas como denúncia, mas como um chamado à reflexão: nenhuma religião é inimiga do Brasil; inimigo é a intolerância humana que desconhece a fé alheia e transforma Deus em justificativa para o ódio.