O mito da superioridade cultural, uma das causas do preconceito e racismo

Por Maju Cotrim | 21/11/2020

Última atualização em 21/11/2020 16:55

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Por Domingos Lopes da Costa

No surgimento da antropologia, havia estudiosos chamados de evolucionistas, conhecidos como antropólogos de gabinete, formulavam conhecimentos/teorias sobre um determinado povo, baseado nos relatos dos viajantes, missionários e funcionários coloniais. Tratavam as diferenças culturais de forma hierarquizada, considerando algumas culturassuperiores e outras inferiores, tudo isso, baseado simplesmente nas diferenças encontradas/constatadas. Por exemplo, a cultura indígena e africana eram consideradasinferiores, em detrimento à cultura européia, alegando que as mesmas se encontravam num estágio atrasado na linha da evolução.

A referida classificação não obedecia ao mínimo de critério científico, que já era exigida e posteriormente se tornará um elemento primordial para formulação de uma teoria antropológica no meio acadêmico. Esta concepção empregada por evolucionistas, acerca da cultura, por muito tempo permeia à antropologia antiga, algo que mudará com a antropologia moderna, na qual, os estudiosos procuraram resolver este grande equivoco que nasce junto a esse ramo de conhecimento. Como afirma Kroeber,a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”.

Se entendermos que há cultura mais ou menos importante, superior ou inferior, consequentemente, teriampovos ou indivíduos capazes ou não de assimilar uma ou outra cultura, porém, isso não acontece na prática, pois qualquer indivíduo ao nascer terá capacidade de aprender costumes em qualquer cultura onde for inserido. De acordo com Geertz citado por Laraia (1986, p. 63), afirma que todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa, e este programa é o que chamamos de cultura. Adiantou Geertz, “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas, mas terminamos no fim tendo vivido uma só! Emoutras palavras, a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. Esta amplitude de possibilidade, entretanto, será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. (GEERTZ apud LARAIA, 1986, p.63).

No entanto, a superioridade cultural é um mito, pois, qualquer ser humano ao nascer é capaz de assimilar qualquer cultura de qualquer lugar e espaço, isto é, não há restrição cognitiva que dificulta um ser humano a aprender esta ou aquela cultura. Se todos os indivíduos têm a mesma capacidade de assimilação de qualquer cultura, onde está o respaldo que sustenta a superioridade ou inferioridade de uma determinada cultura? No entanto a superioridade ou inferioridade cultural, não se sustenta, pois os aspetos que são tomados como parâmetros de comparações, não passam de diferenças culturais, ou seja, maneiras diferentes do indivíduo conceber e apresentar-se no mundo.

Se já superamos no plano científico a concepção hierárquica da cultura, o que nos resta é conviver com estas diferenças, portanto, conviver com a diversidade cultural implica, necessariamente, no abandono da concepção evolucionista da cultura e viver a diversidade e transformações.

As transformações culturais não são definidas por indivíduos necessariamente de uma forma conscientemente e efetiva, pois, a cultura apresenta a sua própria característica ou dinâmica, isto é, a mesma nem sempre é controlável por indivíduos. Afirmar isso,significa dizer que as mudanças culturais ocorrem de forma paulatina, na dinâmica da própria cultura.

Entender e conviver amigavelmente com a diversidade cultural na sua essência exige exercício constante, que denominamos de relativização, conceito este (relativização) que nos coloca a frente dessa diversidade, como nada mais do que as diferenças culturais, excluindo a ideia de hierarquização. Relativizar é um processo primordial para conviver pacificamente com a diversidade cultural, respeitando todas as culturas nas suas especificidades. Pois cada indivíduo olha para o outro e para o mundo necessariamente com o olhar da sua cultura, isto é, a lente que utiliza é influenciada por vivências e costumes da sua própria cultura, portanto, esse olhar não necessariamente corresponde a realidade e é sempre um olhar distorcido. Como afirma a antropóloga Ruth Benedict, “nenhum ser humano olha para o mundo com olhos puros, mas o vê modificado por um determinado conjunto de costumes, instituições e maneiras de pensar”. (BENEDICT, 1943, p. 16).

Na sociedade brasileira as diversidades vêm sendo encaradas de forma preconceituosa e violenta, principalmente a diferença cultural. Além da concepção evolucionista da cultura a sociedade brasileira herdou uma forma tosca, preconceituosa, e discriminatória de lidar com as diferenças culturais.

Após a chegada dos portugueses no solo brasileiro, os mesmos encontraram uma cultura totalmente diferente da sua e em nenhum momento procuraram entender o outro nas suas diferenças e especificidades. Posteriormente, houve o processo de escravidão que forçou a chegada dos africanos no continente americano, principalmente no Brasil.

O processo de escravidão aniquilou o relativismo cultural. As diferenças ou especificidades dos negros e indígenas eram inferiorizadas, subjugadas, e na maioria das vezes proibidas as suas manifestações. Assim viveu o povo brasileiro (principalmente a elite) por muitos anos,sem ter um olhar positivo para as diversidades culturaisque constituíram e constituem o povo brasileiro.

Vale ressaltar que as teorias que fundamentavam a superioridade cultural, já foram refutadas e superadas, pois cada sociedade mesmo de forma consciente ou inconsciente acaba elegendo a sua cultura como a mais viável. Como afirma Heródoto citado por Laraia “se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros” (1986, p.11).  

Portanto se cada indivíduo tem certa fissura pela sua cultura, acha melhor os seus costumes, no entanto, não se sustenta a teoria de hierarquização da cultura, pois cada povo prefere a sua maneira de estar no mundo e não buscam alcançar nem cultura, nem direção alguma. Dito isto, vale ressaltar que não podemos esquecer que a cultura é algo proveniente de toda sociedade humana. Sendo assim, lidar harmonicamente com as diferenças culturais é compromisso de cada indivíduo, em especial, ao povo brasileiro que emergiu essencialmente das diferenças culturais.

Referências Bibliográficas

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Zahar. Rio de Janeiro, 1986.

BENEDICT, Ruth. Padrões de Cultura. Tradução de Ricardo A. Rosenbush. Petrópolis, RJ, vozes, 2013.

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