
Quatro anos depois da noite que transformou Miracema do Tocantins em cenário de uma das maiores chacinas da história recente do estado, familiares das vítimas seguem à espera de respostas. Sete pessoas morreram em uma sequência de assassinatos que começou após a morte de um policial militar e terminou com corpos espalhados pela cidade, deixando marcas que ainda não cicatrizaram.
Entre os que ficaram está Maria do Carmo. Mãe, esposa e testemunha de uma tragédia que atravessou sua casa, ela diz que o som dos tiros ainda ecoa na memória. À noite, sozinha, revive cada momento. “Às vezes eu escuto até hoje”, contou, ao relembrar a madrugada em que o filho Edson foi baleado dentro do quintal da família. Ele não resistiu.
Edson foi morto depois que um grupo armado invadiu a delegacia de Miracema, na madrugada de 5 de fevereiro de 2022. Encapuzados, cerca de 15 homens executaram o jovem e o pai dele, Manoel Soares da Silva, que haviam sido levados ao local para prestar depoimento horas antes. Os dois aguardavam o amanhecer para voltar para casa em segurança quando foram surpreendidos.
A violência não parou ali. Horas depois, Valbiano Marinho da Silva, filho de Manoel e irmão de Edson, foi assassinado dentro de casa. No dia seguinte, outros três corpos foram encontrados no loteamento Jardim Buriti: Aprígio Feitosa da Luz, de 24 anos, Gabriel Alves Coelho, de 21, e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18. Todos apresentavam marcas de tiros, conforme o boletim de ocorrência.
Um jovem, então com 18 anos, foi o único sobrevivente da chacina. Baleado nas costas, conseguiu fugir e passou por cirurgia. Ele carrega no corpo e na memória as sequelas daquela madrugada.
Pedro Henrique, segundo a família, não tinha qualquer envolvimento com crimes. A irmã, Rivane Sousa, lembra dos planos interrompidos. “Ele queria estudar. O que a gente quer é justiça. Não vai trazer ninguém de volta, mas dá um pouco de sossego ao coração”, disse. Para ela, a dor maior é a sensação de que a vida dos jovens não teve valor.
A sequência de mortes teve início na noite de 4 de fevereiro de 2022, com a morte do sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa, de 38 anos, durante um confronto no setor Novo Horizonte II. Ele integrava a Agência de Inteligência da PM e fazia levantamento de informações para uma operação prevista para o dia seguinte. O policial foi atingido por um disparo de calibre 22.
Valbiano chegou a ser apontado pela polícia como suspeito da morte do sargento. Ainda naquela noite, policiais realizaram buscas na residência da família e apreenderam uma arma que, segundo a investigação, poderia ter sido usada no confronto. Manoel e Edson foram levados à delegacia para prestar esclarecimentos.
Vídeos gravados dentro da unidade policial mostram parte dos depoimentos de pai e filho pouco antes de serem mortos. As imagens se tornaram uma das peças mais simbólicas do caso.
Em junho de 2022, casas de policiais militares e sedes de batalhões da PM em Miracema e Palmas foram alvos de mandados de busca e apreensão, no avanço das investigações. Ainda assim, quatro anos depois, o caso segue sem desfecho.
A Secretaria de Segurança Pública informou que a Diretoria de Repressão ao Crime Organizado continua investigando a chacina e que novos detalhes não são divulgados para não comprometer o trabalho policial. Já a Polícia Militar afirmou que eventuais responsabilizações administrativas só poderão ocorrer após a conclusão das apurações, caso sejam identificadas condutas irregulares envolvendo integrantes da corporação.