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Maju Cotrim

A política brasileira sempre teve uma relação íntima com a figura do salvador. O líder que promete resolver tudo, o discurso que simplifica problemas complexos e a narrativa de que basta uma pessoa para mudar o destino de um Estado ou de um país inteiro. Durante muito tempo, esse modelo funcionou. Em 2026, ele começa a ruir.

O eleitor mudou. E, com ele, mudou também a forma de olhar para a política.

O discurso messiânico perde força diante de uma sociedade mais informada, mais desconfiada e menos disposta a terceirizar responsabilidades. A promessa do “eu faço”, do “só eu posso” e do “agora vai” já não convence como antes. O eleitor de 2026 não busca heróis, e sim coerência.

Coerência entre o que se diz e o que se faz. Entre o passado e o presente. Entre alianças firmadas e valores defendidos. Em um ambiente de memória digital permanente, nada se apaga por completo. Discursos antigos reaparecem, posturas são comparadas e contradições se tornam evidentes.

Não se trata de exigir perfeição, mas de cobrar honestidade política. O eleitor compreende erros, mudanças de opinião e até recuos estratégicos. O que ele rejeita é o oportunismo travestido de convicção, a mudança de discurso conforme o público e a incoerência justificada apenas pela conveniência eleitoral.

O crescimento dessa cobrança tem relação direta com o amadurecimento democrático. Redes sociais, acesso à informação e maior participação política ampliaram o senso crítico da população. Hoje, o eleitor não apenas escuta, ele investiga, confronta e questiona.

Nesse cenário, lideranças que constroem sua trajetória com base apenas em carisma e retórica enfrentam dificuldades. A política exige mais do que frases de efeito. Exige posicionamento claro sobre temas centrais, responsabilidade institucional e compromisso com projetos que vão além de uma eleição.

O salvador, por definição, concentra expectativas. A coerência, ao contrário, distribui responsabilidades e constrói confiança ao longo do tempo. É ela que sustenta mandatos, fortalece instituições e evita frustrações coletivas.

Em 2026, o eleitor não espera milagres. Espera verdade. Não espera discursos grandiosos. Espera postura. Não espera alguém que prometa mudar tudo sozinho. Espera alguém capaz de sustentar, com coerência, cada palavra dita.

E talvez esse seja o maior sinal de maturidade política de uma sociedade: quando ela deixa de procurar salvadores e passa a exigir coerência de quem se propõe a governar.

Trocando em Miúdos

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!