
Imagine um trem: ele só se movimenta porque há uma ferrovia com trilhos alinhados e conectados. Se essa linha é interrompida, a locomotiva para e só volta a avançar quando o trajeto é restaurado. Essa comparação ajuda a entender uma nova alternativa que surge para milhares de brasileiros que perderam movimentos do corpo após lesões na medula espinhal.
A medula funciona como a via que leva os comandos do cérebro ao restante do organismo. Quando ocorre uma lesão, os sinais deixam de passar. Durante muito tempo, parecia impossível “reconstruir esses trilhos”. Hoje, porém, existe uma possibilidade chamada polilaminina.
Segundo o médico Dr. Victor, trata-se de uma substância capaz de transformar o tratamento de traumatismos raquimedulares.
A trilha para o neurônio
A pesquisa teve início há cerca de três décadas com a bióloga Tatiana Sampaio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em laboratório, ela desenvolveu uma rede de proteínas chamada laminina; o conjunto dessas proteínas forma a polilaminina, que auxilia na recuperação dos axônios, estruturas dos neurônios responsáveis por conduzir informações.
Ela explica que a lógica é direta: os axônios crescem naturalmente sobre uma espécie de “pista” de laminina. Após uma lesão, essa base desaparece. Ao fornecer novamente essa estrutura, o crescimento pode voltar a acontecer.
Resultados promissores
Em um estudo com oito pacientes que tinham lesão medular completa, os resultados chamaram atenção. Enquanto a literatura médica aponta que apenas cerca de 10% desses casos recuperam função motora, na pesquisa o índice chegou a 75%.
Para o Dr. Marco, mesmo pequenos avanços têm grande impacto na autonomia. Pacientes que antes dependiam totalmente de cadeira de rodas passaram a ficar de pé com apoio; outros conseguiram pedalar passivamente em bicicleta terapêutica.
Diogo, que sofreu um acidente de trabalho e teve rompimento total da medula, encontrou o tratamento após a irmã pesquisar alternativas. Após a aplicação, ele relata que, semanas depois, conseguiu mover o pé pela primeira vez, um momento que descreve como emocionante. Hoje, já apresenta controle da bexiga, movimentos nas pernas e sensibilidade que se estende mais pelo tronco.

Acesso e questões legais
Até agora, dezenas de pacientes recorreram à Justiça para receber a substância; parte deles teve autorização. A Anvisa afirma que apenas ensaios clínicos controlados comprovam segurança e eficácia, mas permite o chamado “uso compassivo” quando não há outras opções terapêuticas.
Tempo é decisivo
A aplicação é feita por neurocirurgiões especializados e precisa ocorrer, de preferência, até três dias após o trauma. Isso porque, com o passar do tempo, forma-se uma cicatriz na medula que dificulta a ação do tratamento.
Um paciente tratado menos de 24 horas após o acidente relatou que, três semanas depois, já movia o dedão do pé; um ano mais tarde, caminhava com bengala e depois passou a andar sozinho. Ele saiu da classificação mais grave de paralisia para um nível com movimentos e sensibilidade quase completos.
Debates e cautela

Apesar dos resultados, parte da comunidade médica pede prudência. Especialistas alertam que a aplicação em larga escala sem testes finais pode dificultar a identificação de possíveis efeitos adversos. Houve registros de mortes de pacientes que receberam a substância, mas pesquisadores afirmam não haver evidências de relação direta.
A polilaminina também não é indicada para lesões incompletas, pois poderia haver risco de perda de movimentos já existentes. Além disso, o tratamento depende obrigatoriamente de fisioterapia intensiva para potencializar os resultados.
Próximos passos
Um estudo clínico oficial foi autorizado e deve começar em breve. Se todas as fases confirmarem eficácia e segurança, a expectativa é que a terapia esteja disponível em até cinco anos. O objetivo final, segundo os responsáveis pelo desenvolvimento, é que o tratamento possa ser incorporado ao sistema público de saúde e alcance quem precisa.