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Maju Cotrim 

O aumento do número de mulheres candidatas nas eleições brasileiras representa um avanço importante. No entanto, ele não pode ser confundido com igualdade efetiva de poder. A presença feminina nas disputas cresce, mas o acesso real aos espaços de decisão continua limitado. Essa distância entre participação e protagonismo segue sendo um dos maiores desafios da democracia.

No Tocantins, o cenário eleitoral de 2026 explicita essa realidade. Em um ambiente político ainda predominantemente masculino, a presença da senadora Professora Dorinha como única mulher na disputa ao Governo do Estado não é apenas simbólica: é política, institucional e histórica. Sua pré-candidatura rompe uma lógica de exclusão e reposiciona o debate sobre liderança feminina em cargos majoritários.

Ao longo de sua trajetória no Congresso Nacional, Dorinha se consolidou como uma liderança respeitada, com atuação destacada, capacidade de articulação e reconhecimento além das fronteiras do Estado. Seu trabalho a projetou nacionalmente e, ao mesmo tempo, a transformou em uma inspiração política para mulheres tocantinenses, não apenas pelo cargo que ocupa, mas pela forma como exerce o poder.

Há, em seus discursos e práticas, uma mensagem constante de sororidade, fortalecimento coletivo e defesa da presença feminina nos espaços de decisão. Isso não se construiu por marketing ou conveniência eleitoral, mas por uma trajetória consistente, observável e reconhecida. Tentativas de minimizar esse papel, tratadas por alguns como estratégia eleitoral, não têm produzido efeito político relevante, justamente porque não resistem aos fatos.

A realidade é que Dorinha tem chances reais de se tornar a primeira governadora do Tocantins. E esse dado, por si só, já provoca deslocamentos, incômodos e reações previsíveis em um sistema historicamente pouco aberto à liderança feminina.

Mas o debate não se encerra no Executivo estadual. O Tocantins enfrenta também a necessidade urgente de voltar a eleger mulheres para a Câmara Federal. A ausência feminina em Brasília representa uma lacuna de representatividade e empobrece o debate sobre políticas públicas que impactam diretamente a vida da população, especialmente de mulheres e famílias.

Na Assembleia Legislativa, o desafio é igualmente evidente. Ampliar a presença feminina nas 24 cadeiras do parlamento estadual não é pauta identitária restrita: é requisito democrático. Parlamentos diversos produzem decisões mais equilibradas, conectadas com a realidade social e menos reféns de visões únicas de poder.

Apesar dos avanços formais, as barreiras reais persistem. Mulheres ainda enfrentam menos acesso a recursos, menos tempo de mídia, menor apoio partidário e um grau maior de julgamento público. A violência política de gênero segue operando de forma explícita e velada, por meio de ataques pessoais, tentativas de deslegitimação intelectual e estratégias de silenciamento.

Outro obstáculo recorrente é o uso simbólico da mulher nas chapas eleitorais: candidaturas lançadas apenas para cumprir cotas legais, sem estrutura, visibilidade ou espaço real de decisão. Trata-se de uma inclusão aparente que preserva a desigualdade enquanto simula avanço.

Fortalecer a presença feminina na política não é privilégio. É correção histórica. É amadurecimento institucional. É reconhecer que a democracia só se completa quando o poder deixa de ser exceção para mulheres e passa a ser possibilidade concreta.

A disputa eleitoral deste ano oferece ao Tocantins uma oportunidade rara: avançar não apenas no discurso, mas na prática. Valorizar lideranças femininas consolidadas, ampliar espaços reais de poder e enfrentar a violência política de gênero não é concessão, é compromisso com o futuro.

Enquanto o poder seguir desigual, a democracia seguirá incompleta. E o eleitor, cada vez mais atento, começa a compreender isso.