
A possibilidade de terceirização das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) tem gerado preocupação entre profissionais da rede municipal de saúde. Trabalhadores relatam insegurança sobre o futuro dos serviços, denunciam atrasos salariais e afirmam que problemas estruturais das unidades não estariam sendo considerados no processo.
Segundo relatos de servidores, os rumores sobre a possibilidade de terceirização começaram a circular no fim do ano passado. Durante meses, questionamentos feitos à Secretaria Municipal de Saúde (Semus), à prefeitura e a gestores das unidades teriam sido negados. A situação mudou recentemente, quando a informação de que uma empresa assumiria a gestão passou a ser confirmada.
Profissionais afirmam que não há diálogo com as equipes que atuam diretamente no atendimento. “Em nenhum momento as demandas dos servidores foram levadas em consideração, nem os problemas enfrentados dentro das unidades”, relatou um trabalhador da área da saúde.
Atualmente, apenas o quadro médico de uma das unidades conta com mais de 200 profissionais, além de enfermeiros, técnicos, funcionários administrativos, equipes de limpeza e segurança.
Outro ponto levantado pelos trabalhadores é a forma como o processo estaria sendo conduzido. Eles afirmam não ter conhecimento de concorrência entre empresas ou estudos comparativos que avaliassem diferentes modelos de gestão para as unidades.
Apesar de a secretaria de saúde afirmar que o processo ainda não está formalizado, profissionais dizem que a empresa apontada para assumir a gestão já estaria divulgando vagas para contratação de médicos especialistas, como ortopedistas e pediatras, com previsão de início das atividades em abril.
Falta de estrutura
Servidores também relatam que muitas das dificuldades enfrentadas no atendimento estariam relacionadas à falta de estrutura e de repasses financeiros para serviços já terceirizados.
O laboratório de uma das unidades, por exemplo, já funciona por meio de contrato com empresa terceirizada. Mesmo assim, segundo os relatos, a falta de repasse de recursos para compra de insumos faz com que exames básicos deixem de ser realizados com frequência.
Entre os exames citados estão hemograma e troponina, importante para o diagnóstico de infarto.
A escassez de profissionais também afeta o funcionamento do setor. Em determinados turnos, há apenas um técnico responsável pela coleta de exames para toda a unidade, o que provoca atrasos na realização dos procedimentos e na liberação dos resultados.
Outro problema apontado pelos trabalhadores envolve o serviço de radiografia, que também é terceirizado. De acordo com eles, o equipamento passa períodos prolongados sem funcionar, obrigando a transferência de pacientes para outras unidades apenas para realização de raio-X.
Falta de medicamentos e atrasos salariais
Entre as denúncias feitas pelos profissionais também estão a falta de medicamentos e os atrasos no pagamento de salários.
Segundo relatos, equipes já chegaram a fazer arrecadações entre colegas para comprar medicamentos considerados essenciais para pacientes em estado grave.
Os atrasos salariais também seriam frequentes. Trabalhadores afirmam que o pagamento referente ao mês de dezembro foi recebido apenas no início de março, enquanto os salários de janeiro e fevereiro ainda estariam pendentes.
“Já chegamos a trabalhar mais de quatro meses sem receber”, relatou um servidor.
Mudanças nas equipes
A proposta da empresa que deve assumir a gestão também preocupa parte dos profissionais. Segundo trabalhadores, o modelo prevê redução salarial e mudanças na organização das escalas médicas.
Hoje, os médicos atuam em diferentes áreas da unidade: triagem, consultórios, enfermaria e sala de emergência, e são distribuídos conforme experiência e perfil profissional. A preocupação é que a nova gestão não considere essas especificidades.
“Não é qualquer médico que pode atuar na emergência ou na enfermaria. Colocar profissionais sem experiência nesses setores pode comprometer o atendimento”, disse um trabalhador.
Entre os profissionais de enfermagem, o receio também é de mudanças nas equipes. Enfermeiros com anos de experiência em urgência e emergência poderiam ser transferidos para unidades básicas de saúde para dar lugar a novos contratados.
Para os servidores, a possível substituição de equipes experientes representa risco para o atendimento de pacientes em situações críticas, em que cada minuto pode ser decisivo.
O que diz a Semus
Em nota, a Prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Semus), informou à Gazeta que está debatendo uma proposta de reestruturação para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Na segunda-feira, 9, foi realizado um diálogo com o Conselho Municipal de Saúde (CMS) e seguirá colhendo contribuições com organizações sociais, sindicatos, Ministério Público Estadual e demais órgãos de controle.
A Semus está buscando um modelo que possibilite a melhoria na qualidade do atendimento ofertado pelas UPAs.