Cresce no país número de pretendentes que aceitam adotar crianças com 5 anos ou mais

| Gazeta do Cerrado - Para mentes pensantes | - 25/05/2019

Última atualização em 25/05/2019 16:23

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Quase metade (46%) dos pretendentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção neste ano se diz aberta a adotar uma criança com 5 anos ou mais de idade. O índice é bem superior ao registrado dez anos atrás (30%). É o que mostram dados da Corregedoria Nacional de Justiça obtidos pelo G1 Portal Globo.

Neste sábado (25) é comemorado o Dia Nacional da Adoção. Mas nem tudo é motivo para celebrar. Em 2018, foram adotadas 650 crianças com 5 anos ou mais no Brasil, número menor que o registrado em 2016 e em 2017.

Um outro dado do Cadastro Nacional ajuda a entender ainda mais o drama: 76% das crianças disponíveis hoje nos abrigos têm 5 anos ou mais. São 7.261 — um número que só aumenta.

Para a diretora de relações públicas da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Suzana Schettini, o trabalho integrado feito pelo Judiciário com os grupos de apoio à adoção é um dos grandes responsáveis pelo aumento no percentual dos pretendentes abertos à adoção tardia. Mas ainda é preciso fazer mais, admite.

“Além de um esforço para proporcionar mais visibilidade a essas crianças maiores, principalmente adolescentes, há um amadurecimento dos pretendentes de uns anos para cá. E a participação deles em grupos de apoio, vendo o exemplo de famílias que já adotaram, é muito importante para que exista essa ampliação do perfil”, afirma Suzana Schettini.

Segundo ela, além do preparo dos pretendentes nos grupos e das crianças nas instituições, há uma terceira frente que não pode ser deixada de lado no caso das adoções tardias.

“É preciso oferecer para a família adotiva um núcleo de apoio no pós-adoção, porque elas são naturalmente mais complexas, mais difíceis. As crianças têm suas histórias, suas demandas. Então, esse suporte é necessário. E cada vez mais esses pretendentes se sentem acolhidos e seguros para o ato.”

A jornalista Ana Davini, que adotou uma filha e é especializada no tema, diz que o principal problema ainda é a demora na destituição do poder familiar, que faz com que a criança perca a chance de ganhar uma nova família.

“Além da burocracia por qual passaram as que já estão no cadastro, é preciso lembrar que há mais de 50 mil crianças nos abrigos. Essas mais de 40 mil estão em um limbo jurídico. Nem voltam para as famílias biológicas nem são encaminhadas para adoção. Vão crescendo nos abrigos, completam 18 anos e são colocadas na rua, especialmente se não tiverem como se manter ou se não tiverem apoio de um projeto social.”

Há hoje 46 mil pretendentes no Cadastro Nacional de Adoção, e apenas 9,5 mil são crianças.

Medidas para mudar quadro

Autora do livro “Te amo até a Lua”, Ana aponta algumas medidas que considera necessárias para mudar esse quadro. “Uma delas é cumprir a lei. A nova legislação já estabelece prazos (como o que prevê 120 dias para a conclusão de um processo e 1 ano e meio como período máximo de acolhimento). A outra é fazer mutirões para avaliar a situação das crianças que estão nos abrigos hoje.”

Ela diz que não se pode responsabilizar os pretendentes pelas adoções não concretizadas. Mesmo com as restrições impostas por alguns, ela afirma que para quase toda criança há uma pessoa na outra ponta. A conta só não fecha mesmo para quem tem 11 anos ou mais. É a partir dessa idade que o número de crianças supera o de pretendentes.

Um novo cadastro ainda está em fase de testes no país. Ele funciona como um projeto-piloto apenas em algumas cidades. Uma das novidades previstas é justamente a implantação de um sistema que permite uma varredura automática diária entre perfis de crianças e pretendentes informando ao juiz quase que em tempo real sobre um possível “match” entre todas as unidades da federação — o que pode diminuir o abismo hoje encontrado.

Polêmica

Desfile realizado em shopping de Cuiabá foi alvo de polêmica nas redes — Foto: Divulgação Desfile realizado em shopping de Cuiabá foi alvo de polêmica nas redes — Foto: Divulgação

Nesta semana, um evento que tinha como objetivo estimular a adoção tardia foi alvo de polêmica em Mato Grosso.

A Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) organizou um desfile em um shopping de Cuiabá com famílias adotivas e com crianças e adolescentes aptos à adoção. O evento foi feito em parceria com a Comissão de Infância e Juventude da Ordem dos Advogados do Brasil do estado.

Membro da Academia Mato-grossense de Letras, o advogado Eduardo Mahon comparou o desfile a uma “antiga feira de escravos”. “Evidentemente que guardadas as proporções, porque não é justo que haja essa comparação, eu reconheço. Mas não me parece eticamente o melhor caminho.”

Já a presidente da Ampara, Indacir Rocha, disse que o projeto tinha como objetivo dar aos jovens a oportunidade de integrar uma convivência social “em um mundo que os trata como se fossem invisíveis”. Ela repudiou a “distorção do evento associando-o a períodos sombrios da história”.

Para Suzana Schettini, diretora da Angaad, houve desinformação. “A entidade que organizou o evento é muito séria e o trabalho é muito consciente. Não houve exposição das crianças. O evento, que se chama ‘Adoção na passarela’, foi criado para dar visibilidade às famílias adotivas. Então havia crianças já adotadas com seus pais e também adolescentes em instituições. Mas ninguém sabia quem estava disponível à adoção e quem não estava. Não houve menção a isso. Todo mundo que estava lá ficou muito emocionado. O que houve foi má-fé de quem desvirtuou o evento”, diz.

Ela cita outras iniciativas similares que jamais foram alvo de contestação, como o “Adote um pequeno torcedor”, em Recife, no qual crianças que estão em abrigos entram no estádio de mãos dadas com os jogadores e têm seus depoimentos exibidos no telão. O projeto já fez com que adoções fossem concretizadas.

Outros tribunais de Justiça pelo país também têm campanhas focadas na adoção tardia, como o “Adote um boa noite”, em São Paulo, o “Esperando por você”, no Espírito Santo, e o “Deixe o amor te surpreender”, no Rio Grande do Sul.

Eduardo, Simone e o quinteto

Eduardo e Simone com o filho biológico à espera da família completa — Foto: Eduardo Pires/Arquivo pessoal Eduardo e Simone com o filho biológico à espera da família completa — Foto: Eduardo Pires/Arquivo pessoal

O pastor Eduardo Pires, de 39 anos, e a mulher, a advogada Simone, de 43, resolveram quebrar o paradigma da adoção tardia: adotaram cinco de uma vez, todos com 5 anos ou mais.

“Eu sou filho adotivo, meu pai era filho adotivo e tenho dois irmãos adotados. Então na minha casa a adoção sempre foi um tema natural. Quando me casei, eu sabia que a gente ia adotar uma criança. Mas a minha esposa tinha o sonho de engravidar, amamentar. Então primeiro a gente teve um filho biológico. Mas depois partiu para a adoção”, conta Eduardo.

Coordenador de um grupo cristão de apoio à adoção, o Boas Novas, e membro do Movimento pelo Direito do Órfão, Eduardo diz que conhecia várias histórias bem-sucedidas de adoções tardias e grupo de irmãos. Apesar disso, ele e a mulher fizeram restrições ao entrar no cadastro: queriam uma menina e que ela fosse mais nova que o filho, com 7 anos na época.

“Isso mudou logo. A gente participava de um grupo de busca ativa da Angaad e lá foi publicada uma foto de cinco irmãos, no Sul do país, que o juiz não queria separar. Quando eu vi a foto, me apaixonei, mostrei pra minha esposa e a gente foi pra lá em abril do ano passado conhecê-los. Quando a gente chegou ao abrigo, tinha certeza de que eles iam ser nossos filhos.”

Eduardo diz que o filho biológico foi um dos mais animados com o ato. “O sonho dele era ter irmãos. E os cinco chegaram três dias depois do aniversário dele. Foi um presente.”

O casal adotou dois meninos gêmeos, de 5 anos, e três meninas, uma de 7, uma de 9 e uma de 11 anos. “Moramos no mesmo apartamento, que tem três quartos. Mas agora ele ficou cheio. Tivemos só que fazer mais guarda-roupas. O carro agora também é maior. A vida se transformou. A gente deixou de frequentar qualquer supermercado para ir só nos que vendem por atacado”, brinca.

“Quando se fala em ter filhos, a gente sempre pensa que não vai ter dinheiro suficiente para mantê-los. Mas o que essas crianças precisam não custa dinheiro. O que elas precisam é de amor, cuidado, atenção. E não é que elas não gastem ou não impactem no orçamento, claro. Mas o que elas mais precisam não é a melhor escola da cidade, e sim uma família que dê a elas segurança.”

“Na comunidade há casais que não conseguem ter filhos. Então eu sempre falo que uma vez por semana tem a oração para as mulheres que querem engravidar. E uma vez por mês tem o grupo de apoio à adoção. E brinco: vá à oração, se não der certo, vá ao grupo. De alguma forma, vai acontecer.”

Eduardo diz que sempre há obstáculos a transpor nas adoções tardias, mas garante que a rotina da família hoje está estabelecida.

“Toda adoção é uma adoção possível. E isso não depende da criança que está abrigada. Depende da gente. E a gente não adota por nós. Adota por eles. Mas, no fim das contas, eles fazem muito mais bem para nós, porque ensinam demais e todos os dias. Enquanto meu filho biológico está preocupado com o relógio novo que ganhou, minha filha do meio que chegou agora diz que o que ela mais gosta é ter seu cantinho e receber um beijo de boa noite. Ou seja, basta a gente querer amar e dividir um pouquinho.”

Fernando, Marcelo e os gêmeos

Fernando e Marcelo com os filhos — Foto: Fernando Cardoso/Arquivo pessoal Fernando e Marcelo com os filhos — Foto: Fernando Cardoso/Arquivo pessoal

O analista financeiro Fernando Cardoso, de 39 anos, e o bancário Marcelo Teixeira Berne, de 35, também adotaram dois meninos maiores, que hoje têm 10 anos.

Fernando diz que já pensava em adotar desde adolescente. E conta que, após dez anos em um relacionamento com Marcelo, conseguiu convencer o companheiro a aumentar a família.

“O problema é que demorou dois anos para que conseguíssemos entrar na fila da adoção, pois Hortolândia (SP) não tinha psicólogos e assistentes sociais na comarca. Então dependia das comarcas vizinhas.”

No início, os dois colocaram que estavam dispostos a adotar uma criança com até 5 anos de idade. Depois de um ano na fila, resolveram ampliar o leque. Bastou para que, em um mês, Lucas e Matheus, gêmeos de 8 anos, aparecessem em suas vidas.

“A gente tem um casal de amigos que adotou um garoto de 9 anos. Vimos que aquele estigma da adoção tardia era uma coisa da nossa cabeça. Nós tínhamos uma preocupação de que as crianças tivessem um preconceito por sermos um casal homoafetivo. E pelo contrário: quando eles contam que têm dois pais, os amigos falam: ‘Que legal. Eu também queria ter’”, afirma Fernando.

“Já havia ocorrido uma aproximação dos dois meninos com casais heterossexuais. E ambos falaram que já tinham uma mãe, que não queriam uma nova mãe. Mas eles não tinham a referência do pai. E aí um deles comentou com a psicóloga do abrigo que queria dois pais. E a gente que tinha tanto medo percebeu que, na verdade, eles também estavam nos procurando.”

Fernando conta que há desafios na educação dos dois, mas nada fora do normal. Para ele, os pretendentes optam muitas vezes por bebês desejando acompanhar os primeiros passos e palavras e querendo educá-los desde cedo ao seu modo.

“O que precisamos esclarecer é que, mesmo para os filhos biológicos, esse processo não é garantia de sucesso como pensam. Como a maioria, tínhamos uma ideia errada sobre a adoção tardia. Hoje somos nós que contamos nossa experiência por meio do YouTube (Me Encontra – Falando de adoção), do grupo de apoio à adoção de Sumaré (Anjos do coração) e de palestras.”

“A pessoa tem que sentir o momento e não escolher o perfil baseado na cobrança da sociedade, mas precisa saber que essas crianças maiores existem, que elas são a maioria hoje aguardando uma família e que uma delas pode estar esperando, com muito amor, encontrá-la.”

Adoção tardia é desafio no país — Foto: Caio Kenji/G1 Adoção tardia é desafio no país — Foto: Caio Kenji/G

Como adotar

Para adotar uma criança, é preciso ter no mínimo 18 anos. Não importa o estado civil, mas é necessária uma diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança acolhida.

O primeiro passo é ir à Vara da Infância mais próxima e se inscrever como candidato. Além de RG e comprovante de residência, outros documentos são necessários para dar continuidade no processo. É preciso fazer uma petição e um curso de preparação psicossocial.

São realizadas, então, entrevistas com uma equipe técnica formada por psicólogos e assistentes sociais e visitas. Após entrar na fila de adoção, é necessário aguardar uma criança com o perfil desejado no cadastro.

Cartilhas e grupos de apoio podem ser consultados para esclarecer dúvidas e saber um pouco mais sobre o ato. O passo-a-passo pode ser verificado no site do CNJ.

fonte: G1 Portal Globo

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