Manifestação cultural iniciada em 1932 reúne comunidade e mantém viva uma das expressões mais simbólicas do Jalapão

Em Lizarda, na região do Jalapão, a Semana Santa ganha sons, cores e movimentos que atravessam gerações. Quando a noite cai, rostos desaparecem sob máscaras expressivas, corpos se cobrem com folhas e personagens misteriosos tomam as ruas para reviver uma tradição que mistura fé, cultura e brincadeira. São os Caretas.

Uma tradição que remonta ao ano de 1932. Este é o ritual da Festa dos Caretas, mantido em Lizarda, a 278 km de Palmas.

Mais do que uma encenação, a festa é um ritual coletivo que mobiliza a comunidade. Homens mascarados assumem o papel de guardiões de uma “quinta”, espaço simbólico onde ficam alimentos como cana-de-açúcar, bananas e abóboras. Quem entra na brincadeira tenta invadir o local e encara os caretas, que usam chicotes artesanais, chamados pinholas, em uma dinâmica que lembra um espetáculo popular ao ar livre.

A festa integra o Calendário Cultural do Tocantins e envolve moradores de todas as idades, mantendo viva uma das manifestações mais marcantes da cultura popular do estado.

Na sexta-feira, dia 3, a tradição tomou conta mais uma vez de Lizarda. A programação começou às 20h, com o Santo Terço. Em seguida, às 21h, houve apresentação de grupo de capoeira. Às 21h30, roda e cantiga anunciaram a chegada dos Caretas. A noite foi encerrada com show do grupo Bate Palmaí, às 22h, viabilizado pelo Governo do Tocantins, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

O secretário de Estado da Cultura, Adolfo Bezerra, esteve presente e destacou a importância da manifestação para a identidade cultural do Tocantins. “É uma alegria acompanhar de perto uma tradição tão rica e significativa como a Festa dos Caretas. Essa manifestação representa a força da cultura popular do nosso estado, transmitida de geração em geração. A Secult tem o compromisso de apoiar e valorizar iniciativas como essa, que mantêm viva a identidade do nosso povo”, disse.

O prefeito de Lizarda, Marcello Lustosa, também ressaltou a relevância da festa para o município. “Os Caretas representam mais do que uma festa. São a expressão da nossa cultura, da nossa união e da nossa resistência ao longo dos anos. Como prefeito, reafirmo nosso compromisso em valorizar, apoiar e preservar as tradições, incentivando a cultura e fortalecendo o sentimento de pertencimento da população”, afirmou.

História da festa

A Festa dos Caretas acontece durante a Semana Santa, com início na Sexta-Feira da Paixão e segue até a madrugada do Sábado de Aleluia. A tradição está ligada a práticas religiosas vividas ao longo da semana, como a sentinela, marcada por rezas do terço e jejuns.

Para encerrar esse período, a comunidade realiza a brincadeira dos caretas. Os participantes utilizam máscaras grandes, feitas de couro, papel ou cabaça, muitas vezes com cabelos de peles de animais. O corpo é coberto com folhas de bananeira secas e embiras de buriti, garantindo o anonimato dos brincantes.

A tradição é mantida por famílias da região, como a do senhor João Delmar Teixeira e a família Papim, que ajudam a preservar os saberes e modos de fazer dessa manifestação. João Delmar, uma das principais referências da festa, faleceu em abril de 2025. Na edição deste ano, a organização ficou sob a condução de sua companheira, Luzia Alves de Sousa, com apoio da Prefeitura de Lizarda.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins