
Em Paraíso do Tocantins, a aposentada Dona Fátima Araújo decidiu falar depois de ver a neta, Emanuele, voltar para casa chorando mais uma vez por causa do cabelo crespo. O assunto repercutiu na semana passada.
De acordo com o relato, colegas questionam diariamente o cabelo da estudante. Em um dos episódios que mais abalou a família, uma aluna teria perguntado se Emanuele “levou choque em casa”, associando o volume dos fios a algo anormal.
A família relata que, além dos comentários de colegas, também já ouviu sugestões de que a menina deveria “alisar” ou “baixar” o cabelo. “Nós amamos ela do jeito que ela é”, reforçou a avó, emocionada.
Procurado pela Gazeta, o secretário estadual da Educação, Fábio Vaz, comentou o assunto já que o episódio aconteceu numa escola da rede estadual. Ele defendeu a apuração com responsabilidade e deu detalhes da atuação da pasta contra o racismo nas unidades estaduais.
“Como gestor público da Educação, eu não posso relativizar o racismo. Ele não é opinião, não é exagero, não é “coisa de criança”. Racismo é violência. Fere, exclui e compromete o ambiente que deveria ser, por essência, espaço de proteção e aprendizagem. Quando um caso como o ocorrido em Paraíso do Tocantins vem à tona, nossa obrigação é agir com firmeza, clareza e responsabilidade institucional”, disse em entrevista á Gazeta.
O secretário reconheceu ainda que o Racismo não é um episódio isolado. É uma realidade histórica que atravessa a sociedade brasileira. E justamente por isso precisa ser enfrentado com coragem, política pública estruturada e ação concreta.
“Estamos falando de uma criança de 11 anos que se sentiu atingida em sua identidade. E identidade não é detalhe. É dignidade. Nenhuma criança pode ter sua imagem, seu cabelo, sua cor ou sua origem transformados em motivo de constrangimento dentro da escola.Ao mesmo tempo, também estamos falando de outras crianças em formação. O racismo é um problema estrutural, aprendido socialmente. A escola tem o dever de interromper esse ciclo por meio da educação, da responsabilização e da construção de consciência”, defendeu.
Políticas educacionais
Fabio Vaz relatou em entrevista á Gazeta o trabalho e as ações que a Seduc vem implementando nas escolas contra o racismo.
Desde 2003, o Brasil possui um marco legal que torna obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira. “No Tocantins, avançamos de forma estruturada com o Programa de Fortalecimento da Educação (PROFE), que consolidou, pela primeira vez na Rede Estadual, uma política consistente de combate ao racismo e promoção da equidade”, conta
Em 2024, o Estado aderiu à Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). “Em 2025, em ação conjunta com a Undime, conseguimos a adesão de 100% dos municípios tocantinenses. A PNEERQ é a maior política da história do país voltada à promoção da equidade educacional e ao enfrentamento do racismo estrutural.Também investimos fortemente em material didático específico. Em 2025, foram mais de R$ 22 milhões na Coleção Minha África Brasileira e Povos Indígenas. Para 2026, destinamos 10.500 livros aos municípios para o 5º ano e mais de 300 mil livros didáticos e paradidáticos à Rede Estadual, totalizando investimento superior a R$ 35 milhões. Todo esse material foi acompanhado de formação pedagógica continuada, com especialistas e referências nacionais como Djamila Ribeiro, além da valorização de experiências de escolas quilombolas”, relatou.
Ele defendeu que existe uma política pública estruturante, permanente e alinhada às diretrizes nacionais.
RACISMO NÃO É BULLYING
Outro ponto que o secretário abordou: “É fundamental esclarecer: racismo não pode ser tratado como simples bullying ou “brincadeira de mau gosto”. Ambos são violência, mas, enquanto o bullying descaracteriza, o racismo desumaniza”, explicou.
No racismo, a ofensa atinge a dignidade da pessoa com base em raça, cor ou etnia. Reduzir isso a “implicância” é apagar sua gravidade histórica e estrutural. Podendo ocasionar a revitimização de quem sofreu a agressão.
Fábio Vaz foi claro: “A resposta ao racismo precisa ser pedagógica e também jurídica. A escola tem o dever de acolher a vítima, registrar a ocorrência, apurar os fatos, aplicar as medidas administrativas cabíveis e comunicar as autoridades competentes (Conselho Tutelar, Delegacia e Ministério Público) conforme determina a legislação e as Leis 10.639/03 e 11.645/08. Esse é um procedimento que estamos orientando e reforçando sistematicamente desde 2024”, disse.
O Caso Emanuelle
“O caso da estudante Emanuelle configura uma agressão baseada em preconceito racial. Estamos diante de um ato de racismo, que exige resposta firme, amparada na legislação e conduzida com responsabilidade.A orientação é que ele seja apurado com sensibilidade e responsabilidade, ouvindo todos os envolvidos. A vítima deve ser acolhida, protegida e acompanhada. Mas também precisamos trabalhar pedagogicamente com os demais estudantes, com as famílias e com a comunidade escolar. Combater o racismo na raiz significa educar para que ele não se repita”, defendeu.
O secretário foi claro sobre o caso: “A gente tem que construir nas escolas uma comunidade de aprendizagem, porque é nela que vamos desconstruir a base de sustentação e combate a comportamentos que venham a ser racistas. A orientação é clara: acolhimento integral à vítima, apuração rigorosa dos fatos, escuta de todos os envolvidos e atuação pedagógica ampla com estudantes, famílias e equipe escolar. Combater o racismo na raiz significa educar para que ele não se repita. As crianças de hoje são os adultos de amanhã” explicou.
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Para Fábio Vaz, a escola deve ser espaço de pertencimento, respeito e construção de identidade positiva. Um ensino que valoriza as várias existências é benéfico para toda a sociedade, porque transforma mentalidades e rompe com visões hierarquizadas que historicamente inferiorizaram a população negra. Essa é a postura institucional da Secretaria de Estado da Educação do Tocantins.
“Educação é o caminho mais potente de transformação social. E é com responsabilidade, firmeza e compromisso com a dignidade humana que seguimos conduzindo essa transformação”, concluiu.