
Pesquisadora brasileira e professora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Tatiana Coelho de Sampaio lidera um estudo que, após mais de 25 anos de investigação, resultou na criação de uma molécula experimental chamada polilaminina.
A substância tem ampliado perspectivas de recuperação para pessoas com paraplegia ou tetraplegia decorrentes de acidentes, projetando a cientista ao reconhecimento nacional e internacional por coordenar uma das pesquisas mais promissoras no campo das lesões medulares.
Produzida em laboratório a partir da laminina, proteína presente naturalmente no organismo e extraída da placenta, a polilaminina atua regulando o comportamento das células e a organização dos tecidos durante o desenvolvimento e a regeneração do sistema nervoso. A molécula estimula neurônios que haviam interrompido seu crescimento, favorecendo a reconstrução de conexões nervosas e permitindo que impulsos elétricos voltem a circular pelo corpo, o que pode possibilitar a recuperação de movimentos antes considerados irreversíveis.
Nos testes experimentais iniciais, pacientes com lesões medulares que receberam a aplicação apresentaram melhora parcial ou total das funções motoras.
Resultados iniciais animadores
A medula espinhal, juntamente com o cérebro, compõe o sistema nervoso central e se estende da base do crânio até a região lombar. Lesões nessa estrutura costumam gerar consequências graves, como perda de movimentos ou até risco de morte.
A polilaminina vem sendo utilizada para estimular a regeneração dos axônios, prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais nervosos, restabelecendo a comunicação entre cérebro e corpo.
O estudo começou com oito voluntários que receberam uma única aplicação da proteína diretamente na área lesionada até 72 horas após o trauma. Dois pacientes não resistiram à gravidade dos ferimentos, enquanto os outros seis apresentaram diferentes níveis de recuperação, variando entre melhora parcial e retomada completa dos movimentos.
Um dos casos mais marcantes é o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu um acidente automobilístico em 2018, aos 23 anos, e ficou tetraplégico. Ele recebeu a substância cerca de 24 horas após a lesão. Três semanas depois já conseguia mexer o dedão do pé e, após um ano e cinco meses, voltou a caminhar e praticar exercícios. Atualmente, leva uma vida ativa e sem necessidade de auxílio para locomoção.
Testes também foram realizados em animais, como cães e ratos, com resultados positivos e recuperação completa em determinados casos.
Origem da descoberta
A trajetória científica teve início em 1998, quando Tatiana passou a estudar associações de proteínas. Em laboratório, ao manipular amostras de laminina, conseguiu obter a polilaminina por meio da polimerização dessa molécula.
Os estudos demonstraram que a forma polimerizada apresentava potencial significativo para regeneração neuronal, especialmente nos axônios. Com isso, a pesquisa avançou para experimentos em roedores, cães e humanos. Nessa fase, a laminina utilizada passou a ser extraída de placentas, material normalmente descartado após o parto, que se revelou uma fonte abundante da matéria-prima necessária.
Grande parte do desenvolvimento contou com financiamento da Faperj, além do apoio da CAPES e do CNPq, principalmente por meio de bolsas de pesquisa.
Depois de quase três décadas de investigação, os resultados positivos permitiram uma parceria com a indústria farmacêutica. Em 2021, foi firmado acordo com o laboratório Cristália para produção em escala industrial. Segundo a empresa, cerca de R$ 28 milhões já foram investidos no desenvolvimento do medicamento, cuja propriedade passou a ser compartilhada.
Esperança para o futuro
Até o momento, cerca de seis pacientes tratados demonstraram sinais de recuperação acima do esperado para o tipo de lesão. Em entrevista concedida em fevereiro de 2026, Tatiana afirmou que seu maior objetivo é ver os estudos clínicos confirmarem resultados positivos capazes de melhorar efetivamente a vida dos pacientes.
A expectativa é que, no futuro, a terapia também possa beneficiar pessoas com lesões crônicas, aquelas que convivem há anos com danos medulares. Segundo a pesquisadora, o foco atual é ampliar as possibilidades para acelerar o avanço das pesquisas.
Os progressos alcançados reacendem a esperança não apenas em quem sofreu lesões recentes, mas também em pessoas que aguardam há anos por um tratamento eficaz. Entre elas está a ex-ginasta Lais Souza, que ficou tetraplégica após um acidente de esqui em 2014. Em fevereiro deste ano, ela conheceu pessoalmente Tatiana Sampaio e compartilhou a emoção do encontro, destacando a gratidão e a expectativa de que a descoberta possa transformar a vida de milhões de pessoas no futuro.