O desenvolvimento da máquina vem desde 2021, e os primeiros estudos clínicos começaram em 2022 - Foto: Divulgação
O desenvolvimento da máquina vem desde 2021, e os primeiros estudos clínicos começaram em 2022 - Foto: Divulgação

As máquinas de ressonância magnética se tornaram ferramentas importantes na medicina ao ampliar a precisão dos diagnósticos. Agora, uma nova tecnologia promete levar esse avanço também para a odontologia. Um equipamento desenvolvido exclusivamente para examinar a cavidade bucal está em testes e deve começar a ser utilizado no Brasil ainda este ano.

A novidade é resultado de uma pesquisa liderada pelo cirurgião-dentista, pesquisador e professor Rubens Spin-Neto, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Em entrevista ao Metrópoles, ele explicou que a proposta da ressonância magnética dedicada à odontologia é oferecer imagens mais precisas, seguras e capazes de revelar alterações que hoje passam despercebidas nos exames tradicionais.

Exame sem radiação e com foco nos tecidos moles

Segundo Spin-Neto, um dos principais diferenciais da nova tecnologia é eliminar completamente a exposição à radiação ionizante, comum na maior parte dos exames de imagem usados atualmente na odontologia.

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“A maioria das máquinas que utilizamos hoje depende de radiação ionizante, que, quando acumulada ao longo da vida, está associada a um aumento do risco de câncer. A ressonância magnética não usa esse tipo de radiação e, por isso, é considerada um método totalmente seguro”, explica.

Além da segurança, a ressonância traz outra vantagem importante. Enquanto exames como radiografias e tomografias mostram principalmente estruturas duras, como ossos e dentes, o novo equipamento permite visualizar com clareza os tecidos moles da boca.

“Muitas vezes o paciente procura o dentista por dor, cárie ou um problema ósseo, mas a origem pode estar nos tecidos moles. Essa é a primeira modalidade de imagem que consegue, dentro da odontologia, avaliar tanto os tecidos mineralizados quanto os tecidos moles de forma detalhada”, destaca.

Outro ponto destacado pelo pesquisador é a possibilidade de detectar alterações mais cedo, antes que doenças estejam avançadas.

“Muitos exames só mostram a doença quando ela já causou destruição significativa dos tecidos. A nova tecnologia permite identificar inflamações em fases iniciais, o que facilita tratamentos mais simples, menos invasivos e mais voltados à prevenção”, afirma.

Como funciona a máquina?

equipamento funciona de maneira semelhante a uma ressonância hospitalar, mas com adaptações importantes. O paciente fica deitado e uma antena específica capta imagens da região maxilofacial, incluindo boca, mandíbula, maxila e seios maxilares.

“Ela lembra uma ressonância tradicional, mas é menor, mais leve e focada apenas na região da face. Isso torna o exame menos claustrofóbico e mais confortável para o paciente”, diz o pesquisador.

O desenvolvimento da máquina começou em 2021, e os primeiros estudos clínicos tiveram início em 2022. Desde então, mais de 500 pacientes já foram avaliados dentro das pesquisas iniciais, que analisam a qualidade das imagens, os benefícios clínicos e a experiência do paciente durante o exame.

Os testes começaram na Dinamarca e, a partir de 2024, foram ampliados para outros países da Europa e da América do Norte. Hoje, existem cerca de dez equipamentos em uso no mundo, a maioria ainda em ambiente de pesquisa.DivulgaçãoO desenvolvimento da máquina vem desde 2021, e os primeiros estudos clínicos começaram em 2022

Aprovação internacional e chegada ao Brasil

A liberação para uso clínico da tecnologia é recente. Na Europa, a aprovação ocorreu em janeiro de 2025. Nos Estados Unidos, veio no fim do mesmo ano. Com essas autorizações, o caminho para o Brasil ficou aberto.

“Quando Europa e Estados Unidos aprovam uma tecnologia, a Anvisa também passa a permitir o uso e a comercialização no Brasil”, explica Spin-Neto.

A expectativa é que os primeiros equipamentos sejam apresentados oficialmente ainda este ano, durante um grande congresso de odontologia em São Paulo. A partir daí, as empresas responsáveis pelo desenvolvimento devem iniciar a distribuição no país.

Embora ainda não haja uma estimativa de preço para o exame no Brasil, Spin-Neto ressalta que a prevenção tende a reduzir gastos futuros com tratamentos complexos.

“A prevenção é sempre o caminho mais barato. Uma tecnologia que antecipa o diagnóstico pode gerar economia a longo prazo, especialmente em um país com população grande como o Brasil”, diz.

Formação profissional e tradição brasileira

Para o pesquisador, o Brasil tem uma vantagem importante na adoção da nova tecnologia. A radiologia odontológica faz parte da formação dos cirurgiões-dentistas, o que deve facilitar a adaptação ao novo exame.

“O treinamento foi pensado para seguir uma lógica semelhante à das tecnologias de imagem já existentes. Muitos profissionais brasileiros já têm contato com ressonância magnética, o que torna essa transição mais natural”, explica.

Spin-Neto afirma que acompanhar a chegada da tecnologia ao Brasil tem um significado especial.

“O Brasil sempre teve um papel de liderança na odontologia. Como pesquisador e brasileiro, é muito gratificante ver uma tecnologia que ajudei a desenvolver chegando para beneficiar pacientes no meu país”, conclui.

Fonte: Metrópoles