Desigualdade de gênero ameaça competitividade do Brasil na era da inteligência artificial

A inteligência artificial avança em ritmo acelerado no Brasil, impulsionada por investimentos em infraestrutura, supercomputação e inovação. No entanto, por trás do crescimento do setor, um desafio estrutural chama atenção: a desigualdade de gênero. Dados recentes apontam que a presença feminina no mercado de IA no país está abaixo da média global, e o desequilíbrio vem se aprofundando.

O levantamento do FGV Ibre, com base em dados do LinkedIn e do Stanford Index 2025, revela que a concentração de homens no mercado de trabalho em inteligência artificial no Brasil supera a média internacional. Nos países analisados, 69,5% dos profissionais de IA são homens e 30,5% são mulheres. No Brasil, a participação masculina está 7,6 pontos percentuais acima desse patamar, ultrapassando 77% dos trabalhadores do setor, cenário semelhante ao do Chile.

O estudo também analisou o engajamento em IA dentro do mercado de trabalho total feminino e masculino. No Brasil, apenas 0,11% das mulheres com presença no LinkedIn estão envolvidas com inteligência artificial, enquanto entre os homens o percentual chega a 0,37%. Em países como Arábia Saudita e Índia, a participação feminina proporcionalmente supera a masculina, mas esses casos ainda são exceções no cenário global.

O dado preocupa especialmente diante da posição estratégica do Brasil na economia digital. O país concentra mais de 90% da capacidade de supercomputação da América Latina, tornando-se protagonista natural na revolução da inteligência artificial na região. Ao mesmo tempo, existe o risco real de que a transformação tecnológica aprofunde desigualdades históricas de gênero no mercado de trabalho.

Isso porque as atividades majoritariamente ocupadas por mulheres, principalmente funções administrativas e de suporte, estão entre as mais suscetíveis à automação por sistemas de IA. Nesse contexto, a presença feminina nas áreas de desenvolvimento, gestão e aplicação estratégica da inteligência artificial torna-se ainda mais urgente.

Para Daniel Monteiro, especialista em inteligência artificial, o cenário ainda reflete barreiras históricas, mas pode, e precisa, ser transformado. “A inteligência artificial ainda é um campo predominantemente masculino, reflexo de uma desigualdade histórica no acesso à formação tecnológica. Mas isso não significa falta de interesse. Existem muitas mulheres interessadas em tecnologia e IA, e elas só têm a ganhar ao ingressar nesse mercado, que oferece crescimento acelerado, boas remunerações e protagonismo na transformação digital.”

Monteiro destaca que iniciativas educacionais, programas de incentivo e políticas de inclusão são fundamentais para equilibrar o cenário. “Quando ampliamos o acesso à formação, criamos referências femininas na tecnologia e mostramos caminhos reais de carreira, começamos a mudar esse panorama. A diversidade não é apenas uma pauta social, é uma estratégia de inovação. Ambientes diversos produzem soluções mais completas e mais inteligentes.”

A percepção de que a desigualdade ainda se manifesta no cotidiano profissional é reforçada por Nise, aluna de Inteligência Artificial na Digital College, ex-aluna da área de Dados e atualmente mestranda em IA na Universidade de Fortaleza. Segundo ela, a disparidade é visível tanto no mercado quanto na formação acadêmica.

“Observei que a maior parte dos colegas alocados no mercado de trabalho para ciência de dados ou engenharia de inteligência artificial é composta por homens. Em processos seletivos, não é incomum que perguntem a nós, mulheres, se temos com quem deixar filhos ou parentes dependentes. São preocupações que não vejo entrarem em pauta com colegas homens.”

Ela também chama atenção para um gargalo estrutural na base educacional. “Para trabalhar bem com inteligência artificial, é necessária uma base de exatas que temos que compensar durante a graduação e a pós-graduação, pois existe uma desigualdade considerável na formação de mulheres nessa área. Somos subjetivadas para posições de cuidado, onde entender história, filosofia e outras disciplinas de humanas é preferível a dedicar tempo à matemática e à física, sem nunca remover o enorme mérito desses campos científicos. Soma-se a essa luta o viés excludente do mercado. Nós nos exaurimos para nos formar e competir em condições muito mais adversas que nossos colegas do sexo masculino.”

Apesar dos desafios, especialistas destacam que o momento também representa uma janela histórica de oportunidade. Nayara Valevskii, professora do curso de IA da Digital College, avalia que o setor vive uma expansão sem precedentes.

“A área de inteligência artificial oferece hoje uma das maiores janelas de oportunidade da história da tecnologia. A IA não é só programação, como muitos pensam, ela envolve análise de dados, estratégia, produto, ética, comunicação técnica, automação de processos e até educação. Isso amplia muito as portas de entrada.”

Para mulheres que desejam migrar ou iniciar carreira, Nayara aponta três caminhos principais: “Entrada por dados, como análise de dados, BI e ciência de dados; IA aplicada a negócios, com foco em automação, agentes e otimização de processos; e educação e capacitação em IA. Além disso, a demanda por profissionais é muito maior que a oferta qualificada. Quem decide estudar nos tempos atuais entra em um mercado aquecido e em expansão.”

O fortalecimento da presença feminina na IA é não apenas uma questão de equidade, mas também de competitividade econômica. Países que conseguirem ampliar a participação de mulheres nas áreas de alta tecnologia tendem a acelerar a inovação e reduzir os impactos sociais da automação.

Em um momento em que o Brasil consolida sua infraestrutura digital e amplia sua capacidade tecnológica, o desafio vai além da expansão dos data centers e do desenvolvimento de algoritmos. A revolução da inteligência artificial só será completa se for inclusiva — garantindo que mulheres não apenas acompanhem essa transformação, mas liderem parte dela