
Por Maju Cotrim
Emanuele,
Hoje eu escrevo para você.
Escrevo não apenas como jornalista. Escrevo como mulher. Como mulher que entende o peso de um olhar atravessado. Como alguém que sabe que, muitas vezes, a violência não vem em forma de grito, ela vem em forma de risada. De pergunta. De “brincadeira”.
Perguntar se você “levou choque” por causa do seu cabelo não é brincadeira. É racismo.
Racismo travestido de comentário infantil. Racismo normalizado no recreio. Racismo que tenta ensinar, cedo demais, que o que é natural em você seria algo “errado”.
Mas deixa eu te contar uma coisa que talvez ainda não tenham te dito com a força necessária:
Seu cabelo não é erro.
Seu cabelo não é excesso.
Seu cabelo não é desordem.
Seu cabelo é identidade.
É herança. É história. É ancestralidade viva. É resistência que atravessou séculos para existir exatamente como é: alto, volumoso, potente.
Quando alguém tenta diminuir seu cabelo, tenta diminuir sua existência. E é por isso que não podemos tratar isso como algo pequeno.
O que aconteceu com você em Paraíso do Tocantins não é um episódio isolado. É reflexo de uma sociedade que ainda precisa aprender, e urgentemente, a respeitar meninas negras. A respeitar suas características, sua estética, sua beleza, sua cultura.
E aqui entra um ponto fundamental: a responsabilidade da escola.
Escola não é apenas lugar de conteúdo. É lugar de formação de caráter. É espaço de construção de valores. É onde se aprende matemática, mas também se aprende convivência.
Quando uma criança sofre racismo dentro de uma sala de aula, não é apenas um conflito entre colegas. É um alerta institucional.
A escola precisa debater identidade racial.
Precisa falar sobre diversidade.
Precisa ensinar que cabelo crespo não é “cabelo ruim”.
Precisa mostrar que beleza não tem padrão único.
Não basta perceber que a aluna está triste. É preciso agir. É preciso mediar. É preciso educar coletivamente.
Porque silêncio também educa e, quando a escola silencia diante do preconceito, ela educa para a omissão.
Emanuele, sua avó foi gigante. Dona Fátima transformou dor em coragem. Transformou lágrimas em posicionamento. Ela fez o que muitas famílias ainda têm medo de fazer: expor o problema para que ele não continue escondido.
A autoestima de uma menina negra é território sagrado.
E não podemos permitir que ela seja ferida dentro do espaço que deveria protegê-la.
Quantas Emanueles já choraram em silêncio?
Quantas já pediram para “alisar”?
Quantas já aprenderam cedo demais a se encolher para caber no padrão?
É preciso dizer com todas as letras: sugerir que uma menina alise o cabelo para ser “mais bonita” é reforçar um padrão racista. É ensinar que o natural precisa ser corrigido.
E não precisa.
Emanuele, que você nunca duvide do que você é. Que você nunca permita que diminuam a sua cor, a sua textura, a sua identidade. Que o laço que você coloca no cabelo seja símbolo de orgulho, não de tentativa de adequação.
E à sociedade, deixo um pedido firme:
Respeitem as meninas negras.
Respeitem seus cabelos.
Respeitem sua estética.
Respeitem sua autoestima.
Porque quando uma menina negra aprende a se amar do jeito que ela é, ela cresce inteira. E uma mulher inteira não aceita menos do que respeito.
Essa carta é para você, Emanuele.
Mas é também para cada menina que já voltou da escola chorando por ser quem é.
Vocês não são o problema.
O problema é o preconceito.
E ele precisa ser enfrentado com educação, com posicionamento e com coragem.
Com carinho e luta,
Maju Cotrim