
Maju Cotrim
O ano de 2026 mal começou e o Tocantins já amanhece com a marca mais cruel da nossa falência coletiva: um feminicídio. Ingrid Lorane Negreiros Santos, 22 anos, foi assassinada a facadas dentro de casa, no setor Taquari, em Palmas. Morta por quem deveria protegê-la. Morta na frente da própria vida interrompida e, indiretamente, na frente de dois filhos pequenos, agora órfãos de mãe.
Esse não é apenas mais um caso policial. É um retrato brutal de um problema estrutural não pode ser empurrado com discursos vazios e ações insuficientes por parte de todos os órgãos, segmentos e entidades.
O suspeito, companheiro da vítima, ingeriu bebida alcoólica antes do crime. Fugiu. Foi preso depois. O roteiro é conhecido, repetido, previsível. E exatamente por isso é inaceitável. Não foi um “surto”, não foi um “crime passional”, não foi uma fatalidade. Foi feminicídio. Foi violência anunciada. Foi o resultado de um sistema que falha antes, durante e depois.
Enquanto Ingrid era morta, o Tocantins segue sua rotina. Enquanto duas crianças eram encontradas em meio ao caos, alguns seguem debatendo 2026 como se fosse apenas um calendário eleitoral, e não um ano que já começa exigindo respostas duras, urgentes e reais.
Quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a violência doméstica deixe de ser tratada como assunto secundário pela sociedade em geral? Quantas Ingrid precisarão ser enterradas para que políticas públicas deixem de ser apenas números em relatórios e passem a ser proteção concreta na ponta? A responsabilidade coletiva e de todo o sistema de segurança, jurídico e institucional.
Não basta investigar depois. Não basta prender depois. Não basta lamentar depois.
É antes que a rede de proteção não chega. É antes que o agressor não é contido. É antes que a mulher não é ouvida, não é acolhida, não é protegida.
O feminicídio não é um problema privado. É um crime que revela prioridades distorcidas, omissões históricas e uma cultura que ainda relativiza a vida das mulheres.
2026 começou. E começou com sangue, com dor, com crianças desamparadas e com uma pergunta que não pode mais ser ignorada: até quando vamos aceitar que mulheres morram dentro de casa como se isso fosse parte da paisagem?
Não é. Nunca foi. E não pode continuar sendo.
O futuro começa agora e ele exige coragem para enfrentar essa realidade de frente, sem eufemismos, sem desculpas e sem silêncio.