
Fernanda Dias/Governo do Tocantins
A produção de conhecimento sobre o Cerrado e a valorização de comunidades tradicionais no Tocantins ganham reforço com o projeto Agrobiodiversidade e caracterização ambiental dos ‘torrões’ no Parque Estadual do Cantão (PEC), que avança para a fase final.
Financiado pelo Governo do Tocantins, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt), em parceria com o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), e executado pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra Palmas), o projeto adota uma abordagem participativa e colaborativa, desenvolvida com torrãozeiros e outros atores envolvidos no manejo dos recursos naturais da região.
O objetivo é ampliar os conhecimentos sobre a conservação da agrobiodiversidade no parque, estimulando a participação e empoderamento dos agricultores por meio de suas habilidades e experiências. Ao final do projeto, espera-se evidenciar as formas das relações de um povo tradicional com os recursos naturais de onde vive, com seu meio ambiente e a agrobiodiversidade local.
“A iniciativa realizada com a comunidade tradicional dos torrãozeiros, no Parque Estadual do Cantão, foca primordialmente no fortalecimento de sua identidade e autoestima. Trata-se de um esforço contínuo e gradual que busca reconectar os indivíduos com sua herança ancestral e suas memórias afetivas, valorizando seu papel histórico na região”, destaca a coordenadora do projeto, Conceição Aparecida Previero.
Congresso Nacional de Meio Ambiente
Em outubro de 2025, três pesquisas que compõem o projeto, desenvolvidas por acadêmicos da Ulbra Palmas, com a coordenação da professora Conceição Aparecida Previero, foram selecionadas para o 22º Congresso Nacional de Meio Ambiente, realizado em Poços de Caldas/MG.
Os trabalhos selecionados foram: Gestão dos Resíduos Sólidos e Orgânicos nos Torrões no Parque Estadual do Cantão, Tocantins; Rios de Memória e Resistência: a Linha do Tempo como Voz dos Torrãozeiros, no Parque Estadual do Cantão, Tocantins; e Produção e Doação de Mudas de Espécies Nativas para a Implementação de Quintais Agroflorestais nos Torrões, no Parque Estadual do Cantão, Tocantins.
Os artigos foram desenvolvidos pelos estudantes de Agronomia, Enoque Bezerra Nunes e Marcilene Rodrigues Cardoso, além de outros integrantes.
Reconhecido como um dos principais eventos ambientais do país, o congresso reúne pesquisadores de diversas regiões e se consolida como um importante espaço de divulgação científica.
Trajetória dedicada ao Cerrado
A atuação da professora Conceição Previero no Cantão reforça uma trajetória de quase três décadas dedicada à pesquisa no Cerrado tocantinense. Ao longo desse período, a pesquisadora tem desenvolvido estudos voltados à conservação ambiental, à agricultura familiar e à valorização de saberes tradicionais.
Entre as iniciativas da pesquisadora está o resgate e a conservação de sementes crioulas. Para ela, o Cerrado funciona como um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde conservação ambiental e saberes tradicionais caminham juntos.
“O resgate de sementes crioulas é um trabalho lento, silencioso”, resume a pesquisadora, ao lembrar que a iniciativa começou com apenas cinco sementes de milho recebidas em um evento em Brasília/DF e, hoje em dia, envolve multiplicação, troca e circulação de variedades tradicionais.
Edital
O edital conta com recursos financeiros no valor global de R$ 1,3 milhão, oriundos do Termo de Convênio nº 001/2022, celebrado entre o Naturatins e a Fapt. São financiadas até 12 propostas, no valor de até R$ 100 mil para cada proponente.
A iniciativa tem como foco financiar pesquisas científicas em âmbito estadual voltadas à produção de conhecimento sobre o entendimento, monitoramento, manejo, uso e proteção da biodiversidade, do patrimônio cultural e dos recursos naturais em Unidades de Conservação da Natureza Estaduais do Tocantins, dos grupos de Proteção Integral e de Uso Sustentável.
Comunidade Torrãozeiros
A comunidade Torrãozeiros é formada por grupos tradicionais que habitam o Parque Estadual do Cantão desde antes da criação da unidade de conservação, em 1998.
O nome tem origem nos chamados torrões, que são pequenas porções de terra ocupadas por famílias que vivem dos recursos da floresta. Eles são exemplos de convivência harmônica entre o povo e o ecossistema, com práticas enraizadas no respeito ao ambiente e na preservação de suas tradições.
Reconhecidos legalmente, os Torrãozeiros são parceiros na conservação do parque e contribuem ativamente para a proteção de um dos ecossistemas mais ricos da Amazônia tocantinense.