
O que deveria ser apenas mais um trajeto cotidiano virou um episódio de dor e indignação para a professora Eliete de Santana, de 50 anos. Ao passar em frente a uma escola estadual em Araguaína, ela foi alvo de ofensas racistas vindas de estudantes dentro da unidade.
“Segui meu caminho, mas aquilo me atingiu profundamente. Na volta, decidi ir até a escola e pedir respeito. Eles ainda riram, em tom de deboche”, contou.
Segundo a educadora, os alunos a chamaram de “preta feia” e disseram que ela “parece um urubu”. O caso aconteceu na quarta-feira, 8, enquanto ela caminhava pela Rua Ademar Vicente Ferreira. Por envolver adolescentes, a identidade dos estudantes não é divulgada, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Após o ocorrido, Eliete procurou a direção da Escola Estadual Professor João Alves Batista, que acolheu a denúncia. Em seguida, ela registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil.
Abalo emocional
Com décadas de atuação na educação pública e próxima da aposentadoria, a professora afirma que o episódio deixou marcas profundas.
“Fiquei com trauma. Não consigo dormir direito. É muito difícil reviver isso”, relatou.
Mãe de quatro filhos — dois deles com Transtorno do Espectro Autista —, ela destacou o impacto psicológico da violência. “Isso mexe com a autoestima, com a saúde emocional. A gente passa a ter medo, a se sentir vulnerável”, disse.
Para a educadora, o fato de a agressão ter ocorrido em ambiente escolar torna a situação ainda mais grave. “Racismo se combate com educação. Quando isso parte de dentro de uma escola, é muito preocupante”, afirmou.
Medidas e resposta da escola
Em nota, a unidade escolar confirmou o episódio e informou que os estudantes foram identificados e punidos com suspensão de três dias.
Segundo a direção, a medida tem caráter pedagógico e busca conscientizar os alunos sobre a gravidade da conduta, considerada discriminatória e incompatível com os princípios de convivência ética.
Crime e legislação
A injúria racial ocorre quando uma pessoa é ofendida diretamente em razão de sua cor, raça, etnia ou origem. Desde 2023, esse tipo de crime passou a ser equiparado ao racismo no Brasil, tornando-se inafiançável e imprescritível.
A vítima pode procurar a Polícia Civil, registrar ocorrência e buscar apoio de órgãos como Defensoria Pública e Ministério Público.
O que diz a Seduc
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) repudia veementemente qualquer manifestação de racismo ou discriminação e se solidariza com a vítima diante da violência sofrida.
A Seduc informa que a rede estadual adota medidas imediatas em situações dessa natureza, incluindo a apuração dos fatos, a aplicação das medidas disciplinares cabíveis e o acompanhamento pedagógico dos estudantes envolvidos. A Pasta reforça que práticas racistas são tratadas com absoluta seriedade, em consonância com a legislação vigente.
No âmbito institucional, a Secretaria mantém diretrizes para o enfrentamento de situações de violência e discriminação, por meio do Protocolo de Atuação em Situação de Crise no Contexto Escolar, que orienta as unidades quanto à identificação, acolhimento, registro e encaminhamento de casos, além da articulação com a rede de proteção, como Conselho Tutelar, saúde e assistência social.
O protocolo também prevê a oferta de escuta qualificada e suporte psicossocial às vítimas e aos envolvidos, assegurando atendimento humanizado e a adoção de medidas educativas e preventivas.
Como política estruturante, o Governo do Tocantins desenvolve o Projeto Poder Afro, iniciativa voltada à construção de uma educação pública antirracista, com formação de professores, disponibilização de material pedagógico e ações contínuas de valorização da história e da cultura negra.
A Seduc reforça que o enfrentamento ao racismo é uma responsabilidade coletiva e permanente e seguirá atuando para garantir um ambiente escolar seguro, respeitoso e comprometido com os direitos humanos.