Conflitos no campo avançam 40% no Tocantins e pressão sobre territórios acende alerta, aponta CPT

O avanço das disputas por terra, água e território voltou a colocar o Tocantins em alerta. Novo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que os conflitos agrários cresceram 40% no estado em 2025, escancarando a pressão sobre comunidades tradicionais, assentamentos e áreas rurais em meio à expansão do agronegócio no Matopiba.

Foram 70 conflitos registrados neste ano, contra 50 no período anterior, segundo dados divulgados pela CPT Regional Araguaia-Tocantins com base no relatório Conflitos no Campo Brasil 2025. Mais de 3,8 mil famílias aparecem diretamente envolvidas nos episódios mapeados.

O retrato é de tensão persistente.

A maior parte dos casos segue concentrada nas disputas por terra. Foram 45 ocorrências ligadas a conflitos fundiários, atingindo sobretudo quilombolas, trabalhadores sem terra, posseiros, assentados e povos indígenas.

Embora esse número esteja próximo do registrado no ano anterior, quando houve 48 casos, a avaliação da CPT é que a pressão territorial permanece intensa e estrutural.

No pano de fundo, está o avanço do Matopiba, fronteira agrícola que engloba áreas do Tocantins e que há anos concentra embates entre expansão produtiva e territórios tradicionais.

Água também virou foco de disputa

Se a terra segue no centro do conflito, a água aparece como novo eixo sensível.

O relatório identificou 12 conflitos por água em 2025. Metade atingiu comunidades quilombolas.

O dado reforça um cenário em que a disputa já não se limita à posse do solo, mas alcança também acesso e controle de recursos naturais essenciais.

Em várias regiões, a pressão sobre rios, nascentes e áreas tradicionalmente utilizadas por comunidades locais tem ampliado tensões.

Trabalho escravo cresce

Outro dado que chamou atenção foi o aumento das ocorrências relacionadas ao trabalho análogo à escravidão.

Foram oito registros neste ano, salto expressivo em relação aos dois casos apontados em 2024.

No ano passado, 11 trabalhadores foram resgatados em áreas rurais de municípios como Arraias e Marianópolis.

O crescimento desse indicador aparece no relatório como mais um sinal da precarização e da vulnerabilidade no campo.

Violência e mortes marcaram cenário

O levantamento também relembra que o ambiente de conflitos no Tocantins não se resume a disputas territoriais.

Em 2024, haviam sido registradas 32 ocorrências de violência contra pessoas no campo, com 15 vítimas.

Entre os episódios citados estão os assassinatos do camponês Cícero Rodrigues de Lima, ligado ao assentamento P.A. Remansão, e do ambientalista Sidiney de Oliveira Silva.

A lista inclui ainda ameaças, agressões e outras formas de violência contra trabalhadores rurais e comunidades tradicionais.

Resistência também cresce

Em meio ao avanço dos conflitos, o relatório aponta movimentos de reação.

Foram registradas cinco ações coletivas de resistência, reunindo cerca de 900 pessoas em ocupações, retomadas e mobilizações em defesa dos territórios e dos recursos naturais.

Para a CPT, esses movimentos revelam que, paralelamente à escalada das disputas, comunidades seguem se organizando para enfrentar a pressão sobre seus espaços.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins