“É um luto sem corpo, sem caixão”, desabafa mãe de tocantinense morto na guerra na Ucrânia

A dor de perder um filho já é difícil de traduzir. Para a dona Joana Pereira, mãe do tocantinense Eliseu Delis Pereira Martins, de 32 anos, a dor ganhou um peso ainda maior: a ausência de respostas e até do corpo do filho.

Em entrevista divulgada no Instagram da jornalista Osvany Luz, ela descreve o que tem vivido desde que recebeu a notícia da morte de Eliseu, natural de Miracema do Tocantins e morador de Palmas, que foi para a Ucrânia neste ano e acabou morto no conflito.

“É uma dor que não se explica. É difícil pra uma mãe enterrar um filho, mas quando tem o corpo, tem um caixão, tem um lugar pra ir. E eu estou vivendo um luto sem corpo, sem caixão, sem saber como ficou meu filho lá”, desabafou.

A história de Eliseu já havia sido revelada anteriormente: segundo a família, ele viajou acreditando em uma proposta de trabalho para atuar na reconstrução de cidades destruídas pela guerra. No entanto, ao chegar ao país, a realidade foi outra.

Eliseu Delis Pereira Martins – Foto: Divulgação

De acordo com Joana, o filho se inscreveu voluntariamente após ver promessas de bom salário e condições favoráveis. “Disseram que ele ia trabalhar na reconstrução, que não teria despesas, que o salário seria livre. Foi com essa intenção”, contou.

Mas a mudança de cenário foi rápida. Ainda segundo ela, Eliseu relatou que passaria por um treinamento de 60 dias, o que não aconteceu. Pouco tempo depois, já estava sendo enviado para a linha de frente do conflito.

“Ele me disse: ‘mãe, não é a gente que escolhe, são eles’. Lá é totalmente diferente do que falam”, relatou.

A última conversa entre mãe e filho aconteceu no dia 13 de abril, por chamada de vídeo. Foi nesse momento que Joana percebeu algo diferente.

“Eu vi no olho dele o arrependimento. Ele estava triste, com lágrimas nos olhos. Disse que ia, mas pediu pra eu não me preocupar. Que mãe não se preocupa?”, lembrou.

Dias depois, veio a notícia da morte. Segundo ela, a família não recebeu documentos oficiais nem detalhes claros sobre o ocorrido.

“Só mandaram mensagem dizendo que, infelizmente, o Martins tinha morrido. Eu perguntei do corpo, e disseram que não trazem, que é perigoso. Que depois de meses vão lá pegar ossos para DNA. Isso é o que mais dói”, afirmou.

Além do luto e da falta de informações, Joana também faz um alerta a outros brasileiros, especialmente jovens e pais de família, que possam considerar propostas semelhantes.

“Não se iludam. Ele foi com esperança de voltar, mas não foi isso que aconteceu”, disse.

Eliseu deixa duas filhas no Brasil. Enquanto isso, a família segue tentando lidar com a perda marcada pela ausência, sem despedida, sem velório e sem respostas.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins