
O que começou sem planejamento virou uma das cenas mais curiosas do Parque Cesamar, em Palmas. Enquanto corredores e pessoas que fazem caminhada seguem pela pista, a cantora Jucy Pontes canta às margens do parque e, pouco a pouco, quem passa acaba diminuindo o ritmo, sorrindo, dançando e, em alguns casos, parando para acompanhar a apresentação.
A cena ganhou as redes sociais e fez Jucy ser procurada por páginas e veículos de comunicação. Mas, para ela, a repercussão é apenas consequência de algo muito mais pessoal: o reencontro com uma parte da própria vida que havia deixado para trás.
Jucy contou à Gazeta que chegou a perder completamente o gosto pela música. Durante um processo de terapia, ouviu da profissional que a música continuava fazendo parte da essência dela e que deveria simplesmente voltar a cantar, sem se preocupar inicialmente com público ou reconhecimento.
“Ela dizia assim: apenas volte. Não importa se vai ter público, não importa se vão gostar ou não, apenas vá.”
A cantora decidiu que retornaria aos 40 anos. No ano passado, quando completou a idade, fez uma festa em Lavandeira, cidade onde nasceu, no sudeste do Tocantins, e marcou aquele momento como o seu retorno à música.
Restava, porém, uma pergunta: onde voltar a cantar?
A resposta apareceu em um lugar que Jucy já conhecia bem. Ela costuma praticar atividade física no Cesamar e conta que sentia uma conexão especial com o espaço, principalmente ao passar por uma das pontes do parque.
Durante uma corrida, teve a sensação de que aquele era o lugar onde deveria cantar.
“Um belo dia, correndo por lá, eu ouvi profundamente a minha intuição dizendo: é aqui. Apenas obedeci.”
No começo, Jucy levava apenas o celular. Cantava, gravava e publicava os vídeos nas redes sociais. Até que as pessoas começaram a reagir.
Alguns paravam para ouvir. Outros aplaudiam. Depois vieram as danças. Jucy percebeu que poderia registrar também a reação de quem passava pelo parque e começou a fazer isso.
Os vídeos foram compartilhados, ganharam alcance e chegaram a páginas de grande audiência e veículos de comunicação de Palmas.
O resultado surpreendeu a própria cantora.
“Eu nunca imaginei. Era apenas meu retorno para minha essência, eu estava resgatando uma parte de mim que havia morrido.”
Música que contagia quem passa
Para Jucy, observar as pessoas dançando tem um significado especial porque representa justamente o reencontro dela com aquilo que havia perdido.
“Passa um filme na minha cabeça, porque a música tinha perdido total sentido para mim. E vendo eles dançando e com sorriso no rosto, isso me alegra muito.”
A experiência também se mistura com outra paixão da cantora: a natureza.
Ela diz que procura manter uma conexão forte com o ambiente e que cantar cercada pelas árvores, pela água e pelos animais torna o momento diferente de qualquer apresentação tradicional.
“Me sinto em casa. É uma energia muito forte.”
A resposta do público também virou combustível para que ela continue. Jucy conta que recebe mensagens de pessoas dizendo que ela melhorou o dia delas ou até que ficam tristes quando passam pelo parque e não a encontram.
“Elas realmente me abraçaram. Recebo mensagens de pessoas dizendo que eu fiz o dia delas melhor, ou que quando passa lá e não me vê fica triste.”
A cantora também vê a experiência como um processo pessoal de cura.
“Hoje posso dizer que sou um pouquinho melhor que ontem e a música é minha cura”, afirma. Segundo ela, apesar de o público ser beneficiado pelas apresentações, é ela quem mais sente os efeitos dessa retomada.
Jucy é casada, cuida da casa e vem de uma família ligada à música. Segundo ela, praticamente todos os parentes têm alguma relação com a atividade, embora ninguém tenha seguido carreira profissionalmente.
Do Melim ao calipso de Joelma
O repertório no Cesamar também ajuda a explicar por que algumas apresentações rapidamente se transformam em uma pequena pista de dança.
Jucy costuma cantar músicas do Melim, banda que encerrou as atividades, justamente pelas letras que considera carregadas de boas energias. Mas também aposta em músicas de Joelma.
E há uma reação que ela já conhece bem.
“Quando começo a cantar calipso, o povo já começa a dançar, ainda chegando na curva da ponte”, brinca.
E depois da repercussão?
Mesmo com os vídeos ganhando cada vez mais alcance, Jucy não está tratando a repercussão como uma obrigação de transformar imediatamente a experiência em carreira.
Ela prefere continuar como começou: um dia de cada vez.
“Vou continuar como estou porque entendi que o fluxo da vida é leve. Vou seguindo dia após dia.”
Para ela, se a música voltar a ocupar um espaço profissional maior em sua vida, os próprios acontecimentos vão mostrar o caminho.
“Se meu crescimento profissional for algo realmente relacionado à música, os sinais vão me dizer”, afirma.
Enquanto isso, ela continua indo ao Cesamar, cantando para quem passa e, segundo suas próprias palavras, seguindo a intuição.
“O mais importante de tudo isso é que estou me tornando um ser humano um pouquinho melhor a cada dia.”