Quilombo Poço Dantas realiza 1ª Farinhada do Jatobá e transforma fruto em tradição e renda

O fruto já estava colhido, cerca de 600 quilos, quando os moradores se reuniram, na manhã de sábado, 26, para a 1ª Farinhada do Jatobá da região sudeste do Tocantins. A preparação para o evento, sediado na comunidade quilombola Poço Dantas, em Almas (TO), ocorreu semanas antes, com a colheita do fruto envolvendo dos anciãos às crianças menores.

Os jatobazeiros, árvores gigantes, nesta época estão carregadas com o ‘fruto duro’, significado de jatobá, cujo nome deriva da língua tupi. A árvore se espalha pelo bioma Cerrado, sendo encontrada em várias regiões do país.  

O grande dia atraiu centenas de pessoas na casa dos mestres e líderes professor Daniel e Fulozina Crisóstomo para o trabalho coletivo, que proporcionou convivência e preservação da cultura. Mestre José Batista, o Zé Menininho, da comunidade quilombola Mateiros, no Jalapão, foi o principal condutor desta troca de saber ancestral junto à comunidade.

Produção, memória e convivência

A transformação do jatobá em farinha é um conhecimento transmitido de geração em geração, uma tecnologia dos antepassados que resguarda memória e convívio. Mestre Zé Menininho, que estava no local à convite da Associação de Apoio às Unidades de Conservação – Onça D’água, destacou a importância da produção da farinha também para a geração de renda. “Na minha região eu sou o único produtor e não estou dando conta de manter o mercado”, observou ele, num chamamento à comunidade a se apropriar das técnicas da farinhada para empreender com o fruto.

Após o momento de acolhida, com apresentação cultural das crianças do projeto Chão de Saberes com folia e dança da suça, foi a hora dos preparativos. O presidente da associação do Poço Dantas, Aniel Crisóstomo, abriu os trabalhos lembrando que a prática da farinhada é também uma forma de manter viva as técnicas de produção dos antepassados. “Temos que manter a nossa cultura, a cultura dos nossos ancestrais, porque se não preservarmos e valorizarmos, em algum momento isso tudo vai acabar, como a técnica do pilão, da mesa e da roda de farinha, do tapiti”, lembrou, ao destacar que a farinhada do jatobá, embora seja uma técnica de outros povos quilombolas, também contribui para preservar as próprias técnicas locais.

Em seguida, a equipe do Onça D´Água, liderada pela diretora-executiva Angélica Beatriz Correia Gonçalves, falou sobre o projeto e distribuiu luvas, máscaras e toucas para o início das atividades.

Técnica

Os frutos de casca dura eram quebrados com pedaços de troncos secos evidenciando a polpa amarelada e cheirosa, que era separada da semente e levada ao pilão até ser transformada em uma farinha pastosa.  Após ser peneirada, a massa extraída era levada ao forno instalado no terreiro da comunidade, onde era continuamente mexida até a secagem total.

Enquanto trabalhavam, a prosa corria solta e leve, com histórias sendo partilhadas entre os moradores e visitantes sobre o cotidiano da comunidade e outras experiências de vida. Os mais jovens participavam ativamente de todos os momentos, aprendendo enquanto brincavam e conversavam junto aos mais velhos. 

Mais de 40 quilos de farinha

O trabalho resultou em mais de 40 quilos de farinha, produto de alto poder nutritivo, que serve de matéria-prima para bolos, pães, biscoitos, mingaus, vitaminas e muitas outras criações culinárias. Parte da produção foi distribuída entre a comunidade e outra parte será comercializada. A expectativa é que outras farinhadas sejam realizadas ampliando o conhecimento da comunidade com o manejo e a técnica do produto para consumo e comercialização.

Protagonismo coletivo

A representante do ISPN, Silvana Bastos, destacou que a farinhada representa o protagonismo comunitário e os meios de vida sustentáveis que mantêm o Cerrado em pé. “E este dia é especial para mostrar essa força”, disse na ocasião.

Para Migulenaes Crisóstomo, liderança no quilombo, a ocasião foi muito importante para a troca de saberes, com grande mobilização da comunidade e das comunidades vizinhas, além do próprio município. “Tenho certeza que essa experiência será muito enriquecedora e valiosa para a nossa comunidade”, concluiu.

Além da produção da farinha propriamente, a tradição ainda contribui para valorizar os conhecimentos quilombolas e manter viva a relação da comunidade com a natureza. Assim, a farinhada do jatobá vai além do produto. É uma prática cultural que fortalece a identidade e a memória coletiva, como foi amplamente confirmado neste sábado inteiro de trocas na comunidade Poço Dantas.

A 1ª Farinhada do Jatobá no sudeste foi realizada com apoio do Fundo Ecos, por meio do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN); da Associação de Apicultores e Melinopicultores de Almas e Região (Apiam); da Rede Jatobá; da Aura Minerals e da Prefeitura Municipal de Almas.

Texto: Val Rodrigues

Fotos: Annady Borges e Laílson Rodrigues Soares