Gustavo Veloso Feitosa
Gustavo Veloso Feitosa

A investigação sobre a morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, em Palmas, passou a considerar uma nova possibilidade: a de que a criança tenha sido vítima de violência com o objetivo de provocar sofrimento à própria mãe. A Polícia Civil apura se o caso pode ser enquadrado como violência vicária, hipótese que ganhou força após a análise dos elementos reunidos no inquérito e da decisão que determinou a prisão preventiva do pai e da madrasta do menino.

Igor Veloso, pai de Gustavo, e Kathellen Moreira, madrasta da criança, estão presos preventivamente. Inicialmente, o delegado Eduardo Menezes representou pelas prisões por suspeita de homicídio e tortura, mas deixou aberta a possibilidade de que outros crimes sejam incluídos à medida que a investigação avance.

Em decisão que autorizou as prisões, o juiz Cledson Nunes mencionou o histórico de ameaças envolvendo a mãe da criança, Sabrina Feitosa da Silva, e o fato de Gustavo estar sob os cuidados do pai e da madrasta quando morreu. O magistrado também citou a suspeita de vicaricídio majorado.

O delegado afirmou que a hipótese ainda está sob investigação. Segundo ele, o enquadramento jurídico do casal poderá ser alterado ao final do inquérito, conforme a polícia reúna novas provas.

Laudo descartou versão de afogamento

Gustavo morreu após sofrer uma hemorragia interna provocada por lesões graves, segundo o Instituto Médico-Legal (IML). O resultado dos exames contrariou a versão inicialmente apresentada pelo pai, de que o menino teria se afogado na piscina da residência.

A perícia identificou múltiplas lesões no corpo da criança e sinais de violência sexual, considerados incompatíveis com uma morte por afogamento.

O caso veio à tona no dia 3 de agosto, quando a morte do menino foi comunicada. A partir dos primeiros exames, a hipótese de acidente passou a ser questionada pelos investigadores e posteriormente foi descartada pela perícia.

A investigação passou então a reunir outros elementos sobre a rotina da criança e o relacionamento entre os pais.

Histórico entre os pais entrou na investigação

Gustavo era filho de pais que não viviam juntos e, segundo a Polícia Civil, havia disputas judiciais relacionadas à guarda e à pensão alimentícia. A mãe também relatou às autoridades episódios anteriores de ameaças.

Segundo a defesa de Sabrina, existem registros de violência doméstica desde 2023. A polícia também recebeu informações sobre possíveis agressões sofridas pelo menino durante o período em que fazia visitas à casa do pai.

A mãe entregou aos investigadores fotografias, vídeos e outros registros. Conforme o delegado Eduardo Menezes, parte desse material mostra Gustavo retornando das visitas com marcas pelo corpo.

Ainda segundo a investigação, há registros de arranhões, hematomas e outros ferimentos desde 2024. Sabrina teria questionado o pai sobre os machucados, enquanto as lesões eram atribuídas a quedas ou acidentes próprios da infância.

Um dos vídeos analisados pela polícia mostra Gustavo chorando e se recusando a ir para a casa do pai. Segundo o relato apresentado pela mãe, o menino dizia que era agredido e demonstrava medo ao ouvir a voz de Igor.

A polícia também analisa uma gravação na qual Gustavo aparece, segundo o delegado, “nitidamente dopado”.

O que significa violência vicária

A violência vicária passou a ter previsão expressa na legislação brasileira com a Lei nº 15.383/2026, sancionada em 9 de abril deste ano, que alterou a Lei Maria da Penha.

O conceito se aplica a situações em que uma pessoa próxima à mulher, como um filho, é atingida com a intenção de provocar sofrimento, punição ou controle sobre ela.

A advogada criminalista Cristiane Mezzaroba explicou que, nesse contexto, a criança pode acabar sendo utilizada pelo agressor como instrumento para atingir a mãe.

“É como se fosse, de uma forma, culpá-la para que carregue pelo resto da vida essa dor e essa culpa de que determinada pessoa morreu por ela”, afirmou.

No caso de Gustavo, entretanto, a aplicação desse enquadramento ainda não está definida. A Polícia Civil trata o vicaricídio como uma das linhas da investigação, e a definição dos crimes dependerá da conclusão do inquérito e da análise do Ministério Público e da Justiça.

Defesa nega acusações e questiona prisão

As defesas de Igor e Kathellen afirmam que as acusações são graves e devem ser analisadas com cautela. Os advogados disseram que não pretendem discutir detalhes da investigação fora dos autos e que os argumentos serão apresentados à Justiça.

A defesa de Igor afirmou que ele se colocou à disposição da polícia desde que soube do pedido de prisão preventiva. Segundo os advogados, após a expedição do mandado, foi combinado que ele se apresentaria voluntariamente na residência onde estava.

O advogado sustenta que não houve fuga, resistência ou necessidade de localização após buscas policiais.

Já a defesa de Kathellen questiona a prisão preventiva e afirma que a decisão não teria considerado adequadamente o fato de ela ser mãe de uma bebê de cinco meses que ainda é amamentada.

Segundo os advogados, a prisão simultânea de Kathellen e do pai da bebê provocou a separação da criança dos dois genitores. A defesa pretende pedir a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares menos gravosas ou, alternativamente, prisão domiciliar.

Os advogados também afirmam que Kathellen se apresentou espontaneamente para o cumprimento da ordem judicial.

As duas defesas reforçam que os investigados devem ser tratados de acordo com a presunção de inocência enquanto o processo não tiver uma decisão definitiva.

Investigação continua

Com Igor e Kathellen presos preventivamente, a Polícia Civil segue analisando laudos, imagens, depoimentos e demais elementos reunidos desde a morte de Gustavo.

O delegado responsável pelo caso ainda poderá modificar a classificação dos crimes atribuídos aos investigados conforme novas informações sejam incorporadas ao inquérito.

A principal questão agora é esclarecer não apenas o que provocou a morte da criança, mas também se houve uma intenção específica de atingir a mãe por meio do menino. É justamente nesse ponto que a hipótese de violência vicária passou a ser considerada pelos investigadores.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins