Animais foram resgatados - Foto: Montagem
Animais foram resgatados - Foto: Montagem

O avanço no número de aparições de serpentes em Augustinópolis, no Bico do Papagaio, deixou de ser apenas uma sequência de casos curiosos para acender um alerta ambiental. De janeiro até este mês, pelo menos 11 sucuris, uma jiboia e três jacarés foram capturados na área urbana pela equipe de bombeiros civis CANUC-TO.

O caso mais recente aconteceu na quarta-feira, 22, quando uma sucuri de cerca de 2,2 metros foi encontrada em área urbana e precisou ser resgatada durante a noite. O animal foi devolvido à natureza em uma área de mata entre 5 e 7 quilômetros da cidade. Com este caso, em menos de duas semanas, foram quatro aparições de cobras e uma de jacaré.

Mas o que explica tantas aparições?

Em entrevista à Gazeta do Cerrado, a bióloga Maria Júlia Meneses Dias, que trabalha com herpetofauna, afirma que o fenômeno está diretamente ligado à pressão sobre os ambientes naturais e não a um suposto aumento descontrolado de cobras.

“Augustinópolis está inserida em uma área de transição entre Cerrado e Amazônia, o que já favorece um maior número de animais. Porém, acredito que a questão principal é a pressão ambiental que essa cidade recebe da expansão agrícola ao redor”, explicou.

Segundo ela, o regime de chuvas e a inundação de ambientes aquáticos também influenciam nesses deslocamentos.“O que vemos não é um surto populacional, mas animais desalojados tentando sobreviver em um ambiente que antes era deles”, afirmou.

Cidade avança, fauna reage

Para a pesquisadora, o avanço urbano sobre áreas naturais ajuda a explicar por que cobras têm aparecido com mais frequência em bairros e residências.

“Na prática, isso acontece porque o avanço urbano destrói os ambientes naturais das serpentes. Ao mesmo tempo em que retiramos a casa delas, oferecemos abrigo em entulhos e comida fácil, como ratos. O resultado é o conflito inevitável: o animal tenta sobreviver em um ambiente que foi transformado radicalmente pelo homem”, disse.

Ela destaca que a presença de terrenos baldios, lixo, mato alto e proliferação de roedores favorece esse cenário. “São nesses ambientes que os animais encontram maneiras de sobreviver. Isso facilita a entrada deles nas cidades”, pontuou.

Cobra foi resgatada em cima de telhado – Foto: CANUC-TO/Divulgação

Chuvas e reprodução também influenciam

Outro fator apontado pela bióloga é o ciclo biológico das serpentes. “Os ciclos biológicos e sazonais influenciam diretamente. Na época reprodutiva, os animais vão em busca de parceiros para acasalar, enquanto nas variações climáticas a movimentação muda conforme necessidades de abrigo e alimento”, explicou.

Segundo ela, ambos os fatores elevam a chance de encontros com humanos.

Embora muita gente fale em “surto”, Maria Júlia pondera que a expressão não traduz exatamente o fenômeno observado. “O ‘surto’ de cobras não está necessariamente relacionado a aumento populacional, mas ao aumento das aparições. Embora o período reprodutivo eleve as chances de encontros, acredito que isso esteja muito mais ligado às mudanças ambientais”, afirmou.

Ela acrescenta que o fenômeno reflete um conflito maior. ”Os animais silvestres estão perdendo seus habitats e passam a buscar abrigo, alimentação e reprodução em outros locais. Consequentemente ocorre o conflito homem-natureza, prejudicial para ambos os lados.”

Região favorece grande biodiversidade

Maria Júlia lembra que o Tocantins está numa área estratégica de transição ecológica. “Chamamos essas regiões de ecótonos, zonas onde há mistura de biomas. São áreas extremamente importantes porque abrigam alta biodiversidade e funcionam como corredores ecológicos”, disse.

No caso do Bico do Papagaio, essa condição é ainda mais marcante.

Segundo ela, ali se encontram influências do Cerrado e da Amazônia, o que amplia a diversidade de fauna.

Isso ajuda a explicar por que espécies como sucuris, jiboias e cobras-cipó aparecem com frequência. “Geralmente as mais vistas são não peçonhentas, como as sucuris e jiboias. Já entre as peçonhentas, as mais comuns no Estado e mais passíveis de aparecer na cidade são as jararacas, e em casos isolados as cascavéis”, detalhou.

“Não tentem matar”

Diante do aumento dos registros, a bióloga reforça orientações básicas à população. “O principal cuidado é manter distância para evitar ser picado. Isso significa não se aproximar, não mexer, não tocar e não tentar matar, porque geralmente é nesse momento que o acidente acontece”, alertou.

Ela diz que os erros mais comuns são tentativas de capturar o animal manualmente, aproximação para fotos e o uso de supostas técnicas caseiras para identificar se a cobra é venenosa.

“Muitas pessoas não conhecem o comportamento daquele animal e acabam se envolvendo em acidentes”, afirmou.

Bióloga Maria Júlia Meneses Dias explica que o Tocantins está numa área estratégica de transição ecológica – Foto: Arquivo Pessoal

Alerta de desequilíbrio

Para a pesquisadora, os números registrados em Augustinópolis revelam mais que coincidência. “Sim, esses registros podem ser um alerta de desequilíbrio ambiental. Esse conflito só existe porque esses animais estão perdendo seus habitats naturais e são forçados a procurar sobrevivência em outro lugar, entrando nas cidades”, disse.

Ela chama atenção para um movimento que vai além da expansão urbana. “Esse crescimento não se dá apenas de dentro para fora. Há também uma pressão de fora para dentro, quando grandes empreendimentos rurais e do agronegócio crescem aceleradamente, cercando os animais silvestres em fragmentos isolados entre a cidade e o campo, como se fosse um ‘sanduíche’”, explicou.

Segundo ela, esse cerco geográfico acaba empurrando a fauna para áreas urbanas. “Como o Tocantins é um estado novo e em desenvolvimento, esse cenário força os animais para os centros urbanos, resultando no aumento desses episódios de conflito.”

Região estratégica e peso econômico

Além do aspecto ambiental, o Bico do Papagaio tem importância estratégica para o Tocantins. A região reúne forte extrativismo do babaçu, agropecuária e corredores logísticos relevantes para o estado.

Mas, para a bióloga, entender a escalada desses encontros entre humanos e serpentes passa por reconhecer uma disputa silenciosa por espaço. “O que esse cenário revela é que a relação entre cidade e natureza está em tensão. E esses animais aparecendo nos quintais talvez sejam um dos sinais mais visíveis disso”, resume.

Brener Nunes

Repórter

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins

Jornalista formado pela Universidade Federal do Tocantins