
Depois da forte repercussão provocada por vídeos gravados na Aldeia Canuanã, em Formoso do Araguaia, a influenciadora Tânia Mara publicou um vídeo pedindo desculpas ao povo Javaé, em um gesto que ganhou novo capítulo com a resposta do presidente da Associação Comunidade Indígena da Aldeia Canuanã (Aciac), Fabiano Kanari Javaé, que aceitou a retratação, pediu desculpas pelo mal-entendido e fez um novo convite para que ela retorne à comunidade.
A manifestação pública ocorre dias após o caso escalar para denúncia no Ministério Público do Tocantins, mobilizar lideranças indígenas e provocar acusações de racismo, desrespeito cultural e exploração simbólica nas redes sociais.
No vídeo divulgado após a crise, Tânia afirmou que nunca teve intenção de desrespeitar a comunidade e disse que desconhecia protocolos internos da aldeia.
“Esse vídeo é para pedir desculpa, porque em momento algum eu invadi, eu fui convidada. Mas eu não sabia e nem fui informada das normas, que primeiro tem que falar com o cacique, que primeiro tem que falar com o senhor, que é o presidente da associação”, declarou.
A influenciadora disse ter saído da aldeia admirada com a experiência e reforçou que a visita teve, em sua visão, caráter de valorização cultural.
“Muito pelo contrário, eu saí de lá encantada, maravilhada… todo mundo acompanhou o tanto que é lindo e gratificante estar lá na aldeia”, afirmou.
Líder indígena aceita desculpas
A resposta veio do próprio Fabiano Kanari, que havia sido uma das vozes mais críticas à repercussão dos vídeos e agora afirmou que o episódio foi alimentado também por interpretações e edições compartilhadas nas redes.
“Tânia, desculpas aceitas”, disse o presidente da Aciac.
Falando como liderança da maior aldeia do povo Javaé, Kanari afirmou que também pedia desculpas pelo episódio e fez questão de reforçar o convite para que a influenciadora retorne à comunidade.
“Estou aqui à disposição para desculpar a senhora também e convidar a senhora juntamente com seu filho para estar lá divulgando, conhecendo, mostrando para seus seguidores a beleza da nossa cultura”, declarou.
Em tom conciliador, ele disse esperar que o episódio também ajude a dar visibilidade às realidades vividas pelas aldeias.
“Espero que venham mais pessoas conhecer a nossa realidade, porque a gente precisa mostrar as dificuldades e necessidades das comunidades indígenas”, afirmou.
Kanari ainda convidou Tânia para participar de festas tradicionais previstas para julho e setembro.
“As portas lá sempre estão abertas para a senhora e seus familiares”, disse.
Filho reconhece falha e fala em aprendizado
No mesmo vídeo, Rafael Martins, filho da influenciadora, também se pronunciou e reconheceu erros.
Ele disse que a polêmica deixou uma lição sobre respeito e preparação antes de visitar territórios tradicionais.
“Quando vocês forem para algum lugar que vocês não conhecem, devem estudar e ter um reconhecimento total do local para não acontecer esse tipo de situação”, afirmou.
Rafael também reforçou o convite à aldeia e disse que o mal-entendido deveria ser encerrado.
“A gente amou passar o dia lá, conhecer um pouco da cultura e que esse mal-entendido finaliza aqui agora”, disse.
Entenda o caso
A polêmica começou após vídeos publicados por Tânia Mara e o filho em 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, mostrarem momentos da visita à Aldeia Canuanã.
O conteúdo gerou forte reação de indígenas e coletivos, que acusaram a dupla de transformar práticas culturais em caricatura e expor membros da comunidade, inclusive crianças, de forma ofensiva.
Entre os episódios criticados estavam comentários sobre a culinária tradicional Javaé, referências consideradas estereotipadas, como menções à “dança da chuva”, e condutas classificadas por lideranças como preconceituosas.
A Aciac formalizou denúncia ao Ministério Público do Tocantins e afirmou que a gravação e exposição de imagens ocorreram sem o devido respeito aos protocolos internos da comunidade.
Fabiano Kanari chegou a afirmar que a reação era uma defesa da dignidade do povo Javaé e do território.
A repercussão extrapolou a aldeia.
Influenciadores e coletivos indígenas, como Lu Prata, Ybotyra Kixelô Kariri e o perfil Mídia Javaé, classificaram o episódio como violência simbólica, racismo e reprodução de práticas coloniais.
O caso reacendeu debates sobre consentimento, limites éticos da atuação de influenciadores em territórios tradicionais e o risco de transformar culturas originárias em cenário para entretenimento digital.
Recuo e novo capítulo
Antes do vídeo conjunto, Tânia já havia divulgado nota afirmando que esteve na aldeia a convite de uma moradora da comunidade e reconhecendo que poderia ter agido com mais cautela na forma de registrar e compartilhar o conteúdo.