Moradores da Terra Indígena Krahô, entre Itacajá e Goiatins se destacam pelos cantos e alegria - Foto: Emerson Silva/Arquivo Governo do Tocantins
Moradores da Terra Indígena Krahô, entre Itacajá e Goiatins se destacam pelos cantos e alegria - Foto: Emerson Silva/Arquivo Governo do Tocantins

Seleucia Fontes/Governo do Tocantins

O Tocantins guarda um Brasil a ser descoberto pelos viajantes apaixonados por novas experiências e natureza preservada. Está nos cantos do povo Krahô, nas pinturas corporais que identificam clãs entre os Xerente, nas bonecas moldadas pelas mulheres Karajá, nos rituais que atravessam gerações e mantêm viva a memória dos povos originários.

O etnoturismo — um segmento em constante construção — surge como uma possibilidade concreta de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que se apresenta como um dos maiores desafios contemporâneos, que é abrir caminhos para visitantes sem abrir mão do que sustenta essas culturas há séculos.

Muitas formas de existir

De acordo com o IBGE, cerca de 15 mil indígenas vivem no Tocantins, distribuídos entre etnias como Karajá, Javaé e Xambioá (povo Iny), Xerente, Krahô, Apinajé, Krahô-Kanela, Avá-Canoeiro e Pankararu. Cada povo carrega sua própria organização social, seus rituais, sua estética, sua relação com o território.

Entre os Krahô, por exemplo, a expressão “amjikin” define o estado de felicidade coletiva, frequentemente celebrado em festas que envolvem cantos, corridas de tora, rituais de passagem e partilha de alimentos.

Entre os Xerente, a pintura corporal vai além da estética. Ela identifica clãs, organiza a vida social e marca momentos específicos da vida comunitária. É o único povo tocantinense que tem sua língua registrada em lei como oficial de um município, Tocanínia, ao lado do português.

Já entre os Iny, a ritualística ganha forma em celebrações como o Hetohoky, uma das mais importantes festas de iniciação masculina, onde cores, cantos e movimentos transformam a aldeia em um espaço de aprendizagem coletiva.

São expressões que não se apresentam ao visitante como espetáculo, mas como vivências que só fazem sentido dentro de seu próprio contexto.

O artesanato indígena do Tocantins revela essa profundidade. Feito a partir de fibras, sementes, madeiras e cerâmica, ele não nasceu da lógica do mercado, mas da necessidade e da tradição. Cada peça carrega um saber, uma técnica, uma história.

As bonecas Ritxòkò, produzidas pelas mulheres Karajá, são um dos exemplos mais emblemáticos. Reconhecidas como patrimônio cultural do Brasil, elas cumprem um papel essencial, ensinar. É por meio delas que meninas aprendem sobre seu povo, seus costumes e seu lugar no mundo.

O mesmo acontece com as pinturas corporais, com os rituais, com a oralidade. São formas de educação e preservação cultural.

Turismo em evolução

Todas essas referências culturais são geradoras de interesse por experiências autênticas, conectadas à natureza e à ancestralidade. Uma tendência que cresce em todo o mundo,  e o Tocantins reúne atributos raros para esse tipo de visitação.

A Secretaria de Turismo do Tocantins vem promovendo escutas junto às comunidades, buscando identificar vocações, compreender demandas e construir, de forma conjunta, diretrizes para o desenvolvimento do segmento.

“Nossa intenção não é padronizar, mas sim respeitar as diferenças e valorizá-las como ativos culturais que merecem ser conhecidos pelos turistas”, explica a secretária de Turismo do Estado, Ana Maria Monteiro, ressaltando os esforços da gestão Wanderlei Barbosa em elevar a escala da visitação às terras indígenas.

Ilha do Bananal

Se o etnoturismo ainda está em fase de estruturação no estado, algumas experiências mostram que esse caminho já é possível.

Na Aldeia Mirindiba, ao sul da Ilha do Bananal, o turismo nasceu da própria vivência dos indígenas com visitantes que já frequentavam a região. Antes de estruturar uma operação própria, muitos moradores atuavam como guias e piloteiros em pousadas voltadas à pesca esportiva.

Com o tempo, perceberam que tinham o território, o conhecimento e a cultura, mas não protagonismo. “Foi a partir dessa experiência que entendemos que poderíamos trabalhar na nossa própria terra”, explica o vice-cacique Idemar Karajá.

O projeto começou com a pesca, mas se expandiu. Hoje, inclui vivências ecológicas, com observação de animais e registro de aves, envolvendo toda a comunidade, em torno de 40 moradores.

“O turismo ajuda não só na pesca. Ele traz renda para todos, no artesanato, na comida, na nossa história. As pessoas querem conhecer quem nós somos”, resume o vice-cacique, ao lembrar que a temporada de visitações obedece o ciclo das águas, que começam a baixar na maior ilha fluvial do mundo por volta do mês de junho.

Um caminho possível

O Governo do Tocantins e os povos originários entendem que o etnoturismo no Estado não é apenas uma nova frente econômica. Pode fortalecer culturas, gerar autonomia e valorizar saberes que por muito tempo foram invisibilizados.

Ao mesmo tempo, não pode transformar tradição em produto e reduzir identidades complexas a experiências superficiais. Por isso, o desafio não está apenas em desenvolver o turismo, mas trabalhar de maneira transversal, envolvendo diversas pastas e instituições.

Nos últimos anos, o Governo do Tocantins tem avançado na estruturação do etnoturismo como uma nova vertente do desenvolvimento turístico estadual. Paralelamente às iniciativas de escuta, qualificação e busca de recursos têm buscado preparar as comunidades para atuação direta no turismo, envolvendo desde gestão e organização até o acolhimento de visitantes.

“Esse movimento é acompanhado por estratégias de divulgação em feiras que começam a posicionar o Tocantins como destino de experiências autênticas, sempre com o cuidado de valorizar os saberes tradicionais, fortalecer o protagonismo indígena e garantir que o desenvolvimento aconteça de forma sustentável e alinhada às dinâmicas culturais de cada etnia”, reforça a secretária Ana Maria Monteiro.

Esta visão da gestão estadual é confirmada pela própria experiência da Aldeia Mirindiba. “A comunidade respeita o espaço dos visitantes, e eles respeitam as regras e o modo de vida da aldeia. As pousadas e os turistas não ultrapassam o limite do que é estabelecido pela aldeia. Por isso, graças a Deus, até hoje está dando certo pra nós”, revela Idemar Karajá, sobre uma regra fundamental do etnoturismo, o respeito.