
Por Marco Aurélio Jacob
Quando vemos uma cena romântica deslizando pelas gôndolas de Veneza, um casal caminhando pelas vielas iluminadas de Paris, ou perseguições cinematográficas em cidades como Nova Iorque e Londres, não estamos apenas diante de uma locação de cinema. Estamos diante de uma poderosa ferramenta de promoção turística global.
O cinema tem a capacidade de transformar cidades em sonhos coletivos. Mais do que contar histórias, ele vende atmosferas, experiências e desejos. Cada enquadramento bem construído se torna um convite silencioso para que milhões de espectadores queiram conhecer aquele destino pessoalmente. O audiovisual cria imaginários turísticos.
É exatamente neste ponto que entram as chamadas Film Commissions — estruturas estratégicas criadas para aproximar o setor audiovisual das cidades e regiões interessadas em atrair produções cinematográficas, séries, documentários, novelas, comerciais e videoclipes.
Para Maurício Magalhães, publicitário e palestrante do II Encontro Febtur de Jornalistas e Comunicadores de Turismo. “O cinema é uma Film Commission para estimular o turismo para um destino, é um posicionamento estratégico!”
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Uma Film Commission funciona como uma ponte entre produtores e o destino turístico. Ela auxilia em autorizações, logística, mapeamento de locações, articulação institucional, segurança, apoio técnico e relacionamento com governos e iniciativa privada. Em muitos casos, também atua promovendo incentivos fiscais e criando bancos de profissionais locais.
Na prática, uma Film Commission compreende que receber uma produção audiovisual não significa apenas sediar gravações. Significa gerar emprego, movimentar hotéis, restaurantes, transportes, serviços técnicos, turismo e economia criativa. Uma única produção pode movimentar milhões de reais direta e indiretamente.

Mas existe um impacto ainda maior: o simbólico.
Destinos turísticos passam a ocupar o imaginário mundial. O espectador deixa de apenas assistir a um filme e começa a desejar viver aquela experiência. Foi isso que aconteceu com a Nova Zelândia após a trilogia O Senhor dos Anéis. As paisagens exuberantes utilizadas como cenário da Terra Média impulsionaram drasticamente o turismo internacional no país. O mesmo ocorreu com a Austrália, que há décadas utiliza o cinema como ferramenta estratégica de promoção internacional de seus territórios, praias e identidade cultural.
Para o cineasta Marco Aurélio Jacob: “As artes se inspiram e inspiram o turismo a partir das características e riquezas peculiares que podem ser objetos de desejo desde os tempos áureos da literatura, e então nas músicas e no cinema e agora nos videoclipes e nas novas mídias. Uma ferramenta de marketing e propaganda que deve ser utilizada sem restrições.”
No Brasil, também temos exemplos emblemáticos. A famosa Escadaria Selarón, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, tornou-se um dos pontos mais fotografados e visitados da cidade não apenas por sua estética artística, mas pela enorme exposição em videoclipes, filmes, novelas e campanhas internacionais. O local ganhou ainda mais notoriedade mundial após aparecer em produções musicais internacionais, consolidando-se como um símbolo turístico carioca.
E os videoclipes possuem um papel fundamental neste processo.
A música associada à imagem potencializa emoções e memórias afetivas. Um videoclipe bem produzido pode transformar praias, centros históricos, bairros culturais e paisagens naturais em tendências globais de viagem. Hoje, muitos jovens escolhem destinos inspirados em cenas vistas no YouTube, Instagram, TikTok ou em plataformas de streaming.
O turismo contemporâneo é profundamente influenciado pelo audiovisual.

Filmes como Meia-Noite em Paris ajudaram a fortalecer o romantismo turístico de Paris. Já Comer, Rezar, Amar ampliou o desejo turístico por destinos como Bali e Itália. Produções ambientadas em Nova Iorque praticamente transformaram a cidade em um personagem global permanente da cultura pop.
O audiovisual gera pertencimento emocional antes mesmo da viagem acontecer.
Por isso, cidades que investem em políticas públicas voltadas ao cinema não estão apenas fomentando cultura. Estão investindo em desenvolvimento econômico, fortalecimento de identidade territorial, projeção internacional e turismo sustentável.
Uma Film Commission eficiente ajuda a transformar cidades em vitrines globais. Ela cria conexões entre cultura, economia criativa e turismo. E, em tempos de economia da experiência, isso vale ouro.
O turista moderno não busca apenas hotéis ou atrações. Ele busca histórias para viver.
E poucas linguagens conseguem vender histórias com tanta força quanto o cinema.