
Horas antes da morte de dois homens dentro da delegacia de Miracema, policiais militares investigados pela chacina teriam criado um grupo em aplicativo de mensagens batizado de “Operação Anamon”. A informação consta na decisão judicial que determinou a prisão preventiva de 23 PMs suspeitos de envolvimento no caso, além da aplicação de medidas cautelares.
Nesta sexta-feira (8), todos os militares investigados se apresentaram no Quartel do Comando-Geral da PM, em Palmas. O advogado Paulo Roberto, responsável pela defesa de parte dos policiais, afirmou que ainda não teve acesso ao conteúdo completo da decisão judicial. “Tão logo a gente tenha conhecimento, teremos condições de emitir um parecer acerca da situação”, declarou.
Segundo o documento, o policial apontado como criador do grupo teria participado diretamente da mobilização das equipes e permanecido com uma caminhonete que foi registrada por câmeras de segurança seguindo em direção à delegacia e deixando o local logo após o ataque.
O nome do grupo faz referência ao sargento Anamon Rodrigues, morto em 4 de fevereiro de 2022 durante uma troca de tiros no setor Novo Horizonte II. Após a morte do militar, a cidade registrou uma sequência de homicídios que vitimou Manoel Soares da Silva, Edson Marinho da Silva, Valbiano Marinho da Silva, Aprigio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho.
Na decisão, o colegiado da 1ª Vara Criminal de Miracema afirma que os policiais investigados teriam atuado em “eventos marcados por extrema violência”, em um suposto contexto de represália que inclui chacina, invasão armada a unidade policial e ocultação de provas.
“A forma como os delitos teriam sido praticados com monitoramento prévio, divisão de tarefas, emprego de veículos oficiais ou descaracterizados, adulteração de sistemas de rastreamento, desligamento estratégico de aparelhos telefônicos e destruição de mídias evidencia, em análise preliminar, elevado grau de periculosidade social”, destaca trecho da decisão.
A Polícia Militar informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO e afirmou prestar apoio institucional ao cumprimento das determinações judiciais e às investigações. A corporação declarou ainda que não compactua com desvios de conduta e que os fatos serão apurados pelos órgãos competentes.
Delegacia invadida e operação articulada
Após a morte do sargento Anamon Rodrigues em confronto no setor Novo Horizonte II, Valbiano Marinho da Silva, apontado pela polícia como suspeito de atirar contra o militar, foi morto dentro de casa. O crime ocorreu depois que Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano, foram conduzidos à delegacia de Miracema.
Na época, Maria do Carmo, mãe de Valbiano, afirmou que policiais invadiram a residência e que o filho foi baleado na porta de casa enquanto estava algemado.
Durante a madrugada de 4 de fevereiro de 2022, Manoel e Edson prestaram depoimento na delegacia. Após serem liberados, decidiram permanecer no local até amanhecer, alegando medo de retornar para casa naquele horário. Segundo as investigações, foi nesse intervalo que cerca de 15 homens encapuzados invadiram a unidade policial, renderam agentes civis e executaram pai e filho.
A decisão judicial aponta que, logo após os depoimentos, diversas viaturas passaram a circular e permanecer nas proximidades da delegacia. A movimentação teria começado por volta das 4h30. As mortes ocorreram às 6h29.
O major Yurg Noleto Coelho é citado na investigação como uma “liderança informal” das equipes que atuavam sem farda. Imagens analisadas pelos investigadores teriam registrado o oficial dando orientações e mantendo uma viatura posicionada em um ponto estratégico, com visão para possíveis rotas de fuga.
Após o ataque, segundo a decisão, o major e outros policiais teriam ido a um posto de combustíveis para recolher HDs de câmeras de segurança que poderiam ter registrado a movimentação relacionada à chacina.
No celular de um dos PMs investigados foram encontradas fotos dos equipamentos recolhidos, além de imagens de câmeras de monitoramento marcadas em vermelho. A investigação também aponta indícios de adulteração no sistema de rastreamento de viaturas durante o período da invasão.
Ainda conforme a decisão, um policial militar teria removido o GPS de uma viatura e instalado o equipamento em outro veículo para criar “trilhas artificiais”, compatíveis com o trajeto do cortejo do sargento Anamon.
Mortes no Jardim Buritis
No dia 5 de fevereiro de 2022, Aprigio Feitosa da Luz, de 24 anos, Gabriel Alves Coelho, de 21, e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18, foram encontrados mortos no Jardim Buritis.
Segundo a decisão judicial, quatro jovens foram abordados em um posto de combustíveis durante uma festa e colocados em veículos brancos sob a justificativa de que seriam levados à delegacia. Eles teriam sido levados ao loteamento Jardim Buritis, onde ocorreram as execuções. Apenas um dos jovens sobreviveu.
As investigações indicam que a ação teria ocorrido como represália à morte do sargento Anamon. A decisão também aponta que os policiais investigados monitoraram previamente o posto de combustíveis antes da abordagem das vítimas.
Íntegra da nota da Polícia Militar
A Polícia Militar do Tocantins informa que tomou conhecimento da decisão judicial que determinou o cumprimento de medidas cautelares em desfavor de policiais militares, incluindo mandados de prisão preventiva e medida de afastamento das funções públicas, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado do Tocantins.
A Corporação esclarece que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO, prestando o apoio institucional necessário ao cumprimento das determinações judiciais e às autoridades responsáveis pela investigação.
A Polícia Militar do Tocantins reafirma que não compactua com quaisquer desvios de conduta praticados por seus integrantes, mantendo o compromisso permanente com a legalidade, a ética, a disciplina e a transparência institucional.
Ressalta-se que os fatos são objeto de apuração pelos órgãos competentes, sendo assegurados aos envolvidos o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, conforme prevê a legislação vigente.
A Polícia Militar do Tocantins seguirá colaborando com as instituições responsáveis, reafirmando seu compromisso com a preservação da ordem pública, da credibilidade institucional e da confiança da sociedade tocantinense.