Conexão Quilombola chega à Barra da Aroeira neste domingo e prepara mulheres para dar os primeiros passos no mundo digital

No barracão da Comunidade Quilombola Barra da Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins, as cadeiras já começam a ser organizadas para um encontro diferente. No domingo, 26 de abril, o espaço que costuma receber reuniões, celebrações religiosas e debates sobre o futuro do território vai se transformar em sala de aula viva para a primeira oficina do projeto “Conexão Quilombola: mulheres que conectam saberes”, iniciativa que leva empoderamento sociodigital a quilombos de várias regiões do estado.

A primeira edição do Conexão Quilombola foi realizada em fevereiro, na Comunidade Quilombola Malhadinha, em Brejinho de Nazaré, em que mais de 30 mulheres participaram de oficinas práticas sobre uso do celular, redes sociais, produção de fotos e vídeos, segurança digital e acesso a serviços públicos, em um encontro marcado por integração entre gerações, fortalecimento da autoestima quilombola e descoberta do mundo digital a partir da realidade do território. A experiência em Malhadinha abriu caminho para que o projeto chegasse a novos quilombos ao longo do ano, entre eles Barra da Aroeira.

Barra da Aroeira é uma das comunidades quilombolas mais simbólicas do Tocantins, marcada pela luta pelo território, pela agricultura familiar, pelos festejos tradicionais e pela força das organizações comunitárias. Por trás dessa história estão, sobretudo, as mulheres quilombolas, que seguram a base da família, plantam, produzem, organizam associações, preservam a memória oral e sustentam a vida cotidiana do quilombo. É com elas que o Conexão Quilombola quer conversar de forma direta, usando o celular e a internet como aliados e não como obstáculos.

Por que o Conexão Quilombola importa para Barra da Aroeira

O projeto Conexão Quilombola tem a missão de transformar o acesso à internet já existente nas comunidades em ferramenta de autonomia, geração de renda, fortalecimento cultural e acesso a direitos. Em muitos territórios quilombolas, incluindo Barra da Aroeira, o sinal de internet já chegou, mas a inclusão sociodigital ainda não alcançou todas as pessoas. Faltam formação específica, segurança no uso das ferramentas e apoio para aproximar a tecnologia da realidade da comunidade.

Ao chegar a Santa Tereza do Tocantins, o Conexão Quilombola se propõe a romper essa barreira. A prioridade são as mulheres quilombolas, lideranças, agricultoras, artesãs, jovens e anciãs que sustentam o dia a dia da comunidade. A proposta é simples e potente: mostrar, de maneira prática e com linguagem acessível, como o celular pode servir para divulgar produtos, contar histórias, acessar serviços públicos, fortalecer associações e dar visibilidade à identidade quilombola, sem que ninguém precise sair de sua realidade para aprender.

“Quando a mulher quilombola domina a comunicação digital, ela não está só aprendendo a mexer no celular, ela está ampliando a voz da sua comunidade”, afirma a jornalista e idealizadora do projeto, Maju Cotrim. “Chegar em Barra da Aroeira é uma forma de reconhecer a força desse território e construir, juntas, caminhos para que a tecnologia seja aliada da nossa luta e da nossa ancestralidade”, completa.

Como será a oficina em Barra da Aroeira

A oficina deste domingo será presencial, gratuita e organizada em formato de roda, com atividades teóricas e práticas. Ela será ministrada pela idealizadora do projeto, a jornalista e comunicadora Maju Cotrim, e pela comunicóloga Ana Maria Negreiros, que somam experiências em comunicação comunitária, antirracismo e produção de conteúdo voltado para direitos. O registro fotográfico de todo o encontro ficará por conta da fotógrafa Jô Cristina, garantindo que os momentos vividos pela comunidade sejam documentados com sensibilidade e olhar atento às mulheres quilombolas.

As participantes vão aprender desde o uso básico do celular até estratégias mais avançadas de comunicação, sempre partindo da vivência do quilombo. Entre os temas previstos estão:

  • Uso estratégico do celular e das redes sociais para vendas, mobilização e divulgação da comunidade.
  • Produção de fotos e vídeos que valorizem os produtos locais, como agricultura, artesanato e alimentos, e a cultura de Barra da Aroeira.
  • Noções iniciais de empreendedorismo digital, organização de contatos de clientes e atendimento pelo WhatsApp.
  • Acesso a serviços públicos digitais, como plataformas do governo, benefícios sociais, saúde e educação.
  • Segurança e cidadania digital, com orientações sobre como evitar golpes, proteger dados pessoais e identificar informações falsas.

A metodologia do Conexão Quilombola é pensada para acolher quem já usa o celular no dia a dia e quem ainda tem medo de “mexer e estragar”. A ideia é que as mulheres pratiquem ali mesmo, com seus próprios aparelhos, tirando dúvidas sem pressa, com apoio da equipe facilitadora e das demais participantes. Jovens podem apoiar as mais velhas com os aplicativos, e as anciãs trazem para a roda histórias, saberes e a visão crítica de quem conhece a realidade do território há décadas.

Integração, inclusão e novos caminhos

A chegada do Conexão Quilombola à Barra da Aroeira faz parte de um roteiro que inclui outras comunidades quilombolas do Tocantins ao longo do ano. Em cada território, as oficinas são adaptadas à realidade local, mas mantêm o mesmo princípio: colocar as mulheres quilombolas no centro da transformação digital e reconhecer que tecnologia e ancestralidade podem caminhar juntas.

Na prática, isso significa olhar para o celular não só como ferramenta de conversa com familiares, mas como extensão da roda de conversa, do quintal produtivo, do roçado, da cozinha comunitária, da associação e da igreja. Cada foto, cada vídeo, cada mensagem que parte de Barra da Aroeira para o mundo carrega também a história de um povo que luta há gerações para existir e ser reconhecido.

A oficina deste domingo é o primeiro passo dessa etapa. A expectativa é que, ao final do encontro, mais mulheres se sintam confiantes para usar as ferramentas digitais, fortalecer seus negócios, registrar a cultura local e acessar direitos com mais autonomia. E que a comunidade, como um todo, se veja ainda mais conectada, não apenas pela internet, mas por laços de apoio, aprendizado coletivo e orgulho quilombola.