Do catálogo digital à luta por direitos: Conexão Quilombola fortalece vozes na Barra da Aroeira

Na segunda edição do projeto, realizada neste domingo na comunidade quilombola de Santa Tereza do Tocantins, cerca de 32 participantes, entre jovens, mulheres e anciãs, descobriram nas redes sociais uma ferramenta para divulgar a cultura, gerar renda e defender o território.

A segunda edição do projeto Conexão Quilombola na Comunidade Quilombola Barra da Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins, reuniu cerca de 32 participantes neste domingo, 26 de abril, e reforçou a proposta de unir tecnologia, memória e luta por direitos a partir das histórias das mulheres e famílias do território. No barracão da comunidade, o celular deixou de ser apenas ferramenta de conversa e passou a ser catálogo, vitrine e instrumento político de afirmação quilombola. A oficina foi ministrada pela jornalista Maju Cotrim, idealizadora do projeto, e pela comunicóloga Ana Maria Negreiros, com registro feito pela lente da fotojornalista Jô Cristina, e contou ainda com o apoio dos estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins, João Gabardo e Thays Martins, na produção e na escuta das participantes.

Juventude que mergulha na história

Vice-presidente da associação da comunidade, Érica Lopes da Silva, de 24 anos, é um dos rostos dessa nova geração que assumiu o compromisso de estudar para defender o território. Ela cursa Direito e vê na formação uma forma concreta de enfrentar as injustiças vividas pela Barra da Aroeira. “Acho importante esse projeto Conexão Quilombola porque nós temos que aprender a mexer com as redes sociais, porque as redes sociais podem ser o catálogo da nossa comunidade”, diz.

Érica lembra que a Barra da Aroeira está na rota do Jalapão e tem potencial turístico, histórico e cultural que ainda não aparece na mesma proporção nas telas. “Nossa comunidade é um poço de história, cultura e tradição, então a gente tem a faca e o queijo na mão, a gente só tem que saber cortar e comer. A partir do momento que a gente expõe as nossas histórias e culturas, a gente consegue chamar os turistas e trazer renda para dentro da comunidade, gerar emprego para os nossos jovens e adultos, porque infelizmente na nossa comunidade não tem esse tipo de oportunidade”, afirma.

A decisão de estudar Direito e se engajar mais na comunidade veio depois de um mergulho nas próprias origens. “Eu tive que mergulhar na história. Eu tive que conhecer mais, aprofundar nas minhas origens, correr atrás da minha identidade e, a partir do momento que eu vi o quão extraordinário é, eu me apeguei e já entrei de cabeça. Também tive conversas com minhas ancestrais, com as minhas matriarcas e patriarcas, que fizeram mais ainda eu desenvolver essa vontade e hoje eu estou aqui na luta, vesti a camisa e estou aí batalhando pela comunidade”, conta.

Na fala de Érica, o passado também é bússola. Ela cita o fundador do quilombo, Félix José Rodrigues, homenageado nas memórias locais por ter recebido terras após lutar na Guerra do Paraguai, e reforça que estudar é uma forma de honrar esse legado e resgatar o que foi negado ao povo quilombola.

De Brasília ao roçado: a mãe que voltou para o quilombo

A história de Érica se entrelaça com a de sua mãe, Isabel Rodrigues da Silva, que morou por 30 anos em Brasília antes de decidir voltar para as raízes. “Eu morava em Brasília e morei em Brasília 30 anos. Meu pai que morava aqui e ele falava sempre da Barra. Eu vim visitar, gostei, e desde 2015 eu estou morando aqui”, relata.

Hoje, Isabel se apresenta como produtora rural e artesã, com orgulho de quem reconstruiu a vida a partir da terra e da criação. “Eu era comerciária, agora eu sou produtora rural, trabalho com reflorestamento, tenho uma agrofloresta, um SAF lá na minha propriedade. E sou artesã. Faço crochê, tricô, bordado, costuro e eu recebo doações, nós recebemos doações de retalho para nos doar e é assim que a gente trabalha.” Ela integra o grupo de mulheres Sabores do Quilombo, que vende produtos em feiras da região e quer colocar em prática o que aprenderam em cursos de gastronomia.

Para Isabel, participar da oficina do Conexão Quilombola foi enxergar uma ponte entre o que o grupo já faz e o que ainda pode alcançar com o apoio da comunicação digital. “Eu acho que devia ter mais esse incentivo, eu acho que devia ter mais pessoas que, assim como a Maju, voltassem aqui para a comunidade, porque os jovens precisam, porque eles são o futuro. Nós já estamos indo e esses jovens têm que ficar”, diz.

Ela se emociona com exemplos como o de um menino que queria ganhar um tablet “para poder estudar” e aponta a falta de acesso de qualidade à internet como barreira real. “A maioria das internets que tem precisa ser paga e nem sempre todas as pessoas têm essa condição. Isso atrasa muito, principalmente aqui na comunidade, atrasa demais o desenvolvimento, porque hoje em dia a gente sabe que a internet é tudo. Quem não tiver conectado está para trás”, resume.

Bonecas, lavoura e memória: o artesanato que atravessa gerações

Entre as vozes que ecoaram no barracão, a de Jovita Maria Rodrigues traz a força de quem carrega a comunidade no sobrenome e na rotina. “Sou daqui da comunidade quilombola Barra de Aroeira, sou filha de um patriarca da comunidade, matriarca também, tudo daqui, meus avós, bisavô todos são daqui, nascida e criada na região. Agora eu estou com 63 anos só, fui criada aqui também e sou artesã, sou agricultora, tudo o que você pensar em fazer aqui na comunidade eu faço”, conta, rindo do próprio sotaque.

Jovita vê no curso uma quebra de um padrão antigo. “A importância desse curso ter vindo para cá, de vocês terem vindo para cá, é muito boa para nós, quilombolas, porque é muito difícil os benefícios bons chegarem até a nossa comunidade. A maior parte vai para outros lugares. Tem pessoas que vêm pegar recurso, que eu falo assim, porque vêm, fazem entrevista, fazem alguma coisa para a faculdade, para benefício delas próprias, mas para nós mesmo aqui sempre é um pouquinho mais lento. Graças a Deus, está melhorando e vai melhorar mais com a presença desse curso de vocês e com a presença de vocês. E eu agradeço, muito obrigada”, afirma.

Ela também fala do lugar do trabalho na construção da identidade quilombola. “A agricultura é porque a gente já foi nascida e criada dentro da agricultura, então é uma coisa já natural que a gente faz diretamente”, explica. Mas é no artesanato, especialmente nas bonecas de pano, que ela encontra uma forma concreta de preservar a memória das mulheres da família. “Eu gosto muito do artesanato até porque eu já fazia antes e agora eu estou fazendo mais ainda, estou parando mais para fazer os artesanatos, em especial as bonecas, porque eu não quero deixar cair a tradição. Eu fui criada brincando com boneca, então essas eu estou repassando para os meus netos e estou esperando meus bisnetos crescerem um pouquinho para eu passar para eles também”, conta.

As bonecas carregam o rosto das ancestrais. “A importância dessa boneca é muito significante para mim por causa da minha mãe e das minhas tias, porque elas já faziam essas bonecas para a gente brincar. Então eu decidi trazer para a próxima geração essas bonecas”, diz, fazendo da oficina de tecnologia também um espaço de reafirmação cultural.

Do medo de mexer ao desejo de mostrar a comunidade ao mundo

A segunda edição do Conexão Quilombola em Barra da Aroeira manteve a proposta de trabalhar a partir da realidade local. Celulares simples, conexões instáveis, medos, curiosidades e um enorme repertório de histórias para contar marcaram o encontro. Ao longo do dia, as cerca de 32 pessoas presentes aprenderam a ajustar configurações básicas dos aparelhos, organizar contatos, gravar vídeos curtos e pensar o que é uma boa foto para vender um produto ou mostrar uma festa tradicional.

As redes sociais apareceram como possibilidades concretas: catálogo da produção agrícola e artesanal, vitrine de eventos, espaço para contar a história da comunidade e chamar turistas de forma responsável, respeitando o território e sua carga simbólica. Ao mesmo tempo, a oficina abordou segurança digital e o cuidado com golpes e desinformação, tema que dialoga diretamente com a preocupação de Isabel sobre a qualidade da internet disponível e o risco de quem precisa se conectar com poucos recursos.

Mais do que ensinar comandos, o encontro reforçou a ideia de que a comunicação digital pode ser uma extensão da luta por direitos, do orgulho de ser quilombola e da defesa do território frente às pressões externas. Em Barra da Aroeira, em que a comunidade enfrenta há anos desafios relacionados à regularização fundiária e à invasão do agronegócio, ver jovens como Érica se preparando em Direito e mulheres como Isabel e Jovita incorporando a tecnologia ao que já fazem é um sinal de que o Conexão Quilombola está ajudando a costurar, com fios digitais e ancestrais, um futuro em que a voz do quilombo ecoa cada vez mais forte para dentro e para fora do Tocantins.

Emocionada com a segunda edição do projeto, a idealizadora e jornalista Maju Cotrim resumiu o que significou viver esse momento em Barra da Aroeira, justamente no ano em que seu site completa uma década de existência: “Estar aqui, olhando nos olhos dessas mulheres, vendo uma jovem como a Érica sonhar o Direito a partir do quilombo, ver a dona Isabel e a dona Jovita conectando o artesanato, a roça e as bonecas com o mundo digital, é muito mais do que um projeto para mim. É um reencontro com a minha própria história. Celebrar os dez anos da Gazeta do Cerrado dentro de uma comunidade quilombola é dizer que todo o caminho que trilhei como mulher preta na comunicação faz sentido. O Conexão Quilombola é a forma que encontrei de devolver ao povo quilombola, em ação concreta, tudo o que aprendi lutando contra o racismo e acreditando que a informação pode ser ferramenta de liberdade.”