
A exatos 100 dias do pleito, pré-candidatos precisam trocar a métrica do engajamento digital pelo peso da coerência e dos projetos reais

Por Maju Cotrim- Gazeta do Cerrado
Faltam exatamente 100 dias. O número redondo, definitivo e imponente que surge no calendário eleitoral não é apenas um marco cronológico; é um sobressalto de realidade. A partir de hoje, a contagem regressiva deixa de ser um horizonte distante e passa a ditar o ritmo da história que pretendemos escrever. O “start” foi dado, e esses três dígitos que nos separam das urnas exigem que a política saia, urgentemente, do simulacro e retorne ao chão da realidade.
O estilo da cobertura política contemporânea muitas vezes se deixa seduzir pelo brilho efêmero das telas. Mas a maturidade democrática, aquela que a tradicional imprensa brasileira sempre buscou chancelar, cobra outro preço. O eleitor não precisa de mais uma coreografia ensaiada para os algoritmos, de cortes cirúrgicos de lacração ou de embates infantis em redes sociais. O que o Tocantins e o Brasil demandam, neste exato momento de inflexão, é autenticidade.
Nesses próximos 100 dias, a vaidade precisa dar um passo atrás. O ego, esse conselheiro perigoso que infla candidaturas natimortas e isola lideranças em bolhas de autoadulação, deve ser deixado de lado. A política real é a arte da composição, e composição exige harmonia nos grupos. Alianças construídas sobre o gesso de aparências digitais desmoronam ao primeiro sinal de crise. Grupos políticos que aspiram à confiança pública precisam demonstrar unidade programática, maturidade interna e, acima de tudo, o desprendimento necessário para colocar o bem comum acima das ambições pessoais.
O maior perigo da política moderna é confundir palanque virtual com projeto de governo. Likes não tapam buracos em rodovias, não geram empregos no Cerrado profundo e tampouco resolvem a fila dos hospitais.
Mais do que propostas mirabolantes formatadas por marqueteiros caros, o eleitorado exige coerência. Coerência em todos os atos de todos os pré-candidatos. Não há mais espaço para a desconexão entre o que se prega no vídeo de trinta segundos do Instagram e o que se pratica nos bastidores, nas votações legislativas ou nas costuras partidárias. A biografia de quem se propõe a liderar não pode ser editada como um vídeo de TikTok. Ela é viva, tem lastro e será cobrada.
Em vez de transformar a campanha em uma exaustiva competição digital onde vence quem grita mais alto ou quem domina a última tendência da internet as lideranças que se pretendem sérias devem focar na construção de projetos. O debate público precisa ser resgatado da superficialidade. O eleitor está cansado do marketing de guerrilha focado apenas no ataque e na destruição de reputações; ele busca substância, viabilidade e verdade.
Estes 100 dias que restam não são tempo para ensaio. São o teste definitivo de caráter para quem deseja governar ou representar nossa gente. Que os pré-candidatos desçam do palco virtual, calcem os sapatos da humildade e passem a ouvir mais do que a postar. O tempo está correndo, e a história, como sabemos, não aceita filtros.