Maju Cotrim
Maju Cotrim

Editorial | Gazeta do Cerrado

A democracia não termina quando as urnas se fecham. É depois delas que se revela a disposição de uma sociedade para respeitar diferenças, reconhecer resultados e continuar convivendo. Uma lista compartilhada em grupos de WhatsApp de Palmas, com convocação ao boicote de empresas, profissionais e veículos de comunicação por supostas preferências políticas, contraria esse compromisso. É preciso dizer com clareza: a divergência eleitoral não pode servir de combustível para uma perseguição permanente.

A mensagem inclui a Gazeta do Cerrado entre seus alvos. Nossa posição, porém, não se limita à defesa deste jornal. Nenhum comerciante, profissional liberal, empresário, trabalhador ou jornalista deveria precisar demonstrar alinhamento partidário para ser respeitado. A liberdade que reivindicamos para nós precisa valer também para quem pensa de maneira diferente.

A relação apresentada não comprova as filiações, os vínculos ou as preferências políticas que atribui às pessoas e aos estabelecimentos citados. Não cabe a este editorial reproduzir os nomes e ampliar sua exposição. Cabe discutir a lógica da mensagem: transformar uma suposta escolha eleitoral em motivo para impor prejuízos, estimular hostilidade e organizar a exclusão.

O consumidor tem liberdade para escolher onde comprar. O leitor tem liberdade para decidir o que acompanhar. Empresas, profissionais e jornais estão sujeitos à crítica. Nada disso exige silêncio ou concordância. Mas há uma diferença fundamental entre avaliar um serviço, questionar uma conduta ou contestar uma informação e organizar uma lista de pessoas a serem punidas por seu presumido voto.

Quando uma mensagem recomenda bloquear e denunciar veículos não por um conteúdo específico, mas por um rótulo político, o debate deixa de ser sobre a qualidade da informação. Passa a ser sobre quem pode falar e quem se pretende calar. A resposta de um jornal deve ser o compromisso com a apuração, a transparência, a correção de erros e a independência — nunca a submissão a patrulhas de qualquer lado.

É justamente para permitir a convivência entre diferentes que existe a democracia. Ela não exige que todos escolham o mesmo candidato. Exige que ninguém transforme o adversário em alguém sem direito ao trabalho, à voz ou ao respeito.

Encerrada uma eleição, o país precisa sair do palanque sem abandonar a fiscalização. Quem vence recebe a responsabilidade de governar para todos. Quem perde mantém o direito de fazer oposição, cobrar resultados e apresentar alternativas. Nenhum desses papéis autoriza alimentar uma guerra cotidiana entre brasileiros.

A união em torno da governabilidade não significa adesão automática ao governo, cheque em branco ou esquecimento das divergências. Significa compromisso com condições para que as instituições funcionem, os problemas sejam enfrentados e o interesse público prevaleça. Governo e oposição devem ser cobrados por sua capacidade de servir à população, não de prolongar ressentimentos eleitorais.

Palmas e o Tocantins precisam de trabalho, serviços públicos, oportunidades e diálogo. Nada disso melhora quando o vizinho se torna inimigo, o cliente vira fiscal de voto e o sustento de uma família é tratado como instrumento de revanche.

Esta Gazeta rejeita a lógica das listas de perseguição, independentemente de quem as produza ou de quem seja atingido. Não responderemos com outra lista. Não defenderemos para nossos críticos o constrangimento que recusamos para nós.

O ódio precisa parar. E isso começa por uma escolha concreta: não compartilhar mensagens que transformam divergência em alvo. A eleição acaba. O país permanece. E sua gente precisa continuar vivendo, trabalhando e construindo um futuro em comum.

Maju Cotrim
Trocando em Miúdos

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!