
A esperança de que a transferência para São Paulo abrisse caminho para a cirurgia cardíaca de Kauan deu lugar a uma notícia difícil para a família. Após uma série de exames, médicos do Hospital da Criança e Maternidade de São José do Rio Preto concluíram que o menino não tem indicação para o procedimento devido ao alto risco, segundo relatou a mãe, Laise Sousa.
A avaliação foi comunicada à família nesta sexta-feira, 2, após uma reunião da equipe médica. Kauan havia chegado à unidade paulista no dia 25 de setembro, depois de uma longa mobilização da mãe e de decisões judiciais para garantir o tratamento fora do Tocantins.
“Infelizmente não tem nada para se fazer pelo Kauan. Ele tem muitos problemas neurológicos, no pulmão e não dá para fazer nada por ele”, contou Laise, emocionada, em um vídeo publicado nas redes sociais.
Segundo ela, uma intervenção neste momento poderia colocar a vida do filho em risco.
“O risco dele, se mexer nele e ele morrer, é muito alto. Então, não dá para fazer nada por ele”, disse.
Exames em São Paulo embasaram decisão
Desde a chegada a São José do Rio Preto, Kauan passou por uma bateria de avaliações para que os especialistas verificassem se havia condições clínicas para uma intervenção.
Entre os procedimentos realizados estavam tomografias craniana e torácica, encefalograma e cateterismo.
O menino necessita de cuidados por uma cardiopatia congênita e havia a expectativa em torno da cirurgia de Fontan, procedimento utilizado em determinados pacientes que possuem apenas um ventrículo funcional no coração.
A transferência para São Paulo, porém, não significava que a cirurgia seria necessariamente realizada. A indicação dependia justamente dos exames e da avaliação dos especialistas.
Com os resultados em mãos, a equipe decidiu, conforme o relato da mãe, que o risco seria elevado demais.
‘A sensação é que lutei tanto e morri na praia’
A conclusão encerra uma etapa de uma batalha iniciada ainda em 2024 pela família, que mora em Paraíso do Tocantins.
Em setembro deste ano, a espera ganhou repercussão estadual depois que Laise se acorrentou ao portão do Hospital Geral de Palmas (HGP) para cobrar a transferência do filho. No mesmo dia, ela levou o protesto para a frente do Ministério Público.
Nesta sexta, após receber a avaliação em São Paulo, a mãe falou sobre a frustração de chegar até o hospital de referência e descobrir que a cirurgia não poderá ser realizada.
“A sensação que dá é que eu lutei tanto e morri na praia. Mas Deus sabe que eu tentei o melhor”, desabafou.
Agora, segundo Laise, mãe e filho deverão retornar ao Tocantins. Ela afirmou que pretende concentrar os cuidados em proporcionar conforto a Kauan.
“Entender e aceitar. Entender um diagnóstico desse não é fácil. E saber que ele vai ficar em casa agora e, quando Deus quiser levar ele, Deus vai, né? Na hora dele”, declarou.
Hospital confirma avaliação, mas preserva informações médicas
Procurado, o Hospital da Criança e Maternidade de São José do Rio Preto informou que a equipe avaliou Kauan e prestou os esclarecimentos necessários à família.
A instituição afirmou, porém, que não pode divulgar informações sobre o quadro clínico ou circunstâncias envolvendo o paciente por questões de sigilo.
Antes mesmo da transferência, a Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins já havia informado que avaliações realizadas no estado apontavam contraindicação à cirurgia de Fontan devido às condições clínicas de Kauan, incluindo comprometimento dos acessos vasculares e fragilidade clínica.
Família buscava transferência desde 2024
A tentativa de levar Kauan para atendimento especializado fora do Tocantins começou em 2024. Em julho de 2025, a Justiça determinou sua transferência para São José do Rio Preto em UTI aérea, com direito a acompanhante e custeio da estadia.
No ano seguinte, uma nova decisão judicial tratou dos recursos necessários para o atendimento.
Após o protesto realizado por Laise em setembro, o Estado informou, no dia 12 daquele mês, que a transferência estava liberada e dependia do aceite da unidade paulista.
Kauan finalmente deixou o Tocantins em 25 de setembro, em uma UTI aérea. Uma semana depois, após os exames especializados, a família recebeu a informação de que a cirurgia que motivou a mobilização não deverá ser realizada.