
A coletiva convocada pelo senador e pré-candidato à reeleição, Irajá Abreu, nesta terça-feira, foi muito mais do que um anúncio político. Foi uma oportunidade rara de diálogo com a imprensa e um retrato dos desafios que o parlamentar terá pela frente na construção de sua narrativa para a disputa de 2026.
O primeiro aspecto que chamou atenção foi justamente a realização da entrevista coletiva. Ao longo de seu mandato, Irajá manteve uma relação bastante restrita com os veículos de comunicação, limitando convocações praticamente ao tradicional lançamento do Jogo Solidário. Desta vez, abriu espaço para perguntas em um momento estratégico de sua pré-campanha.
A principal surpresa veio com o anúncio de Ivanete Lima como pré-candidata ao Senado pelo PSD. O gesto teve peso político, sobretudo porque o próprio senador afirmou que a agenda era do seu gabinete e não do partido. Ainda assim, fez um anúncio claramente partidário, sem a presença do presidente estadual da legenda, Laurez Moreira, principal liderança do PSD no Tocantins.
A ausência inevitavelmente despertou interpretações sobre a dinâmica interna da sigla.
Um detalhe aparentemente simples: Durante sua apresentação, Irajá chamou Ivanete, por diversas vezes, de “Ivonete”, sendo corrigido pela própria pré-candidata no decorrer da fala. Em política, pequenos gestos e detalhes costumam ganhar dimensão maior do que aparentam.
Carlesse super sincero
Outro momento marcante veio pelas palavras do ex-governador Mauro Carlesse. Em um discurso espontâneo, ele aconselhou publicamente o senador a manter uma relação mais próxima com a imprensa. A observação foi recebida com aplausos dos presentes, tornando-se um dos episódios mais comentados da coletiva e evidenciando uma percepção que há tempos circula nos bastidores políticos.
Carlesse também foi transparente ao explicar sua desistência da pré-candidatura ao Senado. Disse que sua permanência na disputa retiraria votos de Irajá e deixou claro que seu apoio é pessoal ao senador, e não ao PT. A declaração reforçou que sua decisão foi construída dentro de uma lógica eleitoral pragmática.
PT
Nas respostas sobre a relação com o PT e com Paulo Mourão, Irajá afirmou que ambos vivem ciclos políticos diferentes. A fala demonstrou um posicionamento político, tema que tende a continuar sendo questionado durante a campanha.
Outro elemento que ficou evidente foi a estratégia eleitoral desenhada para Palmas. Ao apresentar Ivanete Lima como pré-candidata ao Senado, Irajá deixou claro que aposta no fortalecimento de sua chapa na capital. Chegou a afirmar que ela “vai explodir de voto em Palmas”, indicando que a construção eleitoral passa por ampliar sua competitividade justamente no maior colégio eleitoral do Estado.
Suplente ou não?
Nem todas as definições, porém, saíram da coletiva. Mauro Carlesse afirmou que poderá ser primeiro suplente, segundo suplente ou até mesmo não ocupar nenhuma suplência. Segundo ele, hoje está desapegado de mandatos e cargos, mantendo abertas todas as possibilidades para a composição.
O desafio da coerência
Durante a coletiva, a Gazeta do Cerrado questionou Irajá sobre como pretende sustentar a coerência diante das mudanças de posicionamento político. O senador respondeu afirmando que considera sua trajetória coerente.
A coletiva revelou qual deverá ser um dos maiores desafios da campanha de Irajá. Não necessariamente formar grupo político, mas convencer o eleitorado sobre a coerência de suas decisões, explicar seus movimentos e construir uma narrativa capaz de dar sentido às mudanças que marcaram sua trajetória recente.
Laurez já reagiu e disse que o PSD terá só um pré candidato ao Senado. Avisou que para Ivanete ser pré candidata Irajá teria que desistir. A tensão aumentou. Paulo Mourão optou por não polemizar as falas de escanteio de Irajá.
Em um cenário em que cada gesto é registrado, cada fala é cobrada e cada contradição é amplificada, não basta apenas mudar é preciso justificar, sustentar e convencer. E é justamente nesse ponto que se definirá não apenas o rumo da campanha de Irajá, mas também o limite de confiança que o eleitor estará disposto a conceder.