OPINIÃO: O sopro do imprevisto (ou como sobreviver a uma semana de muvuca) 

Tudo estava milimetricamente planejado para que minha mãe realizasse uma cirurgia no joelho em Palmas, no dia 29 de junho, uma segunda-feira. O destino, contudo, costuma rir dos nossos cronogramas mais bem traçados. Na calada da noite anterior, de quarta para quinta-feira, fui surpreendido por dores lancinantes na virilha. Pela manhã, rendido pelo sofrimento, rumei ao pronto-socorro do IOP, o hospital credenciado pelo meu plano de saúde.

Duas horas e uma tomografia computadorizada depois, o diagnóstico caiu como um balde de água fria: diverticulite aguda. A recomendação médica foi imediata — eu deveria ser internado direto na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para ser operado na manhã seguinte.

Ali, confinado ao leito 13, passei o dia em “dieta zero”, recebendo medicação intravenosa e sob constante monitoramento. Às 22 horas, veio o veredito da equipe médica: meu organismo respondera tão bem aos medicamentos que a cirurgia fora descartada em favor de um tratamento conservador. O alívio foi indescritivel, mas trazia consigo um efeito colateral imediato: uma fome avassaladora, daquelas capazes de rivalizar com um vulcão em erupção.

Com a cozinha do hospital já fechada àquela hora tardia, minha salvação veio sob a forma de um gesto humano e generoso. Uma técnica de enfermagem do plantão da madrugada, percebendo meu desespero silencioso, compartilhou comigo o seu próprio lanche: um copo de leite com achocolatado. Garanto que foi o melhor leite com chocolate que já experimentei na vida; o verdadeiro sabor da empatia em meio à adversidade.

Após quatro dias de observação rigorosa na UTI — quem já passou por isso ou acompanhou um familiar conhece bem a atmosfera sufocante e melancólica daquele ambiente —, fui transferido para a enfermaria no domingo e recebi alta na segundafeira. Livre, enfim.

A primeira urgência da liberdade era o paladar. Eu salivava por comida caseira, comida “de verdade”. Sabendo que minha mãe trouxera abóbora e carne de sol, encomendei meu prato dos sonhos: arroz serigado com abóbora — a nossa deliciosa Maria Izabel. Não há espaço para modéstia ou mentiras aqui: devorei duas pratadas generosas ali mesmo, na segurança da nossa sala de estar.

Enquanto eu saboreava o banquete da cura, outro drama doméstico se desenrolava sob meus olhos. Café, meu cãozinho, exibia uma vivacidade incomum e cobria de carinhos a Lulinha, nossa cadela que estava no cio. Preocupado com uma gravidez indesejada, sugeri à minha mãe que levássemos o Café temporariamente para a vizinha. Foi quando ela, com um sorriso de soslaio, sentenciou: “Rum, esses dois aí já namoraram, e foi muito!”.

O veredito materno se confirmou. Hoje, enquanto escrevo estas linhas, a silhueta da Lulinha já não nega as aparências: a barriguinha avantajada e as tetas salientes anunciam que a família vai crescer.

Em apenas uma semana, minha vida foi arrastada por uma correnteza de imprevistos, sustos e revelações. O saldo final, contudo, é de profunda gratidão. Estamos todos bem, reabilitados e saudáveis. A vida segue seu curso, bela e imprevisível, feita para ser vivida intensamente. E fica aqui o meu tributo sincero à ciência, que com seu conhecimento nos ampara, nos cura e prolonga nossa existência com a dignidade e a qualidade que merecemos.

Cláudio Bento
Cidadão palmeiropolense e morador apaixonado por Palmas.