
Por Roberval Marco, Estrategista Político
A campanha de 2026 está oficialmente nas ruas e nas redes. No entanto, o clima nos comitês nesta primeira semana não é de euforia, mas de perplexidade. Vídeos com excelente produção, discursos alinhados e equipes motivadas estão esbarrando em um muro invisível logo após o clique em “publicar”. As visualizações travaram. O conteúdo parou de circular.
Se esse cenário soa familiar, saiba que o diagnóstico não aponta para falhas na sua liderança ou na qualidade do seu material. A comunicação política brasileira acabou de colidir com o que chamo de “apagão algorítmico”.
Com a vigência da Resolução nº 23.732 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), gigantes como Meta (Instagram/Facebook) e X (antigo Twitter) suspenderam a recomendação orgânica de perfis oficiais de candidatos. Aquela engenharia invisível que entregava, de graça, a sua mensagem para milhares de eleitores fora da sua bolha foi desligada.
Para a imensa maioria do mercado, o pânico se instalou. Para uma minoria atenta, no entanto, este é exatamente o cenário que divide os amadores das campanhas profissionais.
A Crônica de uma Mudança Anunciada
A falência do modelo de dependência exclusiva das big techs já estava desenhada. Desde 2016, venho alertando o mercado sobre os riscos de terceirizar a expansão política para os algoritmos. Enquanto a regra geral era queimar orçamentos tentando “hackear” redes sociais em busca de métricas de vaidade, nossa bússola sempre apontou para a inteligência de dados e a mobilização humana descentralizada.
Quem compreendeu essa transição antecipadamente já iniciou a disputa em outro patamar. Através de sistemas de monitoramento de sentimentos e análise preditiva, por sistemas de monitoramento complexos por IA, essas campanhas estão fazendo exatamente o que o algoritmo foi proibido de fazer: mapear, engajar e transformar o eleitor no principal vetor de distribuição da mensagem política.
O Mapa da Atenção: Onde o eleitor realmente está
Sobreviver ao apagão algorítmico exige uma leitura fria do comportamento social. A internet hoje é a infraestrutura da vida cotidiana, alcançando 90,5% dos brasileiros, e mantendo uma força impressionante de 85,9% no Tocantins, superando os desafios logísticos do nosso estado. O dado mais contundente, porém, é o meio de acesso: 98,7% se conectam pelo celular.
Se o Instagram limitou o alcance na tela do eleitor, a estratégia deve migrar para o que ele efetivamente faz com o aparelho. E os números não mentem:
- 95,3% fazem chamadas de voz ou vídeo;
- 90,2% trocam mensagens de texto, voz ou imagens;
- 89,3% assistem a vídeos.
A troca de mensagens privadas , o chamado Dark Social (WhatsApp e Telegram), superou o simples ato de rolar o feed. O WhatsApp é um território imune aos filtros do TSE porque é baseado em relações reais. Quando a inteligência da campanha produz o formato correto, é o próprio eleitor quem assume o papel do algoritmo, encaminhando propostas para o grupo da família e do trabalho.
A Fronteira Legal: A LGPD e a Blindagem Estratégica
Nesta corrida para dominar o WhatsApp, muitos adversários desesperados cometerão erros primários, como a compra de listas frias ou o uso de robôs de disparo em massa. É o caminho mais rápido para multas pesadas e processos de cassação via Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A transição para essa nova realidade exige uma operação cirúrgica. A captação de dados precisa deixar de ser um passivo de risco para se tornar uma máquina de construir confiança.
Para isso, aplicamos protocolos exclusivos de profissionalização da equipe de rua e da militância. Substituímos o amadorismo e os riscos jurídicos por métodos validados de construção de redes orgânicas. O resultado não é apenas um amontoado de contatos em uma prancheta, mas a formação de uma base de apoiadores genuína, totalmente blindada pela legislação e estrategicamente preparada para atuar na linha de frente da defesa do projeto.
O Tempo de Corrigir a Rota
A eleição de 2026 não premiará as contas com mais seguidores, mas sim as campanhas com maior capacidade de orquestrar apoiadores reais em um exército de distribuição ativa.
O algoritmo foi desligado, e a ilusão do alcance fácil acabou. O que resta na mesa é a inteligência política, a leitura precisa de dados e a técnica de mobilização correta. Para os projetos políticos que perceberam que a engrenagem travou nestes primeiros dias de campanha, a boa notícia é que o diagnóstico já existe, como a solução tecnológica e estratégica também.
Quem entender primeiro que o eleitor é o novo algoritmo, ditará o ritmo até outubro.