
Nasci e me criei no Brasil que aprendeu, a duras penas, o valor da liberdade e quantas vidas custa conquistá-la.
Minha juventude foi forjada nos palanques das Diretas Já, no calor da Constituinte de 1988, nas marchas dos Caras-Pintadas em 1992. Naquela época, o asfalto quente era o palco onde ideias antagônicas colidiam, onde o contraditório desfilava, mas ali havia um horizonte comum: a crença de que estávamos edificando, sobre os escombros do autoritarismo, uma nação livre e democrática.
Pertenço àquilo que os sociólogos chamam de Classe Média Relativa, não sou rico, vivo muito bem, estudei em escolas conceituadas, aqui e fora do País. Penso que deveria estar blindado, indiferente, até porque sou quase um sexagenário e deveria estar pensando na minha aposentadoria. Mas a materialidade do mundo que, de alguma maneira, eu ajudei a construir, ruiu.
Recentemente, fiz uma pergunta simples em minhas redes sociais e círculos de convivência. Diante das imagens do Padre Júlio Lancellotti acolhendo, alimentando e devolvendo um sopro de dignidade aos esquecidos e invisíveis, indaguei:
“Vocês teriam a coragem e a boa vontade de fazer o que ele faz? Eu não tenho. Por isso admiro, bato palmas e o entendo como necessário, já que nem eu e nem nenhum de vocês se disporia a tanto”.
A resposta não foi o debate. Não foi o argumento. Foi o soterramento. Fui bombardeado por uma saraivada de agressões verbais, cancelamentos virtuais e linchamentos reputacionais coordenados. Velhos amigos viraram as costas. Alunos me olharam com desconfiança. O meu convívio social, construído ao longo de uma vida inteira, se dilacerou. Meu crime foi ter sido flagrado em delito de empatia. Ter demonstrado uma profunda e incurável incapacidade de odiar.
O ataque não mirou o que eu disse, mirou a minha própria humanidade. Foi nesse momento, sentindo na carne o isolamento, que compreendi que o Brasil que eu ajudei a redemocratizar não existe mais. Cruzamos uma fronteira sem retorno. O que estamos vivenciando nas eleições e nas ruas não é uma Polarização Política. Chamar o que ocorre no Brasil de polarização é um erro conceitual e uma covardia intelectual. De um lado, temos um governo de frente ampla, um arranjo de centro-direita reformista liderado por uma figura social-democrata cuja biografia evoca a Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Do outro, temos um ecossistema sectário, violento, misógino e homofóbico. Não há equivalência. Não há polos. O que há é a fanatização.
A Internet, essa criatura que saiu do controle humano e se transformou em uma Bomba Atômica de explosão contínua, pariu os Filhos do Ódio. Uma geração e um ambiente digital moldados por algoritmos que descobriram que a fúria gera lucro e a mentira performática gera engajamento. Essa engrenagem deu à luz ao que chamo de Fascismo Digital, uma Terceira Guerra Mundial online, invisível aos olhos desatentos, mas que faz milhares de vítimas reais, destrói famílias, amizades e ocupa cargos de extremo poder na República.
Mais profunda e intensa do que a Pós-Verdade, de Zygmunt Bauman, ingressamos na era da Pós-Realidade. Um tempo sombrio onde a materialidade dos fatos, da ciência e da economia foi completamente revogada. Não importa se o hospital público funciona ou se o estômago está vazio, o que importa é o Ideal Abstrato da bolha. Uma ilusão de ótica coletiva que faz o pobre votar contra o projeto social que o alimenta, o gay se aliar a quem deseja sua extinção e o trabalhador informal precarizado a se fantasiar de capitalista sem capital, de empresário sem empresa. Como vimos na tragédia humanitária da Pandemia de Covid-19, esse descolamento da realidade é fatal.
Este texto pretende ser um alerta de emergência. Foi escrito às margens transbordadas de um delírio coletivo. É um manifesto curto e acessível que busca expor as engrenagens dessa máquina de moer sanidade.
Escrevo porque o ódio exige uma degradação cognitiva a qual me recuso aceitar. Escrevo porque, em tempos de Fascismo Digital, manter os pés fincados na realidade concreta e preservar o amor ao próximo não é passividade. É o maior, mais efetivo, verdadeiro e urgente ato de insurreição.
Autor: Rubens Guarnieri