
Tem alguma coisa errada com a água. Não é possível.
Porque todo dia aparece um caso novo. Um homem que mantém a companheira em cárcere privado. Outro que agride. Outro que mata. Outro que decide que o corpo da mulher é um espaço de inscrição, e grava ali o próprio nome, como quem marca território. Outro que joga ácido, atira, esfaqueia e pasme, até joga do penhasco.
A gente abre o celular diariamente e lá está: mais um.
E aí eu fico pensando se é a água. Se tem alguma coisa passando pelos canos, infiltrando nas casas, chegando nos copos, descendo pela garganta e ativando um tipo muito específico de comportamento masculino. Um curto-circuito emocional. Uma falha de fábrica que só se revela depois de adulto.
Talvez esteja faltando alguma coisa também. Um pouco de limite, quem sabe. Ou, sendo bem prática, uma dose coletiva de controle, um diazepam social dissolvido no abastecimento público.
Porque não é possível. Ou é.
E talvez o problema não seja a água. Talvez nunca tenha sido.
Eu tenho 45 anos vivendo dentro de um corpo de mulher. E não é qualquer corpo. É um corpo de mulher negra, que aprendeu cedo que existir já é, em alguma medida, um enfrentamento. E não, isso não começou ontem. Não foi o caso extremo que apareceu no noticiário. Não foi o cárcere, não foi a agressão física, não foi o feminicídio. Foi antes.
Foi o homem que interrompe. O homem que explica o que eu acabei de dizer. O homem que tenta calibrar o meu tom. O homem que se sente autorizado a dizer como eu devo me comportar, no trabalho, na rua, na vida. E nenhum deles estava em surto. Eles estavam funcionando exatamente como foram ensinados.
Quando um homem agride ou mata, o que mais se vê é gente ainda tentando explicar como exceção. Um desvio. Um ponto fora da curva. Mas os números não sustentam mais essa narrativa confortável.
A violência acontece dentro de casa. A violência é cometida por quem convive.
A violência segue um roteiro, previsível, repetido, ignorado. E, ainda assim, a resposta pública insiste em mirar no lugar errado.
Todo mês de março, de todo ano, a cena se repete: palestras, campanhas, rodas de conversa para mulheres. Ensinar mulheres a identificar sinais, a sair de relações abusivas, a se proteger. Como se a origem do problema estivesse nelas. Como se fosse responsabilidade da vítima antecipar a violência que ainda nem aconteceu.
A pergunta nunca foi o que falta às mulheres. A pergunta é o que foi ensinado aos homens, e o que continua sendo permitido, pelo menos o que eles julgam, em suas cabeças doentias, ser permitido.
Talvez a gente devesse, por um instante, inverter a lógica. Lotar auditórios de homens. Ensinar, de forma explícita, direta, incômoda: não é normal controlar, não é normal agredir, não é normal achar que amor se confunde com posse. Porque, aparentemente, isso ainda não está claro. É preciso massificar a didática.
A gente pode continuar fazendo campanhas delicadas, com frases bem desenhadas e tons educativos. Ou pode admitir que o problema é mais fundo e mais antigo. Não está na água. Está na forma como esses homens foram autorizados a existir no mundo.
E enquanto a gente continuar tratando isso como exceção, como surto, como caso isolado, a pergunta vai seguir parecendo válida: o que colocaram na água?
Quando, na verdade, a resposta já está diante da gente há muito tempo.
E não tem nada de acidental nela.
Minicurrículo:
Hérica Rocha é mestra em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), especialista em Ensino de Jornalismo: Temas Contemporâneos em Comunicação e Jornalismo pela UFT e graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (Ceulp/Ulbra). Atualmente, exerce o cargo de Chefe de Comunicação da Secretaria da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Seagro). Integra o Observatório de Pesquisas Aplicadas ao Jornalismo e ao Ensino (Opaje/UFT) e desenvolve pesquisas nas áreas de comunicação, jornalismo, discurso e percepção social. Possui experiência em assessoria de comunicação, gestão integrada da comunicação pública e institucional, produção jornalística e planejamento estratégico de comunicação.