
As duas patologias encontradas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) na Ponte Prefeito Leôncio Miranda, sobre o Rio Tocantins, na BR-235, entre Pedro Afonso e Tupirama, não surgem por causa do envelhecimento da estrutura. Segundo o professor do curso de Engenharia Civil e do Mestrado em Engenharia Civil e Ambiental do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), Moacyr Salles Neto, elas estão associadas a falhas de controle tecnológico durante a construção e poderiam ter sido identificadas antes de comprometer totalmente a ponte.
O DNIT confirmou que a estrutura será demolida e reconstruída após laudos apontarem a presença da reação álcali-agregado (RAA) e da formação de etringita tardia (DEF) nas fundações dos apoios centrais. Ensaios também mostraram deformações permanentes após testes de carga, levando à interdição total da travessia.
Em entrevista à Gazeta, o engenheiro civil, doutor em Estruturas e Construção Civil pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em patologia das edificações, explicou, como essas duas reações afetam o concreto.
Reação química faz concreto aumentar de volume
Moacyr explica que a reação álcali-agregado acontece quando determinados tipos de pedras utilizadas na produção do concreto entram em reação com os álcalis presentes no cimento, desde que exista água.
“O concreto que a gente utiliza para fazer uma ponte, uma estrutura de uma casa, qualquer estrutura, vai ser feito basicamente com areia, agregado graúdo e cimento Portland. Existem alguns tipos de agregado que são problemáticos para nós. Esses agregados, quando a gente dá o azar de utilizar com alguns tipos de cimento, eles reagem e, se a gente tiver a presença de um meio aquoso, desenvolvem um gel. Esse gel aumenta de volume.”
Segundo ele, a reação depende da presença simultânea de três fatores.
“A reação álcali-agregado é uma reação expansiva que precisa de três condicionantes: a gente precisa da água, a gente precisa do agregado reativo e a gente precisa do álcali presente no cimento.”
O professor ressalta que esse tipo de patologia é mais comum em obras de grande porte, como pontes, barragens e grandes blocos de fundação.
Outro fator que chama atenção é uma característica dos materiais encontrados no Tocantins.
“O agregado do tipo seixo rolado que a gente tem no Tocantins tem uma tendência a formar essa reação álcali-agregado. É por isso que, em grandes empreendimentos, como pontes e barragens, hoje a gente tem evitado utilizar o seixo rolado como agregado, pelo menos em um teor maior.”
Formação de etringita tardia também rompe o concreto
A segunda patologia apontada pelo DNIT é a formação de etringita tardia.
Para facilitar o entendimento, Moacyr faz uma comparação com um bolo.
“Pensa em um bolo e no fermento que a gente utiliza para fazer aquele bolo. Quando a gente coloca o fermento na massa, a massa cresce. Quando a massa está fresca, ela não racha. Agora imagine aquele mesmo bolo aumentando de tamanho depois que já assou. O bolo rachava. É isso que acontece quando a etringita se forma.”
Segundo ele, a etringita é um composto natural da hidratação do cimento. O problema surge quando ela volta a se formar anos depois, com o concreto já endurecido.
“A etringita tardia é a formação de etringita em estruturas de concreto após o seu endurecimento.”
Entre as causas estão o superaquecimento durante a concretagem de grandes volumes e a contaminação por sulfatos.
“É por isso que, quando a gente vai fazer a concretagem de pontes, de barragens e de grandes blocos de fundação, coloca termômetros dentro da massa de concreto para controlar o aumento de temperatura. É por isso que a gente coloca gelo no concreto.”
“É como um câncer no interior daquela estrutura”
As duas patologias têm uma característica em comum: ambas provocam expansão interna do concreto.
Para explicar o efeito sobre a estrutura, Moacyr utiliza uma comparação.
“É por isso que a gente fala que uma estrutura que está submetida à formação de etringita tardia e de reação álcali-agregado normalmente ela não tem muita solução. Por quê? Porque é como um câncer no interior daquela estrutura. Ela vai aumentando de volume e, como não há espaço, não tem folga. Esse aumento de volume, essa estrutura que vai se formando e aumentando de tamanho, vai comprimindo o concreto e provocando as fissurações, vai degradando o nosso concreto a partir do seu interior, vai provocando a degradação da nossa estrutura a partir do seu interior. Ele vai quebrando, literalmente, ele vai quebrando. Ele vai fissurando a partir de dentro.”
Problema não está ligado ao tempo de uso
Apesar de a ponte ter sido inaugurada em 2007, o especialista afirma que essas patologias não aparecem simplesmente porque a estrutura envelheceu.
“Essas reações, tanto a reação álcali-agregado quanto a formação de etringita tardia, não acontecem pelo envelhecimento da estrutura. Essas reações acontecem por uma falha no controle tecnológico.”
Segundo ele, no caso da reação álcali-agregado, a falha normalmente está relacionada à escolha do agregado utilizado no concreto. Já na etringita tardia, o problema costuma ocorrer durante a execução da obra, especialmente no controle da temperatura da concretagem.
Sinais poderiam ter sido percebidos antes
O professor afirma que essas patologias costumam apresentar sinais antes de atingir níveis críticos.
“As duas provocam fissuras. É o que a gente enxerga.”
No caso da reação álcali-agregado, existe uma característica considerada típica pelos engenheiros.
“A reação álcali-agregado tem uma particularidade que é bem característica dela: na trinca que ela provoca fica uma espécie de gotinha de vidro saindo da trinca. Essa é a assinatura da reação álcali-agregado.”
Segundo Moacyr, quando essas fissuras são identificadas ainda no início, existe a possibilidade de retardar o avanço da deterioração.
“Quando essas fissuras estão incipientes, ou seja, quando estão começando, a gente consegue identificar o problema no seu início e pode tentar fazer uma contenção. A gente pode identificar antecipadamente e a estrutura poderia ficar em uso por um período de tempo consideravelmente maior antes de ser necessária a total interrupção de uso.”
Recuperação depende do grau de comprometimento
O especialista explica que nem toda estrutura diagnosticada com essas patologias precisa, obrigatoriamente, ser demolida.
“Quando o nível de comprometimento é leve, pode ser cogitada a possibilidade de recuperação.”
No entanto, ele ressalta que, no caso específico da ponte de Pedro Afonso, existe um agravante.
“A única coisa que a gente conseguiria segurar é a água. Normalmente, a contenção da reação álcali-agregado é feita através de técnicas de impermeabilização. Só que é uma ponte. Ela está embaixo d’água.”
Por isso, segundo Moacyr, esse tipo de obra apresenta enorme dificuldade de recuperação.
“Para esse tipo de obra de arte, infelizmente, a demolição tem uma frequência maior. As técnicas de recuperação têm a possibilidade de postergar, elas adiam o que, infelizmente, um dia vai ser inevitável.”