GAZETA ELEIÇÕES: A síndrome de algumas campanhas que falam sozinhas: a melhor estratégia continua sendo entender pessoas

Faltando poucos meses para a eleição, um velho erro volta a se repetir no Tocantins. E, como em quase todos os ciclos eleitorais, alguns candidatos ainda não perceberam.

Estão construindo campanhas apenas para quem já vota neles.

Falam para a própria militância. Produzem conteúdo para os grupos de WhatsApp que já os defendem. Fazem discursos que arrancam aplausos dos aliados, mas não despertam qualquer interesse em quem ainda está decidindo seu voto.

É uma campanha confortável. Mas raramente é uma campanha ampla.

A eleição não é decidida só pelo eleitor apaixonado. Esse, em grande parte, já fez sua escolha. Também não costuma ser decidida pelo adversário convicto, que dificilmente mudará de posição.

As eleições são definidas justamente pelo eleitor do meio.

É aquele cidadão que acompanha política de forma irregular, trabalha o dia inteiro, está mais preocupado com o preço do supermercado, com a qualidade da escola dos filhos, com a fila do hospital e com a segurança da família do que com disputas ideológicas permanentes.

É esse eleitor que decidirá quem ocupará a Assembleia Legislativa, a Câmara dos Deputados, o Senado e o Palácio Araguaia.

O problema é que alguns candidatos parecem desconhecer completamente como esse eleitor pensa.

Confundem engajamento com convencimento.

Celebram milhares de curtidas em publicações que circulam apenas dentro da própria bolha política. Interpretam comentários positivos da militância como se fossem pesquisa eleitoral. Acreditam que alcance digital é sinônimo de intenção de voto.

Não é.

A política continua sendo uma atividade profundamente humana.

O voto nasce menos da lógica do que da identificação.

Quem estuda comportamento eleitoral sabe que boa parte das decisões políticas não acontece após uma análise racional de propostas. Elas passam por filtros emocionais, afetivos e identitários. As pessoas tendem a confiar em quem lhes parece próximo, compreende sua realidade e transmite autenticidade.

Por isso, quem tenta convencer apenas por argumentos ideológicos frequentemente fala sozinho.

O eleitor comum não compra uma tese política. Ele se identifica com uma relação de confiança.

No Tocantins, essa característica talvez seja ainda mais evidente.

É um estado onde o contato pessoal continua tendo enorme peso, onde a reputação construída nas cidades vale tanto quanto um bom programa de governo, onde a capacidade de ouvir continua sendo uma das maiores ferramentas eleitorais.

Não significa abandonar ideias.
Significa traduzi-las para a linguagem das pessoas.

Uma proposta só ganha força quando responde a uma dor concreta.

Um discurso só emociona quando o eleitor consegue enxergar a própria vida dentro dele.

Quem não conhece a natureza do povo dificilmente compreenderá a natureza dessa campanha.

Não basta dominar marketing político nem investir pesado em redes sociais.

Não basta produzir vídeos sofisticados. Tudo isso é ferramenta.

A estratégia continua sendo entender pessoas.

Os candidatos que compreenderem isso terão uma vantagem competitiva enorme nos próximos meses. Deixarão de disputar apenas curtidas para disputar confiança. Deixarão de alimentar a própria torcida para dialogar também com quem realmente decidirá a eleição.

Porque campanhas não vencem quando convencem apenas os já convencidos.

Elas vencem quando conseguem transformar desconhecidos em apoiadores e indecisos em eleitores.

É exatamente nesse território silencioso, distante das bolhas e pouco visível nas redes sociais, que as eleições de 2026 começarão a ser definidas.

Maju Cotrim
Trocando em Miúdos

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!