
Por Cláudio Bento
Karl Marx continua provocando o nosso pensamento quase dois séculos depois de ter escrito algumas de suas mais conhecidas reflexões sobre religião. Em “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, Marx afirmou que a religião é “o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração” e “o ópio do povo”. A frase tornou-se célebre, mas frequentemente é utilizada de maneira simplificada, como se Marx tivesse simplesmente afirmado que a religião seria uma espécie de mentira inventada para enganar os pobres.
Não é tão simples assim.
E talvez esteja justamente aí a atualidade de Marx.
Ao falar da religião como “suspiro da criatura oprimida”, Marx reconhece que existe sofrimento real por trás da experiência religiosa. A fé pode nascer da dor, da injustiça, da solidão e da necessidade humana de encontrar sentido em uma realidade muitas vezes cruel. Mas existe uma palavra nessa reflexão que merece ser recuperada: protesto.
A religião não é apenas expressão do sofrimento. Ela também pode ser protesto contra ele.
Essa dimensão é fundamental para compreender a relação entre religião e política nos dias atuais.
Uma igreja pode acolher uma pessoa desempregada, ajudar uma família que passa fome, oferecer solidariedade a alguém que enfrenta uma tragédia e devolver esperança a quem já não encontra sentido na própria existência. Pode ser espaço de convivência, pertencimento e organização comunitária. Pode, inclusive, estimular seus fiéis a lutar por justiça social.
Mas a mesma instituição que acolhe também possui autoridade. E toda autoridade pode ser utilizada de diferentes maneiras.
É justamente aí que surge a pergunta que considero mais importante: como uma mesma instituição religiosa pode produzir solidariedade, oferecer sentido ao sofrimento e, em determinadas circunstâncias, também contribuir para legitimar relações de dominação?
Essa é uma pergunta incômoda, mas necessária.
Não me parece correto afirmar que a religião seja, por natureza, alienante. Tampouco considero razoável colocar todos os religiosos e todas as lideranças religiosas no mesmo lugar. A história está cheia de exemplos de pessoas e comunidades religiosas que estiveram ao lado dos pobres, dos trabalhadores e dos grupos socialmente vulnerabilizados.
O problema começa quando a fé deixa de ser fonte de reflexão e passa a ser utilizada como instrumento de controle.
E isso pode acontecer na política.
Em período eleitoral, o altar pode se transformar em espaço de orientação política. Até aí, alguém poderia argumentar que todo cidadão, inclusive um líder religioso, possui direito à manifestação política. E possui.
O problema aparece quando a opinião do líder deixa de ser apresentada como opinião e passa a ser apresentada como verdade moral absoluta.
Quando um fiel ouve que votar em determinado partido é pecado, que determinado candidato representa o mal ou que uma determinada escolha eleitoral é uma exigência de Deus, estamos diante de algo muito mais complexo do que uma simples manifestação de preferência política.
Estamos diante do uso de uma autoridade religiosa para influenciar a consciência política de pessoas que depositam naquele líder uma relação de confiança.
E aqui está a minha preocupação.
O voto pertence ao eleitor.
Não pertence ao pastor, ao padre, ao bispo, ao padre, ao líder comunitário, ao partido, ao candidato ou à instituição religiosa.
A liberdade religiosa pressupõe também liberdade de consciência.
Uma pessoa pode ser profundamente religiosa e votar em qualquer candidato que considere adequado. Pode inclusive fundamentar sua decisão em valores religiosos. Isso faz parte da liberdade democrática.
O que merece reflexão é quando a pessoa deixa de avaliar os candidatos e passa simplesmente a obedecer a uma orientação porque teme desobedecer à autoridade religiosa.
Nesse momento, a fé pode deixar de ser instrumento de libertação e transformar-se em mecanismo de submissão.
E não há nada de novo nisso.
A história demonstra que instituições religiosas podem desempenhar papéis contraditórios. Em determinados momentos, contribuíram para legitimar estruturas de poder; em outros, foram fundamentais para enfrentá-las. A religião pode justificar a ordem existente, mas também pode produzir indignação contra essa mesma ordem.
É exatamente essa contradição que torna a reflexão de Marx tão atual.
Imagine, por exemplo, um trabalhador que passa seis dias por semana trabalhando, chega em casa exausto e tem pouco tempo para conviver com os filhos. Imagine que esse mesmo trabalhador seja convencido a apoiar políticos que defendem a manutenção de uma determinada organização do trabalho que ele próprio considera exaustiva.
Não quero aqui determinar qual deve ser a posição política de ninguém sobre a escala 6×1 ou sobre qualquer outra pauta. O que me interessa é a pergunta que deveria anteceder o voto:
Essa decisão política melhora ou piora concretamente as condições de vida de quem trabalha?
Essa pergunta deveria valer para todos os candidatos e todos os partidos.
Se alguém afirma defender a família, precisamos perguntar o que entende por família. Porque família também significa o pai que precisa trabalhar jornadas intermináveis, a mãe que não encontra tempo para os filhos, o trabalhador que não consegue descansar, o jovem que abandona os estudos porque precisa trabalhar e o idoso que passa a vida inteira trabalhando sem conseguir usufruir adequadamente do próprio tempo.
A defesa da família não deveria estar limitada a discursos sobre costumes.
Deveria incluir também salário, emprego, moradia, saúde, educação, segurança, descanso e qualidade de vida.
É aí que o pensamento de Marx volta a incomodar.
O trabalhador não vive apenas de ideias. Vive de condições materiais concretas.
Pode receber um discurso religioso poderoso sobre moral, família e bons costumes. Mas continuará enfrentando o preço dos alimentos, o aluguel, a jornada de trabalho, a falta de atendimento médico, a escola dos filhos e o transporte público.
E é justamente nessa distância entre o discurso e a realidade que precisamos colocar a consciência crítica.
A religião pode oferecer respostas para o sofrimento existencial. A política deveria enfrentar suas dimensões sociais e materiais.
O problema surge quando uma coisa substitui a outra.
Quando a pobreza é explicada exclusivamente pela falta de fé, deixa-se de discutir a estrutura econômica que produz desigualdade.
Quando o desemprego é tratado apenas como uma provação individual, desaparece do debate a responsabilidade das políticas econômicas.
Quando a violência é apresentada apenas como resultado da ausência de valores morais, deixamos de discutir suas causas sociais.
Quando o trabalhador é orientado a suportar uma condição de exploração como se ela fosse inevitável, deixamos de perguntar quem se beneficia daquela relação.
É nesse momento que o “ópio” de Marx ganha força como metáfora.
Não porque a religião seja simplesmente uma droga que entorpece os pobres, mas porque o consolo pode, em determinadas circunstâncias, tornar-se uma forma de acomodação diante de uma realidade que deveria ser transformada.
Mas há outra possibilidade.
O sofrimento pode produzir solidariedade.
A fé pode transformar indignação em organização.
A comunidade pode transformar dor individual em consciência coletiva.
O altar pode ser lugar de conforto, mas também pode ser lugar de denúncia.
É por isso que considero equivocada qualquer interpretação que coloque religião e emancipação necessariamente em lados opostos. A questão não é a existência da fé. A questão é o que fazemos socialmente com a fé.
Ela pode servir à dignidade humana ou à submissão.
Pode produzir solidariedade ou exclusão.
Pode estimular a consciência ou exigir obediência.
Pode questionar a injustiça ou simplesmente pedir que os injustiçados tenham paciência.
E talvez seja justamente essa ambivalência que Marx nos ajuda a enxergar.
Em uma democracia, ninguém precisa abandonar sua religião para votar livremente. Mas também não deveria precisar abandonar sua liberdade de consciência para permanecer em uma comunidade religiosa.
O eleitor pode ouvir seu pastor.
Pode ouvir seu padre.
Pode ouvir seu líder religioso.
Pode ouvir seu partido.
Pode ouvir seu candidato.
Pode ouvir seus amigos, seus familiares, os jornalistas, os pesquisadores e os analistas.
Mas, diante da urna, a decisão precisa continuar sendo dele.
Porque a fé é uma dimensão legítima da vida humana. A política também.
O que não podemos permitir é que uma seja utilizada para sequestrar a outra.
No próximo período eleitoral, talvez seja mais importante do que nunca recuperar uma pergunta simples: estamos votando porque refletimos sobre aquilo que acreditamos ou porque alguém que possui autoridade sobre nós mandou que votássemos assim?
Essa pergunta não é contra a religião.
É, antes, uma defesa da liberdade.
Marx dizia que a religião era o “suspiro da criatura oprimida”. Talvez devêssemos acrescentar: o suspiro pode ser apenas consolo, mas também pode ser o primeiro som de uma revolta contra aquilo que produz o sofrimento.
A verdadeira questão, portanto, não é eliminar o altar.
É impedir que o altar seja utilizado para substituir a consciência.
Porque uma democracia madura não exige que o cidadão deixe sua fé na porta da igreja.
Exige apenas que, ao entrar na cabine de votação, ele possa levar consigo aquilo que nenhuma liderança deveria conseguir retirar: a liberdade de pensar, questionar e escolher por si mesmo.
Cláudio Bento é Cientista Social pela UFG e Bacharel em Direito pela UNITINS.