
Por Maju Cotrim
A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo, 16, mas a disputa política já ocupa as ruas, as conversas, os grupos de mensagens e, principalmente, as redes sociais. A partir de agora, o Tocantins entra em um período decisivo. E é justamente por reconhecer a importância deste momento que precisamos estabelecer, desde o início, uma premissa inegociável: democracia exige respeito.
Respeito aos adversários, às instituições, à imprensa e, sobretudo, aos eleitores.
Um dos maiores erros de qualquer campanha é olhar para os tocantinenses como se todos pensassem da mesma maneira, enfrentassem os mesmos problemas e esperassem as mesmas respostas. O Tocantins não é uma massa uniforme. É um Estado extenso, plural, diverso e marcado por profundas diferenças regionais, sociais, culturais e econômicas.
A realidade de quem vive no Bico do Papagaio não é idêntica à de quem mora nas Serras Gerais. As demandas do Jalapão não são necessariamente as mesmas do Cantão, do Sudeste, do Médio Norte ou da Ilha do Bananal. Palmas tem seus desafios, assim como Araguaína, Gurupi, Porto Nacional e cada um dos pequenos municípios que sustentam a identidade e a força deste Estado.
Também não se pode falar em nome do Tocantins ignorando quem verdadeiramente o constrói todos os dias.
São os trabalhadores e as trabalhadoras, as quebradeiras de coco-babaçu, os povos quilombolas e indígenas, os agricultores familiares, os produtores rurais, os servidores públicos, os profissionais da saúde e da educação, os artistas, os fazedores de cultura, os comerciantes, os empresários, os autônomos, as mulheres que sustentam suas famílias, a juventude que procura oportunidades e as comunidades que ainda lutam pelo básico.
Essas pessoas não são apenas números de pesquisas, personagens de vídeos eleitorais ou figurantes para fotografias de campanha. São cidadãos com memória, necessidades, discernimento e poder de escolha. Não devem ser subestimados, tutelados ou tratados como propriedade política de qualquer grupo.
O eleitor tocantinense merece ser ouvido e não apenas abordado.
Campanha não pode ser somente uma guerra de narrativas travada por equipes profissionais dentro das redes sociais. O algoritmo não conhece a estrada vicinal abandonada, a fila por uma consulta, a falta de água em uma comunidade, a dificuldade para produzir, a ausência de emprego nem o jovem que precisa deixar sua cidade para encontrar uma oportunidade.
O Tocantins real está fora das bolhas digitais.
Por isso, os candidatos precisam percorrer o Estado não apenas para gravar imagens, repetir slogans ou colecionar apoios. Precisam conhecer as particularidades de cada região, ouvir as comunidades, apresentar soluções possíveis e explicar com clareza de que maneira pretendem transformar promessas em políticas públicas.
O povo espera propostas. Não espera um ringue político.
A crítica faz parte da democracia. O confronto de ideias também. O que não pode ser normalizado é a transformação da eleição em uma disputa de ataques pessoais, desinformação, intimidação, preconceitos e destruição de reputações. Divergência não autoriza desumanização. Competição eleitoral não é licença para o vale-tudo.
Esse respeito deve alcançar também a imprensa.
Jornalistas não podem ser tratados como adversários apenas porque fazem perguntas incômodas, confrontam versões ou publicam fatos que desagradam a determinados grupos. Uma imprensa livre, plural e independente não existe para confirmar discursos de campanha. Existe para perguntar, investigar, comparar, informar e cobrar.
Candidatos que desejam representar a população precisam estar preparados para prestar contas, responder questionamentos e conviver com o contraditório. Respeitar a imprensa não significa esperar elogios. Significa compreender que a fiscalização jornalística é parte essencial de uma democracia saudável.
A disputa pelo Senado exige atenção ainda maior. Neste ano, o Tocantins escolherá dois senadores. São duas vagas que terão impacto direto sobre o futuro político do Estado e sua representação nacional.
Não basta conhecer os números dos candidatos ou acompanhar alianças de ocasião. É necessário compreender os perfis, as trajetórias, os legados, as posições políticas, os compromissos e aquilo que cada nome representa para o Tocantins. O eleitor precisa saber quem já teve oportunidade de servir, o que fez com ela, quais causas defendeu, como votou, quais resultados entregou e qual projeto apresenta para os próximos anos.
Duas vagas não significam duas escolhas sem reflexão. Significam responsabilidade em dobro.
O mesmo rigor deve valer para todos os demais cargos. Esta não pode ser uma eleição baseada apenas em popularidade, estrutura, herança política ou presença digital. É preciso discutir saúde, educação, segurança, desenvolvimento, infraestrutura, cultura, inclusão, geração de emprego, proteção ambiental, combate às desigualdades e respeito à diversidade do nosso povo.
A Gazeta do Cerrado atravessará esta campanha com a mesma responsabilidade que orienta sua trajetória. Manteremos o equilíbrio, a independência editorial e a linha jornalística. Estaremos abertos às diferentes candidaturas, atentos às propostas e firmes no dever de informar.
Não participaremos de torcidas organizadas, guerras de militância ou tentativas de silenciamento. Também não abriremos mão da análise crítica, da apuração dos fatos e das perguntas necessárias. Equilíbrio não significa omissão. Imparcialidade não significa ausência de firmeza.
A nossa escolha é pelo jornalismo.
Que esta campanha seja disputada com intensidade, mas também com responsabilidade. Que os candidatos tenham coragem para apresentar ideias e maturidade para enfrentar o contraditório. Que as diferenças regionais sejam compreendidas, que as vozes historicamente invisibilizadas sejam ouvidas e que nenhum eleitor seja reduzido a estereótipos.
O Tocantins não precisa de uma eleição movida por gritos. Precisa de uma campanha capaz de ouvir.
No fim, vencer não será apenas conquistar votos. Será demonstrar respeito pelo povo que terá nas mãos o poder de decidir os próximos capítulos da nossa história.