
Três comunidades indígenas da Ilha do Bananal deram início a uma nova etapa na busca pelo direito à moradia digna. Após aprovação em edital do Ministério das Cidades, o programa Minha Casa, Minha Vida Rural vai destinar recursos para a construção de 30 unidades habitacionais nas aldeias Boa Esperança e São João, do povo Javaé, e JK, do povo Karajá. O investimento supera R$ 3,21 milhões, com previsão de dez casas em cada comunidade. Cada unidade terá investimento de aproximadamente R$ 107 mil.
A proposta foi apresentada pela União Nacional pela Moradia Popular (UNMP), em parceria com a União por Moradia Popular do Tocantins (UMP-TO), a partir de uma demanda levada pela liderança indígena e ativista socioambiental Narubia Werreria Karajá. Ao todo, foram apresentados 140 projetos para diversas comunidades indígenas em todo o território tocantinense, porém apenas essas três foram contempladas. A aprovação representa um marco para ampliar o acesso dos povos indígenas do estado às políticas públicas de habitação rural.
Visitas

Na quinta-feira (30), representantes das entidades iniciaram uma série de visitas às comunidades para comunicar oficialmente a aprovação do projeto e orientar as famílias sobre as próximas etapas. A primeira agenda ocorreu na Aldeia Boa Esperança. Nesta sexta-feira (31), a equipe esteve na Aldeia São João.
As comunidades terão agora seis meses para organizar a documentação das famílias interessadas. Ao todo, dez beneficiários serão selecionados em cada aldeia. O processo inclui ainda a elaboração do Projeto de Engenharia e do Projeto Técnico Social, que prevê ações de formação comunitária, fortalecimento cultural e acompanhamento das famílias antes do início das obras, além da análise da documentação pela Caixa Econômica Federal.
Para o coordenador estadual da União por Moradia Popular do Tocantins, Ray Silva, a conquista também tem um significado pessoal. Ele participou da fundação da Aldeia Boa Esperança e voltou à comunidade mais de duas décadas depois para anunciar a aprovação do projeto. “É um momento muito emocionante. Eu ajudei a fundar essa aldeia e, mais de vinte anos depois, volto trazendo uma conquista que representa mais qualidade de vida para o nosso povo. É difícil até encontrar palavras para descrever esse momento.”
Segundo o coordenador nacional da União Nacional pela Moradia Popular, Adelmario Alves, o projeto demonstra que a política habitacional pode alcançar populações historicamente excluídas desse tipo de iniciativa. “Nosso trabalho é garantir moradia para quem ainda não teve acesso a esse direito. Quando a Narubia apresentou essa demanda, construímos esse projeto junto ao Governo Federal. Participar desse momento de transformação dentro de uma comunidade indígena é algo muito especial, ainda mais sendo minha primeira vez em uma aldeia.”
Narubia Werreria destaca que a aprovação rompe uma barreira histórica enfrentada pelos povos indígenas no acesso às políticas públicas de Habitação. “É um projeto pioneiro que nos enche de esperança. O acesso dos povos indígenas às políticas públicas sempre foi muito difícil. Quando conseguimos abrir esse caminho, mostramos que ele não termina aqui. Esse é apenas o primeiro de muitos projetos que ainda podem chegar às nossas comunidades.”
Na Aldeia São João, a notícia foi recebida como a realização de um sonho antigo. Segundo o cacique Darci Maurerri Javaé, a comunidade aguardava havia anos por uma oportunidade como essa. “Faz muito tempo que esperávamos por um programa como esse e ele nunca chegava. Quando recebemos essa notícia foi uma surpresa muito boa. Para nós é como um sonho começando a se realizar.”
Para Simone Hatxu Javaé, liderança do coletivo de mulheres da comunidade, a chegada das casas representa segurança para as famílias. “É histórico. Nunca aconteceu isso com a nossa comunidade. Muitos de nós ainda vivemos em casas de palha e, no período da seca, convivemos com o medo constante dos incêndios. Essas casas chegam como uma melhoria que nós desejávamos há muito tempo.”
Casas Populares pelo Tocantins
Além das 30 moradias destinadas às aldeias indígenas da Ilha do Bananal, a União Nacional pela Moradia Popular e a União por Moradia Popular do Tocantins tiveram 495 unidades habitacionais aprovadas no mesmo edital do Ministério das Cidades.
Os projetos contemplam os municípios de Arraias, Brejinho de Nazaré, Babaçulândia, Esperantina, Araguatins, Araguaína, Figueirópolis, Ipueiras, Chapada da Natividade, Caseara e Formoso do Araguaia, fortalecendo a atuação do movimento de moradia em diferentes regiões do estado.