Lajeado: a Cidade dos Práticos

Por Marco Aurélio Jacob

Há cidades que nascem de estradas. Outras, de trilhos, ou portos, ou mesmo de fábricas ou vilas para dormitório. Mas Lajeado viu seu destino se formar a partir dos rios e nasceu das águas que tornam este destino, um dos mais fascinantes do centro do Brasil. 

Muito antes das pontes, das rodovias e da velocidade do mundo moderno, o Rio Tocantins era a grande via de integração do Centro com o Norte do Brasil, por justamente ele ir de Goiás, até Belém do Pará. 

Por ele viajavam pessoas, mercadorias, sonhos e culturas, inclusive foi durante muito tempo chamado de parte da Rota do Sal, (mas essa é uma outra história). E para vencer seus desafios, principalmente pela característica daquele trecho do Rio Tocantins, onde tem seu leito mais afunilado, dando apelido a esta passagem fluvial de Funil, com muitos perigos correntes e redemoinhos, trecho traiçoeiro que causava perdas, mortes e prejuízos. 

Mas existiam homens cuja profissão exigia muito mais do que coragem: exigia um conhecimento profundo do rio do pedrais, bancos de areia, corredeiras e mudanças constantes no leito exigiam um conhecimento que ia muito além da experiência de qualquer comandante. Foi nesse cenário que surgiu a figura dos práticos, profissionais responsáveis por orientar embarcações nos trechos mais desafiadores da navegação. Conhecedores de cada curva, profundidade e correnteza, tornaram-se indispensáveis para a segurança da antiga navegação fluvial.

E não era só navegar por essas águas. Enquanto os práticos conduziam as embarcações, a carga era levada ao lombo de mulas nas recuas que garantiam a integridade da mercadoria. Exigindo também uma força de trabalho que foi se ampliando ao longo dos anos. 

Essa relação histórica com o Rio Tocantins moldou a identidade de Lajeado. Não por acaso, o município poderia ser reconhecido como a Cidade dos Práticos, uma homenagem aos homens que ajudaram a escrever parte da história da navegação tocantinense. Também faz jus aos títulos de Cidade das Águas ou Princesa das Águas, tamanha é sua conexão com o rio que lhe deu origem.

Foi justamente esse patrimônio histórico, somado às belezas naturais e ao acolhimento da população, que motivou a escolha de Lajeado para sediar o primeiro FEBTUR Day, iniciativa da Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo que reúne profissionais da comunicação para vivenciar destinos e revelar suas potencialidades sob um olhar da comunicação especializada em turismo.

Onde a memória encontra o futuro

Entre todos os momentos vividos durante a programação, um deles sintetiza a essência de Lajeado. 

Ao entrar em uma antiga residência histórica que se tornou na Casa de Memória do município, a sensação é de atravessar um portal do tempo. 

Fotografias, documentos, móveis e objetos cuidadosamente preservados contam a trajetória das famílias pioneiras e ajudam a compreender como o município cresceu às margens do Rio Tocantins.  Mais do que um acervo histórico, o espaço representa um gesto de generosidade.

Transformar a própria casa em um museu é compartilhar a memória da família com toda a comunidade. É permitir que crianças, estudantes e visitantes compreendam que uma cidade não é feita apenas de ruas e prédios, mas das histórias das pessoas que a construíram.

Esse trabalho de preservação vem sendo fortalecido por iniciativas de pesquisa coordenadas pela professora Maria das Graças Gomes Monteiro, que há anos mobiliza estudantes para registrar depoimentos, fotografias e documentos históricos, garantindo que a memória de Lajeado permaneça viva para as próximas gerações.

Mais do que preservar o passado, o projeto cria pertencimento e fortalece a identidade local — um dos pilares do turismo cultural contemporâneo.

Um turismo que nasce da identidade

Durante o FEBTUR Day, jornalistas e comunicadores puderam visitar a Praia do Segredo e banhada pelas águas do Tocantins, experimentar a gastronomia regional e conversar com moradores que carregam, em suas próprias histórias, parte da identidade do município. 

Foi uma experiência que confirmou uma das maiores tendências do turismo atual: os viajantes procuram cada vez menos destinos padronizados e cada vez mais lugares capazes de oferecer experiências autênticas.

Lajeado reúne exatamente esse conjunto.

Natureza preservada.

História ancestral, com as inscrições rupestres, colonial com a procura pelo ouro, desenvolvimentista, com a hidrovia e o ciclo da navegação pelos grandes rios brasileiros e contemporânea, com a construção da Usina e dos novos empreendimentos turísticos. 

Patrimônio cultural.

Gastronomia raiz e cultivada no local, lembrando os restaurantes de campo do interior da França.

Hospitalidade. 

E, principalmente, uma comunidade que compreende o valor de preservar sua própria identidade.

Ao final da visita, ficou evidente que o maior atrativo de Lajeado talvez não esteja apenas em suas praias ou nas águas do Tocantins.

Está na forma como seu povo recebe quem chega.

Assim como os antigos práticos conduziam embarcações pelos caminhos seguros do rio, hoje os moradores conduzem visitantes por um percurso igualmente valioso: o da memória, da cultura e do pertencimento.

O primeiro FEBTUR Day não apenas revelou um destino turístico promissor.

Revelou uma cidade que compreendeu que preservar o passado é uma das formas mais inteligentes de construir o futuro.

E é justamente essa combinação entre natureza, história e acolhimento que faz de Lajeado um daqueles lugares que o visitante conhece em poucos dias, mas leva consigo para a vida inteira.