Festa do Peixe Karajá-Xambioá celebra ancestralidade a partir desta sexta, dia 3 de julho

Entre os dias 3 e 5 de julho de 2026, a região norte do Tocantins volta seus olhos para uma das manifestações culturais mais simbólicas dos povos originários do Araguaia (Rio Berohoky): a Festa do Peixe dos Karajá-Xambioá. Realizada por comunidades do povo Karajá, também conhecido como povo Iny, a celebração reúne esportes tradicionais como arco e flecha, corrida, cabo de guerra, mas também a espiritualidade, memória, pesca, rituais, cantos, danças, pinturas corporais e o respeito ancestral ao Rio Araguaia, fonte de vida, alimento e identidade para a comunidade.

A festa, realizada na região de Santa Fé do Araguaia e Xambioá, não é apenas um evento cultural. É uma expressão viva de pertencimento. Para os Karajá-Xambioá, o rio não é apenas paisagem ou recurso natural: é território sagrado, caminho de histórias, morada de memórias e elo entre gerações.

A programação tradicionalmente reúne momentos de celebração coletiva, práticas esportivas, apresentações culturais, rituais e o Hetohoky, rito de passagem que marca a transição dos meninos Karajá para a vida adulta. Em edições anteriores, a Festa do Peixe também foi destacada como um momento de fortalecimento da relação dos Karajá com o Rio Araguaia, a natureza e suas tradições ancestrais.

Neste ano, a celebração ganha ainda mais força com a realização de um casamento típico/cultural e um desfile de povos originários, reunindo representantes das etnias Gavião, do Pará, Krahô e Karajá-Xambioá, do Tocantins. O encontro amplia o sentido da festa como espaço de intercâmbio, respeito e afirmação das identidades indígenas da Amazônia Legal e do Cerrado tocantinense.

Tocantins indígena

O Tocantins é um território marcado pela presença e resistência dos povos originários. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, o Estado possui 20.023 pessoas indígenas, o que representa 1,32% da população tocantinense. Desse total, 15.989 vivem em terras indígenas.

Esses povos mantêm vivas tradições que atravessam gerações e expressam a riqueza cultural do Tocantins. Entre elas estão os cantos, as línguas, os rituais, as pinturas corporais, os grafismos, as festas, os conhecimentos sobre o Cerrado, os rios e o artesanato.

No caso do povo Karajá, uma das expressões mais reconhecidas nacionalmente são as bonecas Ritxòkò, feitas em cerâmica por mulheres indígenas. O modo de fazer as bonecas Karajá foi registrado pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2012, no Livro dos Saberes, por reunir técnica, memória, identidade e transmissão de conhecimento entre gerações.

Mais do que objetos artesanais, as Ritxòkò carregam significados sociais, familiares e cosmológicos do povo Iny, reproduzindo modos de vida, personagens, relações comunitárias e ensinamentos repassados às novas gerações.

A Festa do Peixe também virou música e videoclipe

A força simbólica da Festa do Peixe Karajá-Xambioá também ganhou projeção artística em 2025, quando o publicitário, cineasta, cofundador e diretor-geral da Gazeta do Cerrado, Marco Aurélio Jacob, esteve presente na aldeia Wari Lyty, em Santa Fé do Araguaia, para dirigir o videoclipe da música “Uturá Lysina – Festa do Peixe”.

A canção foi composta por mamedkarin, vocalista da banda Bonovo, em parceria com o professor Adão Ytxeo Karajá. O trabalho audiovisual nasceu do encontro entre música, ancestralidade e colaboração direta com o povo Karajá-Xambioá, retratando rituais, grafismos, danças, espiritualidade e a relação profunda da comunidade com o ciclo das águas e da vida no Araguaia.

Na produção, o videoclipe também mergulha na cosmogonia Karajá-Xambioá e no mito de Tainahaky, o jovem estrela que desce para se casar com uma bela indígena e ensina o povo a plantar e cultivar a terra. A obra foi lançada oficialmente durante a Exposição Maniò – ReflorestarMentes, em Palmas, como parte de uma programação dedicada à arte, à ancestralidade e à valorização dos povos originários.

Para Marco Aurélio Jacob, a experiência de registrar a Festa do Peixe representou mais do que uma produção audiovisual. Foi uma vivência de escuta, respeito e aprendizado diante da grandeza cultural de um dos povos mais importantes da história do Araguaia.

“Unir fotografia, música, grafismos, artefatos, mitologia e espiritualidade Karajá-Xambioá foi uma honra. A Festa do Peixe revela ao Brasil uma riqueza cultural imensa, que precisa ser conhecida, respeitada e preservada”, destacou o diretor na época do lançamento do videoclipe.

Assista aqui o videoclipe “Uturá Lysina – Festa do Peixe”:

Celebração, identidade e futuro

A Festa do Peixe dos Karajá-Xambioá é, ao mesmo tempo, tradição e futuro. Ao reunir crianças, jovens, anciãos, lideranças, visitantes e povos convidados, a celebração fortalece vínculos comunitários e reafirma a importância de proteger os rios, os territórios e os saberes indígenas.

Em tempos de mudanças climáticas, pressão sobre os territórios e desafios para a preservação cultural, eventos como este lembram que os povos originários não guardam apenas o passado: eles ensinam caminhos para o futuro.

Entre os dias 3 e 5 de julho, o Rio Araguaia será novamente palco de cantos, pinturas, rituais e encontros. E, nas águas que atravessam o Tocantins, a Festa do Peixe Karajá-Xambioá seguirá reafirmando uma mensagem ancestral: cultura também é território, memória também é resistência, e celebrar o peixe é celebrar a vida.