
Aproximar a conservação ambiental e o desenvolvimento rural sustentável tem sido um grande desafio, tornando crescente e urgente a necessidade de iniciativas com esse objetivo. Neste cenário, surgiu o Tucãtins Silvestre. Idealizado e executado pelo Instituto Federal do Tocantins (IFTO) no campus de Formoso do Araguaia, o projeto atua no monitoramento da fauna silvestre e na conservação da biodiversidade por meio de pesquisas de campo, registros audiovisuais e ações de educação ambiental no Cerrado tocantinense.
Partindo da premissa fundamental de “conhecer para conservar”, e com base nos dados científicos coletados, a iniciativa busca o diálogo com produtores rurais que mantêm áreas de reserva legal em suas propriedades, demonstrando que a biodiversidade pode contribuir diretamente para o equilíbrio ecológico e para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Por meio de monitoramento audiovisual às margens do rio Javaés, na região da Ilha do Bananal, o Tucãtins Silvestre já registrou cerca de 40 espécies de mamíferos e aves. Dentre elas, algumas com elevado risco de extinção na natureza, como a anta (Tapirus terrestris), o queixada (Tayassu pecari), o mutum-de-penacho (Crax fasciolata), tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a ariranha (Pteronura brasiliensis), este último classificado globalmente como “Em Perigo” (Endangered – EN), uma das categorias mais graves de ameaça à biodiversidade segundo critérios internacionais de conservação.
A proposta de Monitoramento Ecossistêmico Agroambiental do projeto parte da ideia de apresentar aos produtores rurais as vantagens de conservar a fauna silvestre para garantir o fortalecimento da agricultura e da pecuária. Isso porque ambientes biodiversos ajudam no controle natural de pragas, contribuem para a fertilidade do solo, aumentam a resiliência ambiental e auxiliam na adaptação às mudanças climáticas.
Entre as ações do projeto, destacam-se a realização de rodas de conversa com as famílias proprietárias de ranchos próximos à área de estudo e a apresentação da iniciativa na Aldeia Txuiri, na Ilha do Bananal, junto à Escola Indígena Txuiri Hina, fortalecendo o diálogo com a comunidade indígena local.
De acordo com a coordenadora do Tucãtins Silvestre, Polyanni Dallara, os registros realizados, durante as expedições da equipe, auxiliam na compreensão de como os animais silvestres se comportam diante do avanço das pressões humanas sobre os ecossistemas. “A partir do monitoramento por registros audiovisuais, é possível identificar áreas sensíveis, acompanhar deslocamentos da fauna e subsidiar ações de manejo e mitigação de conflitos entre animais e atividades humanas. A fragmentação dos habitats, por exemplo, reduz a oferta de presas naturais e pode aproximar grandes predadores, como a onça-parda (Puma concolor) e a onça-pintada (Panthera onca), de áreas rurais e de criação animal. Assim, o monitoramento ambiental torna-se uma ferramenta importante para conciliar conservação da biodiversidade e produção agropecuária”, explica Polyanni.
A coordenadora acrescenta, ainda, que a iniciativa se destaca por seu caráter pioneiro, não apenas entre instituições de ensino do estado do Tocantins, mas também nessa área específica da Ilha do Bananal, onde ainda são escassas ações educacionais e científicas contínuas voltadas ao monitoramento audiovisual da fauna, produção de conhecimento ambiental e divulgação científica integrada à educação. “Para o Tucãtins Silvestre, a educação ambiental é um eixo fundamental para conciliar desenvolvimento econômico, produção agropecuária e conservação da biodiversidade, fortalecendo uma cultura de cuidado, corresponsabilidade e valorização do patrimônio natural do Cerrado tocantinense. Aliando ciência, tecnologia, educação ambiental e sensibilização social, o projeto transforma registros audiovisuais da fauna em instrumentos de pesquisa, conscientização e valorização da biodiversidade brasileira”, finaliza.
Resultados
O projeto Tucãtins Silvestre foi contemplado pelo Edital nº 25/2025: Seleção de Projetos de Pesquisa Aplicada em Arranjos Produtivos Locais do Programa de Apoio à Pesquisa (PAP/APL) e conquistou o 1º lugar na categoria Multidisciplinar durante a 16ª Jornada de Iniciação Científica do IFTO. Além disso, teve o artigo científico intitulado “Tucãtins Silvestre: Educação Ambiental e Conservação da Biodiversidade do Cerrado” publicado na Revista Querubim (ISSN 1809-3264, Qualis B1 – Ensino), vinculada à Universidade Federal Fluminense (UFF), além da publicação de trabalhos nos anais do III Congresso Nacional de Ecologia e Sustentabilidade On-line (III CONAECOS), disponíveis por meio do DOI: https://bio10editora.com.br/bio10ed/catalog/book/202. Entre eles, destacam-se: “Quando a paisagem se cura, o queixada (Tayassu pecari) caminha: sinais de esperança na Ilha do Bananal/TO”; “Raízes do futuro: avaliação multiespécie para recuperação de áreas degradadas na Ilha do Bananal” e “Caminhos que reflorestam: a anta (Tapirus terrestris) e a conservação na Ilha do Bananal/TO”.