
Uma análise técnica do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas físicas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de jogos de azar e apostas no período analisado em 2024, com valores mensais entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. No mercado regulado, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda informou que 17,7 milhões de CPFs únicos realizaram apostas em plataformas autorizadas no primeiro semestre de 2025.
Os números reforçam a preocupação de especialistas em saúde mental com o crescimento das apostas online, especialmente entre jovens adultos. A facilidade de acesso às plataformas, a publicidade intensa e a associação das bets ao entretenimento esportivo ampliam a exposição a um comportamento que, em alguns casos, pode deixar de ser ocasional e se transformar em compulsão.
Para o médico psiquiatra e professor da Afya Palmas, Teruã Borges, o avanço das apostas online preocupa porque o acesso está cada vez mais simples. “Hoje é muito fácil apostar. Basta um celular, acesso à internet e poucos cliques. Além disso, as plataformas utilizam recursos que estimulam o uso repetitivo, como recompensas rápidas, notificações constantes e promessas de ganhos elevados”, explica.
Segundo o especialista, esse funcionamento pode ativar circuitos cerebrais relacionados à recompensa, ao prazer e à motivação. Entre jovens adultos, o risco pode ser ainda maior por se tratar de uma fase da vida marcada por maior impulsividade, busca por novidades e menor percepção das consequências a longo prazo.
“Isso aumenta o risco de desenvolvimento de comportamento compulsivo, com impactos importantes não apenas na vida de quem aposta, mas também das pessoas ao redor, prejudicando relacionamentos, vida financeira e saúde mental”, afirma.
Grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo, também podem ampliar a exposição às bets. De acordo com o psiquiatra, nesses períodos, as casas de apostas costumam intensificar campanhas publicitárias, muitas vezes associando o ato de apostar à emoção de torcer.
“Essa comunicação acaba transmitindo a falsa impressão de que apostar faz parte da experiência esportiva. Quanto maior a exposição, maior a tendência de normalização desse comportamento, especialmente entre os jovens, que podem passar a enxergar as apostas como algo rotineiro e sem riscos”, alerta.
O principal sinal de alerta, segundo Teruã, é a perda de controle. Isso acontece quando a pessoa tenta reduzir ou parar de apostar, mas não consegue. Outros sinais incluem apostar valores cada vez maiores, tentar recuperar perdas com novas apostas, passar muito tempo pensando no assunto e continuar apostando mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares ou profissionais.
“A aposta deixa de ser um lazer eventual e passa a ocupar um espaço central na rotina e nas preocupações da pessoa”, destaca.
Entre os impactos mais comuns estão endividamento, ansiedade, irritabilidade, alterações do sono, dificuldade de concentração, isolamento social, queda no desempenho acadêmico ou profissional e conflitos familiares. Em casos mais graves, podem surgir sintomas depressivos, culpa, desesperança e até pensamentos suicidas, especialmente quando as perdas financeiras são significativas.
O professor reforça que o tema precisa ser tratado sem moralismo. Segundo ele, a compulsão por apostas é reconhecida como um transtorno relacionado ao comportamento aditivo e não deve ser reduzida à falta de força de vontade.
“Julgamentos não tratam ninguém. Existem alterações nos mecanismos cerebrais envolvidos com recompensa, tomada de decisão e controle dos impulsos. Isso não elimina a responsabilidade individual, mas mostra que o problema precisa ser abordado com informação, acolhimento e tratamento adequado”, pontua.
Para familiares e amigos, a orientação é conversar sem julgamentos, demonstrar preocupação genuína e incentivar a busca por ajuda profissional. Também pode ser necessário ajudar a estabelecer limites financeiros, reduzir o acesso às plataformas de apostas e fortalecer atividades saudáveis, como exercícios físicos, lazer e convivência social.
A ajuda profissional deve ser procurada assim que a pessoa perceber que perdeu o controle sobre as apostas ou quando o comportamento começa a causar prejuízos emocionais, financeiros, familiares ou profissionais.
“Não é preciso esperar a situação chegar ao extremo. Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de recuperação. O acompanhamento pode envolver psiquiatria, psicoterapia e, em alguns casos, uso de medicações para controlar impulsividade, ansiedade ou outros transtornos associados. O mais importante é lembrar que existe tratamento e que buscar ajuda é um passo fundamental para retomar o controle da própria vida”, conclui.
Sobre a Afya
A Afya, maior hub de educação e tecnologia para a prática médica no Brasil, reúne 38 instituições de ensino superior em todas as regiões do país, 33 delas com cursos de Medicina e 20 unidades que promovem pós-graduação e educação continuada em áreas médicas e de saúde. São 3.653 vagas de Medicina autorizadas pelo Ministério da Educação (MEC), com mais de 23 mil alunos formados nos últimos 25 anos. Pioneira em práticas digitais para aprendizagem contínua e suporte ao exercício da Medicina, um a cada três médicos e estudantes de Medicina no país utiliza ao menos uma solução digital do portfólio, como Afya Whitebook, Afya iClinic e Afya Papers. Primeira empresa de educação médica a abrir capital na Nasdaq, em 2019, a Afya recebeu prêmios do jornal Valor Econômico, incluindo “Valor Inovação” (2023) como a mais inovadora do Brasil e “Valor 1000” (2021, 2023 e 2024) como a melhor empresa de educação. Virgílio Gibbon, CEO da Afya, foi reconhecido como o melhor CEO na área de Educação pelo prêmio “Executivo de Valor” (2023). Em 2024, a empresa passou a integrar o programa “Liderança com ImPacto”, do Pacto Global da ONU no Brasil, como porta-voz da ODS 3 — Saúde e Bem-Estar. Mais informações em [http://www.afya.com.br](http://www.afya.com.br) e ir.afya.com.br