As armadilhas da política da planilha nestas eleições no Tocantins

À medida que as convenções se aproximam e a corrida eleitoral ganha velocidade, um fenômeno chama atenção nos bastidores da política tocantinense: a crença de que uma planilha é capaz de substituir a política.

Nas disputas proporcionais, especialmente para a Câmara dos Deputados, mas também nas campanhas para deputado estadual e até mesmo para o Senado, multiplicam-se os cálculos. Municípios são divididos por potencial de votos, lideranças são contabilizadas em números, bases eleitorais são estimadas em tabelas e projeções alimentam um sentimento de segurança que, muitas vezes, não encontra respaldo na realidade.

A chamada “política da planilha” nunca foi novidade. O problema é quando ela deixa de ser uma ferramenta para se transformar na própria estratégia.

Uma liderança política não é um número fixo em uma célula de Excel. Ela depende de contexto, de relações, de credibilidade e, principalmente, da capacidade de mobilizar pessoas. Nem todo apoio anunciado se converte em voto. Nem toda liderança entrega o capital político que afirma possuir. E nem toda conta feita em gabinete resiste ao teste das urnas.

Há pré-candidatos à Câmara Federal que parecem concentrar praticamente toda a sua energia na montagem dessas planilhas. Viajam, colecionam apoios, contabilizam promessas e acreditam que a soma dos números será suficiente para garantir uma cadeira em Brasília. Enquanto isso, deixam em segundo plano aspectos que tendem a pesar cada vez mais: comunicação consistente, construção de imagem, presença pública, identificação com o eleitor e fortalecimento de uma narrativa capaz de conectar sua história às demandas da população.

Por outro lado, existem pré-candidatos que também trabalham com planejamento eleitoral e organização de bases, afinal, isso faz parte da política. A diferença é que não depositam todas as fichas na matemática eleitoral. Eles investem na construção de reputação, cultivam relações permanentes com lideranças locais, fortalecem sua presença nos municípios e, sobretudo, conquistam votos que nascem da confiança no nome, na trajetória e na capacidade de representar o eleitor.

Essa diferença pode parecer sutil agora, mas costuma ficar evidente quando as urnas são abertas.

Em eleições cada vez mais disputadas, o voto não obedece integralmente às projeções. O eleitor está mais informado, mais exposto às redes sociais, mais sensível à percepção sobre quem conhece, em quem confia e quem realmente representa suas causas. O apoio de uma liderança continua importante, mas já não é suficiente para determinar sozinho o comportamento de milhares de eleitores.

A política continua sendo feita por pessoas, e não apenas por cálculos.

Quem reduzir uma campanha a uma soma de apoios corre o risco de descobrir, tarde demais, que a planilha projetava votos que nunca existiram de fato. Porque entre o compromisso firmado em uma reunião e o voto depositado na urna existe um caminho longo, repleto de variáveis que nenhuma fórmula consegue calcular.

As campanhas que compreenderem essa realidade terão uma vantagem competitiva importante. As que insistirem em acreditar que números, isoladamente, vencem eleições poderão encontrar, na noite da apuração, a maior falha de cálculo de toda a campanha.

Maju Cotrim
Trocando em Miúdos

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!

Coluna escrita por Maju Cotrim escritora e consultora de comunicação. CEO Editora-Chefe da Gazeta do Cerrado. Jornalismo de causa, social, político e anti-fake!